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Opinião|Zoneamento em São Paulo, território em disputa

Benefício urbanístico e ambiental que os Jardins oferecem aos moradores deve ser compartilhado de forma firme e propositiva com toda a cidade

Atualização:

A vida acontece na cidade. É nela que crescemos, estudamos, trabalhamos, criamos vínculos. A cidade é, ao mesmo tempo, atriz, palco e cenário de nossa vida. Condiciona e é condicionada pela maneira que a sociedade estrutura suas desigualdades: o acesso ou ausência de infraestrutura, de equipamentos e serviços, de oportunidades de trabalho, lazer e fruição dos espaços públicos.

A depender do território e das suas oportunidades, há praças, parques, áreas verdes, escolas, moradia digna e emprego. A mesma cidade que abriga bairros com essa qualidade também pode consumir horas de vida em deslocamentos diários, em áreas com saneamento precário, serviços e equipamentos insuficientes e ausência de praças e áreas verdes. O planejamento, como diria o urbanista Antônio Baltar, deveria ser ferramenta para reduzir desigualdades.

Entretanto, seguimos aprofundando a segregação, apesar das raras iniciativas em sentido contrário, interrompidas pela intensa disputa pelo espaço urbano. Presenciamos a explosão da população em situação de rua, a intensificação da verticalização, atropelando a história da cidade, desconfigurando bairros inteiros sem democratizar o acesso a áreas infraestruturadas. Vivemos o constante aumento da frota de automóveis e a diminuição de áreas verdes em plena crise de mudança climática. Estamos na contramão do que deveria ser feito: estímulo ao transporte público, à mobilidade ativa e à promoção de moradia de interesse social digna e bem localizada.

A cidade é palco e reflexo de grandes desafios contemporâneos, é suporte dos sistemas de vida, como diria o fundamental urbanista Jorge Wilheim: urbanização acelerada, crise climática, desigualdade social, poluição, falta de moradia acessível e congestionamentos intermináveis. Para melhorar a vida na cidade, o planejamento urbano deveria ser a ferramenta para enfrentar estes problemas. Um bom plano incorpora diversas características, incluindo a democratização do acesso à cidade dotada de infraestrutura, de equipamentos e serviços públicos, moradia digna, oportunidades de geração de emprego e renda, lazer e fruição; habitação acessível, que incentiva a diversidade de opções para atender a diferentes necessidades e rendas, transporte público eficiente, com estímulo à mobilidade ativa – bicicletas, caminhadas e demais meios de transporte não motorizados. Há que ressaltar a importância do incentivo às inovações tecnológicas e à sustentabilidade, promovendo o uso eficiente de recursos para minimizar impactos ambientais.

O bom planejamento urbano utiliza dados para obter um diagnóstico correto e propor soluções. São Paulo tem centros de excelência que produzem esses dados. Infelizmente, foram pouco utilizados para as revisões do Plano Diretor e Zoneamento, evidenciando haver outros interesses a reger o planejamento. Este trabalho tão importante fica sujeito a pressões de diferentes tipos. E, sem análise adequada, quem pressiona mais e tem maior influência leva vantagem.

Para tentar mudar essa dinâmica, a Ame Jardins decidiu apoiar a elaboração de um Plano de Bairro, importante ferramenta de participação direta dos cidadãos e cidadãs nas decisões de futuro da nossa cidade. Para tanto, contratou dois respeitados escritórios, a JWurbana, nova denominação do escritório do prestigiado urbanista Jorge Wilheim (1928-2014), e a Natureza Urbana.

Três princípios nortearam o trabalho: utilizar os dados disponíveis para realizar o correto diagnóstico dos desafios e propor soluções aos problemas identificados; valorizar a história do território e seu patrimônio urbanístico, cultural e ambiental; e, por fim, escutar os moradores.

Numa cidade como São Paulo, com desenvolvimento associado ao aumento da motorização e à intensificação da verticalização das áreas mais dotadas de infraestrutura, impera um processo de transformação urbana que privilegia o automóvel e a exploração imobiliária em detrimento da qualidade de vida das pessoas, da mobilidade ativa, dos espaços públicos, das áreas verdes, da arborização nas vias e do patrimônio que carrega parte da história da ocupação da cidade.

Assim, ao longo do desenvolvimento do Plano de Bairro, a Ame Jardins consolidou a percepção de que o benefício urbanístico e ambiental que os Jardins oferecem aos moradores deve ser compartilhado de forma firme e propositiva com toda a cidade, como contrapartida à manutenção de seus atributos e recuperação de áreas deterioradas. A proposta é que aqueles Jardins minuciosamente plantados no começo do século 20 deem um passo em direção à cidade, organizando-se como um bairro parque voltado à mobilidade ativa, que articula suas áreas verdes e equipamentos culturais abrindo-se para benefício de toda a cidade. Um plano para um bairro seguro para caminhar e praticar esportes, usufruir áreas verdes e praças, conviver e apreciar árvores seculares, deparar-se com aplicações sustentáveis de tratamento do espaço público e de drenagem com soluções baseadas na natureza. Um bairro calmo e arborizado, em meio a áreas intensamente verticalizadas, que convide as pessoas a beneficiarem-se de passeios associados à história da cidade e às artes.

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RESPECTIVAMENTE, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES AME JARDINS, ENTIDADE QUE REPRESENTA OS BAIRROS DOS JARDINS AMÉRICA, EUROPA, PAULISTA E PAULISTANO, É MORADOR DA REGIÃO HÁ 39 ANOS; ARQUITETA E URBANISTA PELA USP, É MESTRE EM ARQUITETURA E URBANISMO COM FOCO EM PROJETOS DE ESPAÇO E CULTURA; E ENGENHEIRO CIVIL, É CONSELHEIRO DA AME JARDINS

Opinião por Fernando de Sampaio Barros

Presidente da associação de moradores Ame Jardins, entidade que representa os bairros dos Jardins América, Europa, Paulista e Paulistano, é morador da região há 39 anos

Ligia Rocha

Arquiteta e urbanista pela USP, é mestre em Arquitetura e Urbanismo com foco em projetos de espaço e cultura

Roberto Lima

Engenheiro civil, é conselheiro da Ame Jardins