Regiões Sudeste e Sul concentram 76% das ONGs

Dificuldade de financiamento explica baixa presença em regiões pobres; estudo de IBGE e Ipea mostra que 28% delas são religiosas e 1% é ligada ao meio ambiente

CLARISSA THOMÉ / RIO, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2012 | 02h01

As organizações não governamentais (ONGs) de assistência social não acompanham a distribuição da pobreza no País, aponta estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Das 30,4 mil entidades que atendem "aos grupos mais vulneráveis da população", 76,6% estão no Sul e no Sudeste, as regiões mais ricas. Norte e Nordeste têm apenas 17,2% dessas instituições.

No Nordeste se concentram as instituições de defesa de direitos, 37,7% do total - quase a metade (45,3%) das associações comunitárias e 52,5% das organizações de desenvolvimento rurais do País estão sediadas na região. O estudo analisa o registro das instituições, mas não avalia se elas exercem atividade fora das suas sedes.

Para a diretora executiva da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), Vera Masagão, isso ocorre por dificuldades de financiamento. "As associações comunitárias e de defesa do direitos são pequenas, contam com o trabalho de militantes e voluntários. Prestar serviço de assistência social envolve continuidade, funcionários, recursos contínuos. Ou se tem apoio governamental ou não se consegue manter esse trabalho. E o apoio governamental tem diminuído", afirma Vera.

A socióloga Anna Maria Medeiros Peliano, pesquisadora do Ipea, lembra que essas instituições também atuam com moradores de rua, adolescentes em risco, exploração sexual, problemas frequentes nas metrópoles.

"Tem de olhar com certo cuidado (o dado), porque há a ideia de que assistência social é restrita à pobreza, mas extrapola para outras questões", diz Anna Maria.

Divisão. Quase um terço das fundações privadas e associações sem fins lucrativos é religiosa (28,3%), seguida de associações patronais e profissionais(15,5%) e de desenvolvimento e defesa de direitos (14,6%).

As entidades de meio ambiente e proteção animal correspondem a menos de 1% das instituições. Existem 2.242 associações e fundações com esse perfil - 60% delas criadas na última década. "O crescimento não foi na proporção esperada. O estudo faz uma constatação, mas não permite explicação", afirma Anna Maria.

A pesquisa mostra que 2,1 milhões de pessoas trabalham nas 290,7 mil organizações que se enquadram nos critérios de definição das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos (Fasfil): não são estatais nem têm fins lucrativos, são legalmente constituídas, voluntárias e autoadministradas. Entre 2006 e 2010, houve crescimento de 8,8% dessas instituições - o que mostra uma desaceleração do setor. Entre 2002 e 2005, a expansão havia sido de 22,6%.

Do total das instituições, 40,8% surgiram na década passada, mas empregam apenas 18,5% da mão de obra. As mais antigas, criadas até 1980, correspondem a 12,7% das ONGs e ali trabalham 47,3% das pessoas empregadas no setor.

A mão de obra feminina é predominante - são 62,9% de mulheres, ante 37,1% de homens. O levantamento mostra que 1 em cada 3 pessoas empregadas em instituições sem fins lucrativos tem nível superior completo. Nos demais segmentos da economia acompanhados pelo IBGE, essa proporção é de 1 em cada 6. "É bem acima do que se observa em outros setores", afirma Anna Maria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.