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Opinião|Tarcísio e o desafio ideológico

A política brasileira precisa evoluir, e o governador de SP precisa entender que ele pode ser este instrumento que trará a ela uma alternativa saudável

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sabe que a sorte lhe sorriu. Em hipótese alguma ele estaria onde está hoje, se o curso da política brasileira não tivesse vivido momento disruptivo tão grave como o que vivemos a partir do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Mas a sorte precisa vir acompanhada de capacidade de ler o ambiente para se manter vivo. “A sorte favorece a mente preparada”, prognosticou Louis Pasteur. Tarcísio tem todas as prerrogativas de um líder que pode galgar voos maiores, e este voo maior, considerando o peso do governo do Estado de São Paulo, é um só: a Presidência da República.

No entanto, Tarcísio é refém do processo que o tirou da função de um competente burocrata para ser hoje um dos nomes mais proeminentes da política brasileira: o bolsonarismo. O que foi um ativo político importante reveste-se, agora, de um grave obstáculo para que Tarcísio possa representar uma direita moderna, atenta à evolução do século 21 e capaz de ler o momento social com a sagacidade de quem precisa unir a sociedade brasileira em torno de um projeto de país. E ir além: alcançar o centro político.

O ideal conservador, do liberalismo autêntico que defende as liberdades individuais como princípio básico, como o direito à propriedade, carece de uma liderança capaz de rivalizar com a esquerda sem os rompantes contra as instituições e o sistema. O ideário de direita não pode ser reduzido às sandices de Olavo de Carvalho e à verborragia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A máquina de fake news criada para manter esse projeto no poder fez uma leitura retrógrada dos princípios conservadores que precisam ser reconstruídos neste momento importante de normalização política.

O filósofo Stuart Mill, em sua obra Sobre a liberdade, de 1859, defende que a liberdade do indivíduo está acima de qualquer interesse coletivo. A sua tese trazia a preocupação de defender o indivíduo de qualquer tirania estatal. Todo pensamento liberal desde então é baseado na liberdade, nos preceitos da democracia representativa. Ao fim da guerra fria, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991, o mito comunista foi desfeito e Francis Fukuyama, em 1992, lançou a teoria do Fim da História, com o paradigma neoliberal sendo hegemônico a partir de então. Não é possível, portanto, manter a política de combate a um suposto comunismo que tem na alegoria do homem do saco para as crianças a mesma ameaça para os analfabetos políticos que militam nas redes sociais. Essa malta está a se reduzir consideravelmente, e a sobriedade tende a prevalecer na política brasileira.

Tarcísio de Freitas precisa entender que a sociedade brasileira é muito mais complexa que o bolsonarismo. A caricatura do bolsonarismo está vinculada a um segmento sectário da sociedade brasileira que não consegue enxergar que as novas formas de convívio social independem da visão teológica ou moralista que setores pugnam como comportamento aceitável.

As pesquisas qualitativas indicam que o eleitor está cansado dos outsiders e que, agora, busca nomes com experiência política, com capacidade para lidar com os conflitos inerentes ao exercício do poder. Querem alguém que, dentro da institucionalidade, resolva os problemas das pessoas. É a normalização da atividade política a que me referi anteriormente.

O conflito a que assistimos em todo o mundo decorrente de comportamentos considerados condenáveis ajuda a fidelizar uma parcela de público, mas limita o avanço de uma liderança com extrema capacidade administrativa. Flerta-se com a quebra da institucionalidade e com o Estado Democrático de Direito, combate-se a união homoafetiva, ignoram-se novos comportamentos em nome de uma moralidade parada no tempo e que não tem nada a contribuir com os tempos atuais.

Por que homenagear Erasmo Dias? Por que manter o discurso de ódio presente que só beneficia o radicalismo? Por que manter uma política sectária e impedir a convivência pacífica entre os contrários? Essas são as perguntas que gostaria de fazer diretamente ao governador do Estado mais importante da Federação, que tem um dos maiores orçamentos do Hemisfério Sul.

Não se combate o hegemonismo do PT com radicalismo. Devolva o radicalismo a eles. Combate-se o PT com inteligência e com sagacidade, entendendo que alguns movimentos da sociedade são irreversíveis e fazem parte da agenda do século 21.

Tarcísio de Freitas está refém de um processo que lhe traz conforto quando não enfrenta o debate sobre questões importantes, mas o limita a voos maiores quando não traz a modernidade para o debate de uma direita democrática. Tarcísio tem o desafio de modernizar a direita, de fazer o bom combate com uma agenda moderna, sem perder a referência daquilo que o levou a um papel importante na política brasileira. Mas que exige um afastamento estratégico da agenda do ex-presidente Jair Bolsonaro. Agradar o corporativismo da Polícia Militar abolindo o uso da câmera no uniforme é um exemplo da contradição que vive esse personagem político. Obrigado a justificar o injustificável, Tarcísio escorrega num debate em que confunde segurança pública com controle da ação policial. Fica preso a um reduto bolsonarista que pouco pode oferecer politicamente e ofusca um governo que busca falar em modernização da máquina pública. Fideliza um pequeno grupo ruidoso de radicais de extrema direita e corre o risco de gerar uma enorme resistência na complexa diversidade da sociedade brasileira.

A política brasileira precisa evoluir, e Tarcísio de Freitas precisa entender que ele pode ser este instrumento que trará uma alternativa saudável à política brasileira. Tanto o campo da direita quanto o da esquerda precisam avançar, respeitar seus limites e construir pontes de diálogos que possam consolidar a nossa tradição democrática.

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DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA UNIVERSIDADE DE LISBOA, MEMBRO DO CONSELHO CIENTÍFICO DO IPESPE, É PROFESSOR DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ

Opinião por Marcelo Pimentel

Doutor em Ciência Política pela Universidade de Lisboa, membro do conselho científico do Ipespe, é professor de Jornalismo da Universidade de Taubaté