Protecionismo, um erro já cometido em 1930

Todos os dirigentes do mundo decretaram: a crise acabou. Os bancos vão bem. As bolsas batem recordes. Em todos os lugares, a atividade econômica cresce. No entanto, nessa avalanche de boas notícias, uma causa espanto: o Departamento Americano do Comércio aumentou em 31% os direitos alfandegários sobre tubos de aço importados da China. E elevou em proporções consideráveis, as tarifas sobre as importações de pneus chineses.

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

16 Setembro 2009 | 00h00

Essa decisão, de inspiração "protecionista", não combina com a novela do fim da crise. E nos traz à memória lembranças ruins. Como os EUA, quando da crise de 1929, tentaram acabar com a crise? Recorrendo ao protecionismo.

Em 1930, o senador americano Reed Smoot promoveu o aumento das tarifas sobre milhares de produtos. O resultado imediato foi um recuo de 65% das trocas comerciais internacionais. Todos os economistas, hoje, concordam que a guinada para um protecionismo cego teve um resultado nefasto, pois retardou de cinco a dez anos a recuperação da economia mundial.

A crise atual, que começou há um ano com o colapso do banco Lehman Brothers, levou aos mesmos reflexos protecionistas. Nos EUA, os sindicatos se opuseram vigorosamente às importações vindas de países onde os salários são baixos, o que provocou uma queda nas transações comerciais mundiais de 30% desde 2008.

Felizmente, Barack Obama até agora tem lutado contra o protecionismo. Mas esse aumento das tarifas sobre os pneus chineses levanta uma dúvida. Será que Obama mudou de opinião e se uniu, sem dizer, aos "protecionistas"? A China já respondeu, apresentando queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC), como também com um procedimento "antidumping" sobre as importações para a China de aves e peças de reposição americanas. Se esse duelo entre gigantes se prolongar e se agravar, teremos razões para temer um episódio protecionista muito grave.

Difícil achar que Obama renegou suas promessas eleitorais e sua ideologia. O aumento das tarifas alfandegárias deve ser interpretado num contexto mais amplo: o da batalha que Obama trava para impor sua reforma do sistema de saúde. Incapaz de desarmar seus oponentes , Obama provavelmente fez um gesto em favor dos sindicatos para conseguir, em troca, apoio à sua reforma da saúde.

No momento, a reação chinesa é adequada. Mas se outras derrapagens protecionistas se produzirem nos EUA, então a China poderá se envolver numa guerra comercial e todos os países serão vítimas.

A poucos dias da reunião do G-20 em Pittsburgh, é urgente que Obama envie uma mensagem clara, renovando suas promessas em favor da liberdade do comércio: com seu prestígio, sua estatura intelectual, sua eloquência, ele pode evitar que o seu país siga o caminho funesto do protecionismo.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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