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Opinião|Ainda o Dr. Langgaard

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convidado

Continuo a contar um pouco da história do Dr. Theodoro Langgaard, que foi médico em Sorocaba, em Campinas e no Rio de Janeiro e em todas as cidades deixou bela memória e eternas saudades.

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Ele era um erudito cultor das artes. Além dos livros de medicina, escreveu “Atlas do Corpo Humano”, “Sucintos conselhos às Jovens Mães para o tratamento racional de seus filhos”, que dedicou à filha, mãe de Rodrigo Octávio. Seu último livro foi uma biografia do sábio solitário da Lagoa Santa, publicado em 1883, ano em que Langgaard faleceu. O título da obra póstuma: “O naturalista Dr. Lund (Peter Wilhelm), sua vida e seus trabalhos”.

Amava as artes, principalmente a pintura. Trouxe da Escandinávia telas de magníficas paisagens que ainda se encontram com seus descendentes. Era apaixonado pela música e tocava piano, também ensinando os netos a executar peças clássicas no teclado. Conta Rodrigo Octávio, em suas “Memórias dos Outros”, que o avô tentou fazer dele um virtuose. Mas o pacientíssimo avô se esgotou, após inúmeras tentativas, para gáudio do neto.

Cultivou as belas letras. Aprendeu bem o português e guardava, com carinho, os romances de José de Alencar, de quem fora médico e do qual recebera os exemplares com afetuosas dedicatórias. Também colecionava livros de literatura dinamarquesa. Em virtude dessa familiaridade com as letras, publicou em 1863 o texto “Maria, ou a Bela Paulista”, cujos versos foram musicados por José Sant’Anna Gomes, irmão mais velho de Carlos Gomes, uma comédia que foi levada à cena em Campinas. O exemplar da partitura que Rodrigo Octávio ainda conservava em 1934, era encadernado, continha em dourado as armas do Império e uma dedicatória a Pedro II, que o conservou na Biblioteca do Paço até que teve de deixar o Brasil, na fatídica noite de 15 de novembro de 1889.

O neto diz que o Dr. Langgaard era “um bonito tipo de velho, de fisionomia alegre, rosada e fresca; usava suíças que, como os cabelos, eram brancos de neve. Forte, pisando duro, dentro da sobrecasaca de pano preto, que era a rigorosa indumentária do médico, no seu tempo, e em cuja lapela floria sempre uma roseta de ordem honorífica, era uma figura digna de ser vista”.

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Rodrigo Octávio possuía do avô um retrato a óleo de tamanho natural, do pintor Augusto Off e um busto em mármore, de metade do tamanho natural, obra de Rodolfo Bernardelli, feita na Itália em 1877, sobre retratos tirados de todos os lados. A semelhança, segundo o neto, é admirável. Foi a primeira obra feita pelo escultor por encomenda. Estava em Roma, vivenciando o prêmio de viagem da Escola de Belas Artes, que era patrocinada pelo Imperador, com suas próprias economias, não se servindo do Erário do Império.

Vivia à época um corretor alemão que era muito parecido com o Dr. Langgaard. Ele se chamava Harper e um dia ele indaga ao médico: “Doutor, preciso de um conselho seu. Muita gente, que se encontra comigo, vem logo falando de seus doentes e, informando que tiveram mais isto e mais aquilo, acabam perguntando o que fazer. Que devo responder?”.

O Dr. Langgaard, sorrindo, respondeu: “É muito fácil. Pergunte se o doente se deu bem com o remédio. Caso afirmativo, deve recomendar que o repita. Se o doente se deu mal, diga, com franqueza, para procurar o Dr. Langgaard...”.

Era tamanha a semelhança entre ambos, que o avô contava uma passagem interessante. Numa viagem de bonde, sentou-se ao lado de uma senhora que com ele entabulou conversa, pensando que era Harper. Ao final do percurso, o Dr. Langgaard disse a ela quem era. Ambos riram do episódio e a conversa fora interessante. Eis que numa outra viagem, a mesma senhora encontra novamente o Dr. Langgaard e vai logo dizendo: “Harper: você não imagina o que me aconteceu outro dia!” E conta o causo, como se o interlocutor fosse o corretor.

O médico ouviu e, ao final, comentou: “Pois minha senhora: o mais engraçado do caso é que eu continuo a ser, ainda, o Dr. Langgaard...”

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Theodoro Langgaard morreu em 1883, com setenta anos de idade. Naturalizou-se brasileiro. Naquele tempo, a naturalização era concedida por lei especial. O projeto relativo a ele foi apresentado na sessão de 22 de setembro de 1848, pelo deputado paulista Rafael Tobias de Aguiar. O marido da Marquesa de Santos e patrono das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a famosa ROTA, da Polícia Militar bandeirante.

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Era um homem admirável e admirado. No dia de seu aniversário, 27 de julho, sua casa era aberta o dia todo, para receber os cumprimentos de centenas de pessoas. Certa vez conseguiu-se que uma banda alemã executasse, logo de manhãzinha, a Serenata de Schubert, música de sua predileção.

Rodrigo Octávio conclui seu relato com emoção: “Meu querido avô! Teve fama, que passou, como tudo passa neste mundo ingrato e sem memória. Não é demais que se recorde seu nome e se diga quem foi e o que fez. Os que dele vieram, conservam o orgulho de ter seu sangue a lhes circular nas veias, dando-lhes a aparência rubicunda do vigor e da saúde”.

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Foto do autor José Renato Nalini
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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo
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