Lula elogia acordo em Honduras

Presidente defende decisão de dar abrigo a Zelaya e diz que episódio deixa lição para a democracia na região

Denise Chrispim Marin, ENVIADA ESPECIAL, EL TIGRE, VENEZUELA, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, pouco antes de embarcar de volta da Venezuela para o Brasil, que o acordo entre o governo de facto de Honduras e o presidente deposto Manuel Zelaya mostra que prevaleceu o bom senso. Para ele, Honduras poderá voltar à normalidade depois do acordo. A lição desse episódio, segundo Lula, é "que ninguém aceita mais golpes militares e todo mundo defende o fortalecimento da democracia".

O presidente mostrou-se otimista com relação ao cumprimento do acordo que, para ele, deveu-se à consciência do presidente de facto, Roberto Micheletti, de que não é possível governar contra a vontade da maioria. "Se já é difícil governar quando tudo está a favor, é muito mais difícil quando tudo está contra", disse. "Eu acho que tudo vai terminar bem", completou.

O presidente ressaltou que a participação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e dos países da América do Sul em favor de um acordo foi importante. Ele também aproveitou para rebater as críticas que sofreu por ter autorizado o abrigo de Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa no dia 21 de setembro. Lembrou que, naquela ocasião, defendera que Zelaya seria hóspede do Brasil. "Eu não ia deixar ninguém tirá-lo de lá."

ITAMARATY

Num curto comunicado de sete linhas emitido ontem à tarde, o Ministério das Relações Exteriores informou que o governo brasileiro recebeu "com satisfação" o desfecho pacífico da crise política em Honduras e expressou congratulações ao povo hondurenho. "O Brasil confia em que o acordo alcançado permita a plena reintegração de Honduras ao sistema interamericano e internacional", afirmou o Itamaraty.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse na Venezuela, onde acompanha Lula em visita oficial, que o acordo entre o presidente deposto de Honduras e o presidente de facto sugere uma "evolução positiva" do quadro político hondurenho. O Itamaraty também diz esperar que os trâmites finais levem a uma vitória da democracia no em Honduras.

Amorim relatou que manteve, nesta semana, conversas sobre Honduras também com a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton.

Ele disse que a missão dos EUA que esteve em Tegucigalpa nos últimos dias contribuiu para a negociação: "O fato é que há novamente um diálogo entre o governo de facto e os zelaystas. Vamos aguardar."

A diplomacia brasileira, entretanto, foi pega de surpresa pelo acordo em Honduras. Horas antes de as duas facções firmarem o pacto, um alto funcionário do Itamaraty envolvido no caso dissera ao Estado que descartava a possibilidade de um acerto e dava como certo que os EUA buscariam uma "acomodação" com o governo hondurenho eleito no dia 29.

"Posso afirmar uma coisa: nós não vamos reconhecer ninguém", afirmara. "Honduras não tem condições de fazer uma eleição agora." No início da semana Amorim dissera que, caso os EUA reconhecessem o novo governo hondurenho, a OEA ficaria dividida.

Em sintonia com os Estados Unidos e a comunidade internacional, o governo brasileiro foi um dos primeiros a condenar o golpe e se posicionar pelo retorno de Zelaya. O líder deposto visitou o Brasil em agosto e escolheu o País como parceiro preferencial na sua estratégia de retomar o poder.

Em audiência no Senado, Amorim admitiu que Zelaya pedira ao Brasil um avião para retornar a Honduras.

CHÁVEZ

Para o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o acordo entre Zelaya e Micheletti é "um acerto bem-vindo se vier a colocar Honduras de volta no caminho da democracia." Chávez fez, porém, a ressalva de que estava mal informado sobre o entendimento, alcançado com a mediação dos Estados Unidos.

Já o vice-chanceler da Venezuela, Francisco Arias, disse que conversou com Zelaya e ouviu dele a manifestação de que espera que os EUA apoiem o acordo. "Espero que haja manifestação do presidente americano Barack Obama (sobre o acordo) e ela se dê de uma forma mais efetiva, agora que aconteceu", disse Zelaya, segundo relatos de Arias. O presidente deposto afirmou ainda que espera uma solução para as próximas 40 horas.COLABOROU VANNILDO MENDES E ROBERTO SIMON

LIÇÃO

Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente do Brasil

"A lição é que ninguém aceita mais golpes

militares e todo o mundo defende o fortalecimento da democracia"

"Eu acho que tudo vai terminar bem"

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