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Opinião|André Rebouças e a lealdade

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Quando se escorraçou de seu solo natal o Imperador Pedro II, fazendo-o abandonar o Brasil como se fugitivo fora, em plena madrugada, a imensa maioria dos que frequentavam a Corte estava com os vitoriosos.

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O golpe republicano dera certo. Como é próprio do caráter dos homens, a bajulação se aproxima do poder e foge da derrota.

Poucos os que acompanharam Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina em sua viagem à Europa. Um deles, que espontaneamente se propôs a demonstrar sua lealdade ao governante deposto, foi André Rebouças. Seus sentimentos de gratidão e estima para com o combalido monarca não aceitavam a deposição cruel e o desterro humilhante.

Talentoso, erudito, provido de forte personalidade, era um engenheiro de renome. Um brasileiro de reconhecida envergadura moral. Homem de primeiríssima qualidade. Era, porém, negro, feio e todo marcado pelas sequelas da doença conhecida como bexiga.

Isso explica porque a sua presença não teria agradado os pouquíssimos áulicos do grupo cortesão que seguiu para o Velho Mundo com os reais exilados.

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André Rebouças resistiu à sutil hostilidade, mal disfarçada como é corriqueiro ocorrer entre círculos nos quais a hipocrisia está sempre a postos e acompanhou constantemente o Imperador. Com ele foi para Cannes. Mas Pedro II era de família nobre com influência e poder em várias casas monárquicas europeias. Além disso, cultor da literatura e das artes, viu-se também cercado por novos admiradores.

Não se sabe exatamente o que levou André Rebouças a deixar a companhia do amigo e se refugiar na Ilha da Madeira. Ali viveu seus últimos dias, antes de praticar suicídio, atirando-se ao mar.

André Rebouças era amigo íntimo de Conrado Jacob de Niemeyer, conhecido negociante, muito ligado também a Paulo de Frontin. Com este, atuou no Clube de Engenharia e na Empresa Industrial de Melhoramentos no Brasil.

Assim que chegou ao Brasil a notícia da morte de André Rebouças, cuidou Conrado Niemeyer de promover os termos de seu inventário. Eram poucos e modestos os seus haveres. A parte jurídica foi entregue a Rodrigo Octávio, que era advogado da Empresa Melhoramentos.

Expediu-se carta rogatória à Justiça da Ilha da Madeira, para que se fizesse a arrecadação e remessa ao Brasil dos objetos que André Rebouças deixara. Poucos meses mais tarde, chegam duas enormes malas. Quando abertas, viu-se que continham poucas peças de roupa, muito papel escrito, em folhas soltas e de forma desordenada. O restante eram livros. Muitos exemplares.

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Conrado Niemeyer pediu que Rodrigo Octávio escolhesse um livro como lembrança de André Rebouças. Ele preferiu ficar com uma pequena obra de Benjamin Mossé sobre o ex-Imperador do Brasil.

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Verificou que esse volume estava todo anotado, a lápis azul, por André Rebouças. Trazia, ainda, na primeira página, a data de aquisição em Lisboa: 5 de janeiro de 1890.

O interesse de Rodrigo Octávio por esse livro era compreensível. Relato sobre Pedro II, lido e anotado por, talvez, seu único amigo desinteressado. O companheiro da jornada da desgraça. Nada poderia esperar do destronado, banido de sua própria terra.

Além disso, o autor, Benjamin Mossé, o escrevera com os elementos fornecidos pelo Barão do Rio Branco. Até consta que fora o próprio Barão que escrevera toda a parte relativa à Guerra do Paraguai.

Lido, relido e anotado, o livro estava repleto de recortes de jornal com notícias referentes ao Imperador. Era o zelo fraterno de um amigo que fazia da lealdade um compromisso existencial. Alguém que sofrera preconceito e que, portanto, era exímio conhecedor da alma e da crueldade de seus semelhantes.

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André Rebouças, não tivera interrompido precocemente sua trajetória terrena, teria escrito ele mesmo uma biografia afetiva do notável governante, do qual não se pode afirmar padecesse de mínima fissura de caráter. Com o passar do tempo, que a tudo confere dimensões muito distintas daquelas nutridas à época dos acontecimentos, revisita-se a figura de Pedro II e melhor transparecem os seus atributos, cuja exaltação é potencializada, quando comparados com os dos artífices da República e de seus sucessores.

Se houvesse um troféu ou premio à lealdade, no Brasil, ele deveria honrar e levar o nome de André Rebouças.

Convidado deste artigo

Foto do autor José Renato Nalini
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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo
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