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Opinião|O Brasil e sua jornada rumo ao net zero

Qualquer que seja o caminho para chegar ao net zero, quanto mais soluções baseadas na natureza implementadas de forma cuidadosa e com integridade, mais robusto e confiável ele será

Mais uma edição da Conferência do Clima está em curso e há muitas expectativas em relação ao Brasil. Não é por menos. O País é uma das nações mais sociobiodiversas do mundo, acolhe 60% da Amazônia, tem um histórico de liderança no debate global ambiental, assumirá a próxima presidência do G20, será a sede da COP-30 e, ao mesmo tempo, enfrenta constantes desafios para fazer cumprir a agenda de desenvolvimento sustentável. A recente queda de 22% do desmatamento na Amazônia e a correção da ambição climática brasileira para as metas de curto prazo são motivos de comemoração. Entretanto, um dos tópicos negligenciados no debate nacional ainda é o net zero brasileiro, ou a meta de alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa no meio do século.

Este conceito, que vem da ciência física do clima e que deverá ser operacionalizado por meio de sistemas sociais, políticos e econômicos, é a melhor chance que temos para limitar o aquecimento global em 1,5°C. É fato que o net zero se tornou uma espécie de cheque pré-datado assinado pelos países e empresas para ser compensado daqui a 20, 30 ou 40 anos. Mas, para que o futuro exista, é preciso agir agora.

Tão importante quanto o destino é a jornada rumo a ele. Ações tardias resultarão em aumento da temperatura média global acima dos níveis considerados seguros, e soluções que levem ao zero à custa da biodiversidade e dos ecossistemas resultarão num planeta igualmente inabitável.

Para o Brasil, soluções baseadas na natureza, como a eliminação do desmatamento, tanto ilegal quanto legal, e a restauração da vegetação nativa em larga escala, podem contribuir para quase 80% da meta de net zero do País. Considerando que as emissões da agricultura são difíceis de reduzir e que o setor energético tem grande proporção de renováveis, os 20% restantes necessariamente virão de soluções de engenharia de emissões negativas caras e não maduras, como a bioenergia com captura e armazenamento de carbono (Beccs). Ao priorizar as soluções baseadas na natureza, o Brasil ficará numa trajetória clara rumo ao net zero e poderá adiar a implantação extensiva de Beccs pelos próximos 20 anos. Além de menos custosas e de implementação imediata, as soluções baseadas na natureza oferecem múltiplos benefícios para além da redução de emissões como adaptação, combate à perda de biodiversidade e aumento da resiliência dos ecossistemas aos eventos climáticos extremos, que serão cada vez mais frequentes.

Mas o caminho descrito acima requer a eliminação do desmatamento, incluindo o legal, e quase o triplo da meta de 12 milhões de hectares de restauração da vegetação nativa. Isso porque a completa implementação do Código Florestal, apesar de crucial, poderá reduzir apenas 38% das emissões que o Brasil precisa zerar em 2050. A incorporação do net zero na Política Nacional de Mudança do Clima será um passo importante para guiar as ações de todos os setores da economia de forma integrada, além de ser crucial para alinhar as ambições de curto e de longo prazos.

Não há dúvidas de que o caminho rumo ao net zero também precisa dar-se de forma justa e equitativa, com aumento da eficiência energética, com mais investimentos em agricultura de baixo carbono e com a eliminação dos combustíveis fósseis no Brasil e no mundo. No entanto, qualquer que seja o caminho para o Brasil chegar ao net zero, quanto mais soluções baseadas na natureza implementadas de forma cuidadosa e com integridade, mais robusto e confiável ele será.

Num contexto em que a grande maioria dos países do mundo terá de investir grandes quantias de dinheiro em tecnologias onerosas para reduzir emissões, o Brasil tem uma vantagem única nas mãos. Precisamos trabalhar para que os cheques pré-datados emitidos hoje tenham fundo no futuro, sobretudo quando o que está em jogo é a existência de milhares de espécies no planeta, incluindo a nossa.

O enfrentamento às crises de clima e de biodiversidade no Brasil deve ir muito além do desmatamento ilegal zero. É hora de planejar o caminho rumo ao net zero de forma holística, com ambição e comprometimento. O Brasil tem tudo para liderar as ações contra as crises de clima e de biodiversidade, mas precisa alinhar suas ações do presente com a sua ambição de hoje e do futuro para, assim, guiar outros países pelo seu exemplo.

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CIENTISTA AMBIENTAL DA NATURE-BASED SOLUTIONS INITIATIVE E OXFORD NET ZERO E DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

Opinião por Aline Soterroni