Agência O Globo
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'Governos precisam enfrentar com coragem o problema dos limites do planeta'

Para Sergio Besserman, coordenador da Rio+20 na prefeitura do Rio, falta aos líderes políticos criatividade para criar modelo de expansão econômica sustentável

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo,

11 Março 2012 | 03h06

O economista Sergio Besserman Vianna é o encarregado, por assim dizer, na Prefeitura do Rio por organizar a a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Mas ele fala sobre o evento com um conhecimento de causa ainda mais amplo: do pesquisador que vem há anos investigando questões ligadas às mudanças climáticas e aos danos que isso pode trazer às cidades; como militante das causas ambientais e também como colaborador do Ministério do Meio Ambiente e do Itamaraty.

Para ele, não é um erro a Rio+20 não ser uma conferência ambiental, justamente porque o problema que a humanidade enfrenta está intimamente ligado com o modelo econômico que desenvolvemos ao longo dos último séculos. "O que temos hoje é uma única questão: como a economia global pode voltar a crescer sem esbarrar nos limites do planeta", diz. Na entrevista a seguir, ele explica por quê:

O que podemos esperar da Rio+20? Os temas que devem ser discutidos parecem ao mesmo tempo tão vagos e tão abrangentes.

Existem duas formas de olhar para a Rio+20. Uma é mais burocrático-formal, vinculada aos acordos no âmbito da Organização das Nações Unidas, das negociações diplomáticas. A outra é olhando para o mandato da Rio+20, que é bem diferente da Rio 92. Não é uma cúpula de chefes de estado, é uma conferência das Nações Unidas, está um degrau abaixo, digamos assim, que quer discutir desenvolvimento sustentável, economia verde e combate à pobreza.

Não é coisa demais?

É um jogo. À primeira vista geraria uma leitura reducionista. Que economia verde é toda inovação tecnológica ou modo de fazer que seja um pouco mais eficiente no uso dos recursos naturais. E combate à pobreza fica parecendo uma coisa do tipo: cuidado com essas coisas relacionadas ao meio ambiente para não atrapalharem o processo de inclusão social. Mas é um movimento em espiral. O tema é exatamente esse: que tipo de economia pode existir que não esbarre nos limites do planeta e consiga dar à civilização uma noção de avanço e progresso na sociabilidade. Que tipo de economia pode existir que não nos leve aos piores cenários de aquecimento global, à extinção de espécies, à acidificação dos oceanos e que mantenha a inclusão social. Esse modelo que está aí não serve, porque esbarra nos limites do planeta. E quem esbarra hoje é 1,5 bilhão de pessoas, mas 5,5 bilhões querem esbarrar. Claramente isso é insustentável. O modelo oferecido não é generalizável.

Mas quando os governos fizeram declarações de que essa não é uma conferência de meio ambiente, é de economia e combate à pobreza, houve reações negativas.

Na verdade a reação de muita gente, inclusive a minha, foi pensar: "Claro! Inclusive nem existe esse problema de meio ambiente." Temos mesmo de discutir a macro-economia global, os preços que nela são praticados, a desigualdade. Repito: nem existe um problema de meio ambiente. Em seus bilhões de anos, ele sempre encontrará formas de se recuperar. A natureza não tem um problema no tempo dela. Essa é a visão do século 20, que colocou conservacionismo de um lado e crescimento econômico de outro. Isso é uma balela. O que temos hoje é uma única questão: como a economia global pode voltar a crescer sem esbarrar nos limites do planeta.

E o sr. acha que os governantes têm clara essa noção?

O que fica claro é esse jogo. Mas não há ainda maturidade na governança global ou no processo político global. Não existe por trás dele uma massa crítica, muita mais ampla que as ações dos governos, que lhes permita enfrentar com coragem o problema dos limites do planeta. Ele nem sai de cima da mesa, nem é abordado diretamente. Isso gera uma ambiguidade, mas é normal em um processo político.

Qual pode ser o produto da conferência?

É restrito, é uma declaração política. Haverá uma discussão sobre governança global, mas que será reduzida a uma discussão de instâncias internas das Nações Unidas. Se o Pnuma deve ser empoderado, se deve ou não existir o conselho x e y. Quando de novo o que está por trás não é isso, mas a carência de governança global para que as decisões se tornem ação. Não vai discutir o verdadeiro problema, que é: não existe governança no mundo para esse processo de transformação. Quanto à declaração política, a minha visão é que, como isso tudo se trata de um processo político, histórico, de gigantesca profundidade, se sair uma declaração dos chefes de estado que impulsione as negociações climáticas e da biodiversidade, a agenda do desenvolvimento sustentável, vai ajudar. Se for uma declaração pífia, a qual falte coragem para reconhecer a gravidade do momento de crise ecológica, aí não vai ajudar. Mas pode ser que o comício que vá vaiá-la ajude.

Já são 40 anos de discussões e ainda não se avançou muito. O sr. acha que em parte isso pode ter ocorrido porque até então estava se separando a questão ambiental das demais?

Concordo e há dois aspectos nessa pergunta. O primeiro: hoje há uma compreensão de que a dicotomia de colocar o ambiente de um lado e o projeto econômico e social do outro é uma bobagem. E que não há possibilidade de alcançar o desenvolvimento econômico se não encontrarmos uma forma de lidar com os problemas que estamos vivenciando. Simultaneamente, estamos deixando de lado aquela postura infantil de que estamos estragando a natureza do planeta e, por isso, nos cabe ter a responsabilidade ética de salvar a natureza. Não se trata de ciência nova, mas uma evolução do pensamento. São tempos muito diferentes os da humanidade e os da natureza. O nosso se conta em séculos e milhares de anos, e para a natureza isso é um piscar de olhos. Não temos poder nenhum para estragar a natureza, nem temos natureza nenhuma para salvar porque também não temos poder para isso. Nós temos um problema: estamos estragando a natureza do nosso tempo. E nós dependemos dela para ter água, solo, clima, biodiversidade. E a população continua crescendo e há necessidade de inclusão social. Então não se trata de brincar de Deus. Mas se trata de que o desenvolvimento da humanidade, das civilizações, passa por encontrar formas de modificar o atual rumo de insustentabilidade da produção e do consumo. E é muito difícil. Porque pela primeira vez na história a humanidade estará lidando com tomar decisões de longo prazo. Estamos pedindo aos governantes que se elegem olhando para quatro, oito anos no máximo, trazerem para si custos significativos em nome dos filhos dos nossos filhos. E isso tem de ser feito por toda a humanidade. Porque o problema é global.

Mas ainda nem sequer conseguimos resolver problemas locais, de curto prazo, como o das chuvas todo ano...

Verdade. E a gente sabe que deve chover mais, o nível do mar vai subir. Os problemas locais e os globais estão totalmente interconectados. O segundo aspecto é que a situação hoje é outra. Em 92, o que prevalecia era um sentimento, que se revelou falso pouco depois, de que a humanidade havia deixado para trás a época das grandes crises econômicas, de que a sintonia fina dos Bancos Centrais e mais a internet propiciariam uma era de prosperidade contínua, de que os mercados eram capazes de se autorregular. O clima em 92 era de otimismo. Quando o conhecimento científico apresentava que tínhamos um problemão, a reação das autoridades era de que a humanidade seria capaz de enfrentá-los. Hoje sabemos que era um otimismo exagerado, era panglossiano. Hoje a Rio+20 se realiza em um contexto muito distinto. Por um lado temos a crise econômica que começou em 2008, a maior desde 1929, com todos os seus desafios pela frente. Nenhum dos desequilíbrios macro-econômicos globais fundamentais que levaram à crise sequer começaram a ser enfretados. Por enquanto só estamos patinando de lá para cá. Não é apenas o fato de que a humanidade não foi capaz de realizar nenhuma ação efetiva para enfrentar o problema do clima e da biodiversidade. Também são 20 anos de muito mais pesquisa e ferramentas tecnológicas para conhecer a realidade do planeta, e o quadro que o conhecimento nos apresenta hoje é de uma gravidade muito maior do que aquela que conhecíamos em 92. Não é o apocalipse, mas é muito, muito grave.

O sr. está otimista?

Vamos guardar o pessimismo para dias melhores.

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