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Opinião|A legendária Veridiana Prado

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Toda São Paulo reverencia Veridiana Prado, a grande dama paulista da mais prestigiada nobiliarquia cafeeira. Como ela era vista por seus coetâneos? Valendo-nos do relato de Laura Oliveira Rodrigo Octávio, em seu livro “Elos de uma Corrente”, podemos ter uma ideia do que ela significava para a pauliceia do início do século XX.

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Conta Laura: “Constituiu para mim um personagem algo fabuloso essa Dona Veridiana, possuidora de imenso parque com um palacete dentro e porteiro à entrada; era entrevista em seus passeios, já bastante idosa, num carro puxado a cavalos, o cocheiro de cartola...”.

Seu nome era Veridiana Valéria da Silva Prado, (11.2.1825-11.6.1910), mãe de uma prole ilustre, entre os quais o Conselheiro Antonio Prado e Eduardo Prado, o amigo de Eça de Queiroz. Foi neste que Eça se inspirou para criar o personagem Jacinto de Tormes, que morava em Paris e cujo perfil antagonizava com a vida campesina em “A Cidade e as Serras”. Mas há quem diga que Eça de Queiroz inspirou-se igualmente em Eduardo Prado para criar o personagem Carlos da Maia em seu romance “Os Maias”. O livro é uma crítica à sociedade portuguesa do século XIX, centrada na visão das classes mais abastadas da sociedade. A história de Carlos da Maia e Maria Eduarda, um romance incestuoso, é o fio condutor da narrativa. Ambos os livros são considerados obras-primas do famoso escritor luso.

Veridiana era mulher de ideias avançadas, muito insólitas para a época. Fez vir da França um paisagista para desenhar os jardins da sua casa senhorial na fazenda de café.

Pioneira na ocupação de Higienópolis, franqueava à população passear por seus jardins, resguardando apenas a área mais próxima à residência. Existia nesse parque, ainda hoje preservado e ocupado pelo Iate Clube de Santos, uma gruta que atraía a atenção de todos. Dentro dela haviam colocado uma escultura de pedra em forma de leão. Ao lado, um texto esculpido na rocha começava em letras maiores e ia diminuindo, até que, para poder decifrar seu final, um dispositivo acionava uma ducha de água que saía da boca do leão. Era uma grande diversão para as crianças. Quem já sabia do artifício gostava de fazer com que os incautos levassem o inesperado banho.

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Nos aniversários de D. Veridiana, uma banda de música vinha fazer uma alvorada festiva e alegrava toda a recém-fundada região de Higienópolis. Ela fazia por merecer. Era uma aristocrata, grande proprietária de terras que, loteadas, formaram vários bairros paulistanos. Por pertencer à alta sociedade da pauliceia, sua vida impregnou a existência da São Paulo provinciana do final do Império e início da República Velha.

Filha do Barão de Iguape, Antonio da Silva Prado, um dos homens mais ricos da terra, foi criada em igualdade de condições com seu irmão Veríssimo. O pai queria que ela seguisse a tradição da mãe e avó, Ana Vicência, mulher carismática e poderosa, que não se submetia ao comando patriarcal. Em seu palacete recebeu artistas, intelectuais, cientistas e membros da Família Real, como D. Pedro II e a Princesa Isabel. Antes de seu nascimento, o pai hospedara D. Pedro I, em 1822, ano da Independência do Brasil.

Por razões que regiam os costumes à época, casou-se com seu meio-tio, Martinho da Silva Prado. Dele divorciou-se, mas conseguiu comandar a família e teve seis filhos, trinta e seis netos e noventa e seis bisnetos.

Seu primogênito, Antonio da Silva Prado, foi Ministro de Estado, senador, deputado e o primeiro Prefeito de São Paulo (1899-1911). Já Eduardo, que forneceu a Eça de Queiroz as características de ao menos dois personagens, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

A criação de Veridiana fugia aos padrões daqueles tempos. Convivia com personalidades múltiplas. A Marquesa de Santos elogiava sua vivacidade. Viajou muito durante a Regência e aprendeu a falar fluentemente o francês, o inglês e o alemão.

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Ainda assim, por imposição paterna mas por ajustar-se aos interesses econômicos da família, casou-se com Martinho, aos treze anos. Ele tinha catorze a mais do que ela. Aos quinze ela teve o primeiro filho e aos vinte e dois já era mãe de cinco.

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Afeiçoada aos negócios, ajudou o marido a adquirir a Fazenda Campo Alto, em Mogi Mirim e tornou-se sócia dele. Desfez-se de suas joias para que o engenho produzisse para enriquecer ainda mais a família. A propriedade tornou-se fazenda modelo de produtividade e rentabilidade.

A morte do Barão de Iguape, em 1875, o pacificador dos conflitos familiares, apressou a separação de Veridiana e Martinho. A gota d’água foi o fato de a filha do casal, Ana Blandina, aos trinta e três anos, ter sido pedida em casamento por Antonio Pereira Pinto Júnior. Veridiana concordou e Martinho não. Ela venceu e o casamento da filha ocorreu em março de 1877. Como o divórcio ainda era motivo de escândalo, houve separação apenas de fato. Manteve-se o vínculo formal e Martinho inclusive consta do testamento de Veridiana, elaborado em 1884.

No palacete de Veridiana aconteciam as mais concorridas festas de São Paulo. Noticiou o Correio Paulistano de 19.11.1884, que a Princesa Isabel escrevera em seu diário: “A propriedade de D. Veridiana, lindíssima; casa à francesa, exterior e interior muitíssimo bonitos, de muito bom gosto. Os jardins têm gramados dignos da Inglaterra, a casa domina tudo, há um lagozinho, plantações de rosas e cravos lindos. Vim de lá encantada”.

Já não existem salões assim em São Paulo. Receber em casa tornou-se uma arte já não praticada na megalópole que melhor serve ao trânsito do que às pessoas.

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José Renato Nalinisaiba mais

José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras
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