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Economista, Presidente-Executivo Da IBÁ, Membro do Conselho Consultivo do RENOVABR, Foi Governador Do Estado Do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

Opinião|A oportunidade do segundo turno

Que finalmente entre em debate o Brasil real, um país com potencial ímpar, mas que precisa redesenhar seus caminhos com urgência.

Atualização:

Encerrado o primeiro turno das eleições, celebrando a democracia e consolidando o uso das urnas eletrônicas como um diferencial de segurança e transparência do processo eleitoral, o País já está pautado pela votação final deste pleito. Abre-se, com isso, uma oportunidade que foi tristemente desperdiçada até agora: a efetivação de um debate sobre o Brasil real, com suas urgências, suas oportunidades, enfim, sua realidade tão complexa quanto promissora.

O processo político relativo ao primeiro turno esteve destituído de uma discussão comprometida com as verdadeiras questões nacionais. À moda da lacração e das narrativas pontilhistas das redes sociais, o que mais se viu, em todos os quadrantes, foram proposições elaboradas ao sabor da hora. As falas não compuseram um texto aderente ao Brasil de hoje.

O que mais se prometeu foram terrenos na Lua, tamanha a falta de lastro no chão da realidade da maioria do que se afirmou. O problema dessa conversa lunática é encontrar no dia seguinte à posse quem lavre as escrituras das promessas de conquista de votos. Frustrações em cima de frustrações não ajudam a caminhada democrática – muito pelo contrário, são um propulsor de sua ruína.

O Brasil, até pela gravidade dos efeitos dos desarranjos socioeconômicos que vem acumulando ao longo de sua trajetória, sabe o que precisa ser feito. Discursos populistas podem até nublar o foco que deveria ter uma eleição, mas uma conversa séria e comprometida com o País neste momento, além de ser evidência de honestidade republicana, se colocaria como um tempo precioso de conscientização e mobilização da sociedade para a dura tarefa de governar a Nação a partir de 2023.

O nosso país, que historicamente não enfrenta seus problemas estruturais, vai ter de encarar realidades nacional e internacional nada amigáveis. O mundo está andando à moda de caranguejo, de lado, bem afastado da bonança de tempos atrás. Sofre as consequências da pandemia, inflação e juros em alta, invasão russa na Ucrânia, China e Ásia com desempenho empalidecido, cadeias globais de suprimento em vertigem e ataques totalitários à democracia. As perspectivas mundiais são desafiadoras e com ecos por aqui.

A agenda que diz respeito a nós não será menos complicada. Apesar de melhoras no mercado de trabalho e de desempenho do PIB, já convivemos com um descrédito crescente quanto aos rumos da economia. É uma tarefa impositiva reancorar as expectativas econômicas. E isso só se faz com política fiscal responsável.

A educação básica sofreu um baque maior entre nós do que no resto mundo durante a pandemia. Nossas crianças e jovens estiveram longe das salas de aula por um período muito extenso. O Sistema Único de Saúde (SUS) passou por uma prova de fogo e resta evidente que precisa ser repensado e robustecido. O que dizer da violência e da segurança pública, cujos indicadores e realidade são trágicos? É urgente que retomemos as reformas estruturantes, como aquelas modernizadoras do Estado e do sistema tributário nacional. Em face do aumento da pobreza e da fome, é imprescindível reorganizar as políticas assistenciais, tornando-as também fatores de transformação estrutural da condição socioeconômica do País.

O futuro do Brasil demanda que se enfrentem os dias com o melhor de nosso espírito cidadão. E isso quer dizer que é preciso parar de repetir erros, ainda que reembalados com os discursos do momento. Se não vale reeditar equívocos, vale aprender com eles, assim como devemos focar nas lições de iniciativas bem-sucedidas, aqui e lá fora.

Desviando-nos de uma outra infeliz mania nacional – o enfrentamento da realidade com ilusionismos baratos –, é preciso cumprir o caminho pedregoso do dever de casa. Apesar das facilidades inconsequentes que brilham na trilha dos populismos, são as escolhas certas, que nem sempre são as mais fáceis, que nos afastarão do fundo do abismo de um país injusto e indigno de suas potencialidades.

Também é fundamental se preparar para aproveitar as oportunidades. A economia descarbonizada se coloca como uma grande potencialidade para o Brasil, que tem know-how em bioeconomia e acervos ambientais que lhe permitem ser um dos protagonistas desta nova era. Há o desafio de enfrentar as criminalidades que assolam nossos biomas, com especial atenção à Amazônia. Superada a tarefa de dotar o País de segurança jurídica, infraestrutura e digitalização se colocam como espaços de oportunidades. A desorganização das redes planetárias de suprimentos também abre brechas para a reindustrialização.

Que neste segundo turno, entre finalmente em debate o Brasil real, aquele país que tem um potencial ímpar, capaz de promover ampla prosperidade, mas que também é uma nação que precisa urgentemente redesenhar seus caminhos, afastando-se de séculos de injustiça socioeconômica e desvarios institucionais. Que o Brasil que podemos e merecemos ser esteja na pauta da conversa civilizada e republicana que toda democracia de verdade demanda e enseja. Que o caminho até as urnas eletrônicas do segundo turno seja pavimentado pelo compromisso com a realidade, seus desafios e oportunidades.

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ECONOMISTA, PRESIDENTE-EXECUTIVO DA IBÁ, MEMBRO DO CONSELHO CONSULTIVO DO RENOVABR, FOI GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010/2015-2018)

Opinião por Paulo Hartung
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