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Opinião|A toga poética

convidado

Muitos juízes foram também poetas. A sensibilidade tinha de extravasar e produzir algo mais etéreo do que decisões técnicas, nas quais o acatamento à forma impede, ao menos como regra, o discurso poético.

Poucos os que conseguem sentenciar com rimas. Algo a cada dia mais difícil, diante da requisição de produtividade maciça, diante do anômalo e patológico fenômeno da multiplicação das lides.

José Renato Nalini Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Se hoje escasseiam os poetas na Magistratura – exceção feita ao Desembargador Federal Souza Prudente – já houve magistrados que versejaram simultaneamente com a jurisdição. Mencionem-se, apenas como exemplos, Vicente de Carvalho e Raimundo Correia.

Um desembargador paulista, hoje pouco reverenciado, foi Afonso José de Carvalho (1868-1952). Ele cometeu a façanha de cantar em oitavas as qualidades pessoais de cada um de seus colegas desembargadores. Foram vinte e quatro oitavas, cada qual dedicada a um desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Afonso José de Carvalho, formado em 1889 pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi o 34º Presidente da Corte bandeirante, no período de 22 de julho a 20 de dezembro de 1935.

Inicia a sua interessante produção com o “Adeus À Corte”, em que se despede da judicatura e elabora despedida poética aos seus colegas do Tribunal. Uma oitava é uma estrofe de oito versos decassílabos, com rima consoante e, em regra, com um esquema certo de rimas. Tradicionalmente, a oitava é a primeira parte de um soneto, com as questões que a segunda parte vai responder. Na fórmula de Afonso José de Carvalho, ele não deixou sequer um colega sem a sua oitava.

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Começou com João Batista Leme da Silva: “Surge primeiro de Rio Verde a prenda/Tomava chá e usava, em tenra idade/Cabelo em caracóis, golas de renda/Cresceu, triunfou em plena mocidade/Mas da Corte na olímpica vivenda/Uma aflição o peito ora lhe invade:/É que vive ocupado, no momento/De um lado e doutro a procurar assento”.

João Marcelino Gonzaga, outro nome ilustre na Magistratura paulista, mereceu a seguinte estrofe: “Quem há que este iguapense não conheça?/Tem a feição de indígena tupi/ Mexe, ao falar, com ombros e cabeça/Já era assim nos dias de Mogi/Pois este juiz de mímica travessa/Dá sota e az. Emérito até ali!/Xará do poeta de Dirceu querida/Certo ar possui de um jóquei de corrida.

Para Alcides de Almeida Ferrari, foi composta a oitava que segue: “Por Seca e Meca andou. De Itaporanga viu a barranca. E o festejou após/Capivari com palmas e charanga/em Itapetininga alçou a voz/Aqui triunfou, arregaçando a manga/Da meada eleitoral desfiando os nós/Por fim na Corte, ao perceber-lhe a fama/Alguém de duce e Mussolini o chama!.

Outro nome eminente da Justiça paulista foi Theodomiro Dias, pai do jurista e Ministro José Carlos Dias, para quem Afonso José de Carvalho compôs: “Eis de outro juiz a singular figura/Misto de Papiniano e Aubry atual/Verbo fluente e lógica segura/Conquistaram-lhe acesso ao Tribunal/ Procurador, pintou a saracura/Ao manter o prestígio eleitoral/ A brônzea cor certo feitio lhe dá/De cacique da tribo guaianá”.

Armando Fairbanks mereceu o que segue: “Descadeirado embora é papafina/A limpa do cabelo bem lhe fica/Desde quando por terras de Faxina/Andou comendo abóbora e cangica/Um voto armando ou quando fala e opina/Dizem que fica às vezes tiririca/Certo é que do Direito honra o festim/É irmão da opa e gosta do latim”.

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A Vicente Rodrigues Penteado foi dedicada esta oitava: “Aparece elegante no penteado/O da Revolução cria dileta/Mas desordens não fez, e, comportado/Causas patrocinou de alma correta/Junto a Estevão, no tempo apatacado/Em que era mina interpretar pandecta/Possui agora, se não leva a mal/A pose conselheira do Laval”.

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O desembargador Theodomiro de Toledo Piza mereceu esta: “Eis um bom juiz. A alicantina piza/ Votos formula, enérgico e valente/Traz o colete curto, e lhe aparece/Às vezes a barriga indiferente/Franqueza e decisão: eis a divisa/Que a estima conquistou de toda gente/Em seu todo, em seu gesto algo se esboça/De mestre-escola ou juiz de paz da roça”.

Não sei como foram recebidas as oitavas de Afonso José de Carvalho, que as escreveu também para Francisco Ferreira França, Paulo Colombo Pereira de Queiroz, Luiz Gonzaga de Macedo Vieira, Manuel Gomes de Oliveira, Antão de Sousa Morais, Joaquim Candido de Azevedo Marques, Francisco Meireles dos Santos, Márcio Pereira Munhoz, Vicente Mamede de Freitas, Mário Guimarães, Abeilard de Almeida Pires, Mário Masagão, Antonio Hermógenes Atenfelder Silva, Achiles de Oliveira Ribeiro, Arthur César da Silveira Whitaker, Manuel Carlos de Figueiredo Ferraz e Júlio César de Faria.

Um poeta contemporâneo, quisesse perpetrar igual empreitada, teria “apenas” 360 desembargadores. Mas o tempo das “oitavas” já passou. Reminiscências de uma era em que se conseguia conciliar jurisdição e poesia.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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