Funcionários da USP invadem reitoria

Servidores e alunos quebraram portão, porta e janela e entraram pelos fundos; agora, prometem ocupação por tempo indeterminado

Paulo Saldaña, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2010 | 00h00

Disfarce. Alunos que colaboraram na invasão cobriram o rosto temendo represálias; eles também espalharam cartazes de protesto pelo câmpus  Servidores grevistas da Universidade de São Paulo (USP) iniciaram ontem uma ocupação por tempo indeterminado do prédio da reitoria, em protesto contra o corte de salário. Por volta das 10 horas, funcionários e alunos invadiram o edifício pelos fundos, após arrombarem um portão e quebrarem uma porta e uma janela. A parede de uma sala foi destruída a marretadas.

O ato foi comandado pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), que havia prometido uma radicalização da greve que já dura 36 dias. "Vandalismo é o que o reitor (João Grandino Rodas) fez contra essas famílias", afirmou Claudionor Brandão, líder sindical que foi demitido em 2008.

Cerca de mil funcionários ligados à prefeitura do câmpus do Butantã e à Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) tiveram parte do salário cortado pelos dias parados. "Nossa medida de força é uma resposta ao corte, que ataca o direito de greve", disse Magno de Carvalho, que também é do Sintusp.

A greve começou no dia 5 de maio, em protesto contra o aumento de 6% dado apenas a professores. Segundo os grevistas, a atitude quebra a isonomia entre servidores. Após o início da paralisação, o Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que define a política salarial da USP, Unesp e Unicamp, concedeu reajuste de 6,57% a todos funcionários - e novamente aos professores. Sem a isonomia, as negociações foram suspensas entre as partes.

A reitoria já estava fechada pelo movimento desde o dia 25 de maio. O comando da greve promete deixar o prédio apenas quando o reitor João Grandino Rodas recuar e pagar os salários cortados. "Vamos precisar até de um telão aqui por conta da Copa", disse Carvalho.

A última invasão da reitoria, que hoje completa um ano, resultou em confrontos entre alunos e a PM. Com a nova ocupação, renasce a apreensão em relação à volta da polícia ao câmpus. "Se ele (Rodas) chamar a PM, terá de assumir as responsabilidades."

Mobilização. Desde as 8 horas de ontem, funcionários e alunos já se reuniam em frente à reitoria. Após a ocupação, cerca de 200 funcionários realizaram uma assembleia dentro do prédio. Alguns alunos que apoiavam o movimento permaneceram encapuzados, com medo de represálias. Cerca de 40 grevistas preferiram não entrar na reitoria, por discordar da invasão.

Apesar da quebra de paredes e janelas, os funcionários prometem preservar o prédio. "Não vamos deixar ninguém subir nos andares e providenciaremos a reconstrução da parede quebrada", afirmou Carvalho. A parede separa os pavimentos da reitoria da sala de reunião por onde os servidores entraram.

Aula. À tarde, o mesmo local serviu de sala de aula para o professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) Luiz Renato Martins. Ele transferiu para a reitoria uma aula de História da Arte, em apoio à ocupação.

"Viemos apoiar plenamente esse gesto de grande envergadura. Se alguma coisa não tem legitimidade é o reitor", afirmou Martins. Cerca de 20 alunos acompanharam a aula. "Seria estranho a universidade parar e você não se envolver", disse a estudante do 1.º ano de Artes Plásticas Daniele Cardoso, de 19 anos.

Em geral, os professores não aderiram ao movimento. A Associação de Docentes da Universidade (Adusp), porém, informou que apoia as reivindicações.

O deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL-SP) também esteve na USP para prestar solidariedade aos grevistas. Segundo ele, a universidade tem orçamento para atender as reivindicações. / COLABOROU MARIANA MANDELLI

CRONOLOGIA

3 de maio de 2007

Primeira invasão

Um grupo de alunos não é recebido pela reitora e decide aguardá-la no local. O prédio da reitoria permanece ocupado por 51 dias - no período são deflagradas greves de estudantes, servidores e professores.

9 de junho de 2009

Confronto com a PM

A greve de funcionários da USP resulta em enfrentamento com a Polícia Militar dentro do câmpus. A paralisação, que durou mais de um mês, teve a adesão dos alunos, que bloquearam a reitoria. No confronto para desocupar o edifício, a PM usa balas de borracha. Cinco pessoas ficam feridas e três são detidas.

5 de maio de 2010

Greve de funcionários

O sindicato dos funcionários decide entrar em greve, alegando quebra da isonomia com os docentes. Após quatro reuniões sem conseguir igualar o reajuste, o grupo, que já bloqueava a entrada do prédio, decidiu ontem invadi-lo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.