La Masia, a fábrica de craques que leva o Barcelona à glória

Escolinha forma atletas como Messi, Xavi e Iniesta, que conduziram time a 6 títulos em 2009

Jamil Chade, BARCELONA, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2010 | 00h00

"Sonhei que, em minha estreia, marquei o gol da vitória do Barça. Foi incrível." O relato é de um dos garotos que, literalmente, dormem a poucos metros do mítico gramado do Camp Nou. São 60 meninos, entre 13 e 19 anos, catalães em sua maioria, mas também andaluzes, brasileiros, latino-americanos e africanos. Os sonhos são apenas sonhos. Mas, a cada dia, lembram-se que dos mesmos dormitórios que hoje ocupam saíram craques como Messi, Xavi, Puyol, Iniesta, Fabregas, Pedro e o goleiro Valdés.

Essa é a realidade da escolinha de futebol do Barcelona, conhecida como La Masia. Em 30 anos, já tinha formado craques como Guillermo Amor e Josep Guardiola, hoje técnico da equipe que ganhou tudo no ano passado. Mas, em 2009, conseguiu o que poucos clubes poderiam esperar de seus times de base: Messi foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa, enquanto Xavi e Iniesta estiveram entre os cinco mais votados.

O Estado visitou a fábrica de talentos, situada em uma casa de pedra discreta nos fundos do Camp Nou, com uma história de 300 anos. Durante os anos 50, foi usada como a residência de arquitetos e engenheiros que trabalharam na construção do estádio. Depois, passou a ser utilizada pelo clube como residência para jovens promessas do futebol. O local conta com uma biblioteca, dormitórios, refeitório e vestiários.

Cerca de 500 jovens já passaram por La Masia, o berço do barcelonismo. Muitos nunca chegaram à Primeira Divisão do futebol espanhol. De acordo com estatísticas do clube, apenas 12% das promessas atuaram em pelo menos uma partida oficial. Mas o investimento mostrou que compensa.

Guardiola não esconde que o berço do time foi fundamental para os seis títulos conquistados. "É o investimento mais barato a longo prazo que o clube pode fazer. Xavi, Iniesta e Messi tiveram um custo zero e, em 2009, estiveram entre os cinco melhores jogadores do mundo. Isso é impagável", declarou o técnico, que entrou na escolinha aos 13 anos.

Albert Capello, técnico dos juvenis do Barça, contou ao Estado que toda a preparação dos futuros craques está baseada em cinco princípios. "A filosofia Barça exige inteligência, boa técnica, rapidez, atitude e caráter", explicou. Para chegar a isso, o projeto é detalhado. No que se refere ao futebol, há quase duas leis fundamentais. A primeira é a de que o objetivo do jogo é marcar gols e, portanto, todos são incentivados a buscar um estilo ofensivo.

Além disso, os mais jovens quase não treinam a parte física. Toda a concentração está em garantir o controle da bola e da técnica. "O resto vem depois", explica Capello.

Mas a preparação não é apenas para o futebol. O cotidiano dos jovens começa com um café da manha às 7 horas. Todos são obrigados a ir à escola e quem tirar nota baixa é suspenso por um jogo. Pela tarde, o treinamento começa.

Um comportamento considerado como inadequado é motivo de expulsão. "Muitos não chegarão a ser atletas profissionais. Portanto, queremos garantir que tenham educação e uma conduta correta", disse Capello. O respeito a ordens e decisões também é considerado fundamental. Nenhum jogador pode questionar determinações de técnicos ou árbitros, sob a ameaça de serem punidos. Mesmo nos treinos, todos são obrigados a ter a camisa para dentro do calção.

Muitos na Masia lembram que nem todos os craques de hoje tiveram momentos bons. Iniesta, por exemplo, foi trazido em 1996 do Albacete, com apenas 12 anos. Os funcionários mais velhos lembram que era sempre um problema quando deixado pelos seus pais de volta ao centro, depois de passar um fim de semana em casa. "Iniesta chorava muito e era sempre um drama o domingo pela noite", contou um funcionário.

Messi, hoje o maior salário do Barcelona, chegou com 13 anos ao clube. Não dormia na La Masia, já que toda sua família decidiu se mudar de Rosário, na Argentina, para a cidade espanhola. No centro, Messi almoçava todos os dias e treinava, além de estudar. Todos se lembram: era muito introvertido e quase não falava. Hoje, as apostas estão colocadas sobre jovens como o brasileiro Thiago (filho do ex-jogador Mazinho, da seleção de 1994), o mexicano Jonathan e até sobre um israelense (Gai Assulin).

Para os cartolas do Barça, em plena era de contratos milionários e da concorrência do Real Madrid com transferências de valores recordes, o clube voltou a provar para muitos que o futebol de base dá resultados. Não por acaso, entre as brincadeiras dos garotos, o pior insulto é o de ser chamado de "madrilista".

Agora, a academia mais conhecida da atualidade vai se expandir e se internacionalizar. O Barcelona, já endividado, planeja investir mais de 8 milhões para criar um novo centro de formação de jogadores no interior da Catalunha, além de negociar no Brasil e na Argentina a criação de escolinhas. O sonho dos cartolas é a formação de jovens que possam ajudar a sanar as dívidas do clube.

Mas nem todos estão de acordo de que essa seja a forma mais justa de criar um clube. A Fifa teme que as escolinhas dos clubes ricos se transformem na nova forma de trazer dos países mais pobres os futuros craques, antes mesmo que se tornem profissionais. Na prática, teriam um custo zero para formar craques que serão depois revendidos por milhões ou gerarão uma audiência nas TVs equivalentes a verdadeiras fortunas para patrocinadores.

A entidade quer o estabelecimento de regras para o funcionamento dessas academias, com normas claras e compromissos de que os jovens poderão decidir para qual time querem jogar quando atingirem 18 anos.

Mas, enquanto a polêmica ocorre fora dos dormitórios, poucos são os jovens que estão preocupados com isso. Às 11 horas da noite, todos são obrigados a ir para a cama. Muitos voltarão a sonhar com a glória dos gols pelo Barça. Para a maioria, esses sonhos serão apenas sonhos. Para poucos, o início de uma carreira de títulos e contratos milionários.

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