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Opinião|Uma questão de princípios

Relações comerciais primam pelo pragmatismo, mas não abrem mão de que os parceiros tenham identidade definida

Princípios. São eles as regras que organizam uma sociedade, forjam uma nação. Alicerçam o sistema de pensamento e de práticas, consubstanciando valores que estabelecem base sólida para a tomada de decisões e a superação de problemas.

Em termos globais, as regras podem variar em virtude de aspectos culturais. Porém, na maioria dos países ocidentais, ética, justiça, igualdade, direitos humanos, liberdade individual e direito de propriedade são princípios universais, ancorados primordialmente nas premissas democráticas, em que a soberania reside no povo, que exerce seu poder por meio do voto e da participação política.

Reforça esse aspecto o que ensinou o filósofo e jurista estadunidense Ronald Dworkin (1931-2013). Para ele, de forma objetiva, os princípios seriam os direitos individuais, a liberdade e a igualdade, sendo a política o conjunto de metas utilizadas para assegurá-los.

O crescimento econômico e social de qualquer país em muito depende das relações geopolíticas. Aliás, foi graças a elas que o mundo começou a acelerar, cabendo reconhecer, em se tratando de Brasil, o que fizeram dom João VI, que assinou o tratado de abertura dos portos, estreitando conexões com a Inglaterra, e o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, que estreitou diálogo com os Estados Unidos.

Nessas relações, uma evidência: os que pensam igual se procuram. Têm confiança nos princípios comuns. Fazem, assim, um intercâmbio de prosperidade, ancorado em contratos comerciais que geram mútuos benefícios.

Isso explica por que, nas últimas décadas, ser uma democracia passou a ser tendência para ter legitimidade no mundo globalizado, razão pela qual vários países se converteram ao sistema democrático. Aqueles que não o fizeram se isolaram e enfrentam grandes dificuldades para avançar. É o que ocorre com a Coreia do Norte, com diversos países africanos e mesmo latino-americanos, como é o caso da Venezuela, que sofre uma crise socioeconômica, política e humanitária desde o final do governo Hugo Chávez, e é considerado, por trás de instrumentos democráticos, um regime autoritário. Eleições não significam democracia. China e Rússia são outros exemplos a ratificar essa afirmação.

Toda esta análise tem por fulcro avaliar como o Brasil hoje se posiciona no contexto global, haja vista recentes manifestações dando conta de que democracia é uma coisa relativa. Ora, princípios relativizados deixam de ser princípios.

E qual a leitura que nossos históricos parceiros comerciais fazem disso? Podem alguns dizer que nada resiste ao interesse financeiro. Que a força do dinheiro predomina. Entretanto, fatos demonstram que não é bem assim.

Quando eclodiu a Guerra das Malvinas (ou Falkland), conflito travado entre Argentina e Reino Unido – que durou de abril a de junho de 1982 –, a então primeira-ministra Margaret Thatcher foi pressionada a evitar oneroso confronto. Mas ela foi firme. Nunca abandonaria cidadãos britânicos. Princípios que prevalecem desde a Batalha de Hastings, de 1066, a última tentativa de invasão da Grã-Bretanha por estrangeiros.

Mais recentemente, em defesa do respeito à integridade territorial, a Europa se colocou frontalmente contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, sabendo que pagaria por isso o preço de crise energética. Um preço que honrou com sacrifício, afinal a invasão de um país por outro é simplesmente inaceitável.

Em junho passado, o Foro de São Paulo, retomado após quatro anos e caracterizado por ser espaço de diálogo entre forças de esquerda de países latino-americanos, teve por mote o combate à direita, ao neoliberalismo e declaração condenando o regime de exceção do presidente de direita de El Salvador. Mas, ao mesmo tempo, defendeu os governos de Cuba, Venezuela e da Nicarágua, chefiadas por líderes de esquerda e cujos princípios não conversam com os valores brasileiros.

Veja bem: nada contra o Foro de São Paulo ou qualquer fórum para livre discussão de ideias. Menos ainda contra os que pensam diferente. Isso é liberdade. Liberdade que a democracia garante.

O Brasil precisa de clareza de qual é a sua posição no campo geopolítico. Devemos isso às nações amigas com as quais negociamos produtos e serviços. Devemos isso ao povo brasileiro, que depende desse intercâmbio comercial para avançar econômica, social e ambientalmente.

Devemos isso, inclusive, às nações com quem, apesar das diferenças, realizamos negócios. A China é a China, sabemos disso. Não há qualquer dúvida sobre como ela pensa e funciona. Há transparência. Todavia, quem somos nós para ela em meio a tantos recados desencontrados?

Relações comerciais primam pelo pragmatismo, mas não abrem mão de que os parceiros tenham identidade definida.

Não podemos ignorar nossos princípios, valores inarredáveis que precisamos ter. Escrúpulos que, pautados pelo respeito humano, conduzem à paz social.

Por princípio, democracia não é relativa. Honestidade, liberdade e direitos humanos também não. Esta é a identidade brasileira que devemos apresentar em todas as oportunidades. E preservar!

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DIRETOR DO GRUPO JAFET, É VICE-PRESIDENTE DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS DO SECOVI-SP

Opinião por Basilio Jafet