No mapa, a Ucrânia pode parecer distante. Mais de 11 mil quilômetros separam Brasília de Kiev. Mas há sofrimentos que não conhecem fronteiras. Quando uma criança é privada do convívio familiar, de sua identidade e do direito de crescer em segurança, a distância perde importância.
O mês de junho marca o Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão, uma data que nos lembra do dever coletivo de proteger a infância em contextos de conflito. Escrevo não apenas como vice-ministra das Relações Exteriores da Ucrânia, mas como alguém que testemunha diariamente os efeitos devastadores da guerra sobre as crianças do meu país. Entre eles, está a deportação e transferência forçada de milhares de menores ucranianos para territórios ocupados e para a Rússia.
Desde fevereiro de 2022, o mundo acompanha os desdobramentos da agressão russa contra a Ucrânia. Existe, porém, uma dimensão menos visível desse conflito que exige atenção urgente: desde o início da invasão, 20.570 crianças ucranianas foram oficialmente identificadas como vítimas de deportação ou transferência forçada para a Rússia ou para territórios ucranianos sob ocupação temporária.
Muitas delas foram submetidas a processos de doutrinação, privadas de sua identidade nacional e afastadas de suas famílias, de sua cultura e de suas comunidades.

Oleksandr (nome alterado por razões de segurança) tinha apenas 16 anos quando tropas russas ocuparam sua cidade natal, na região de Zaporíjia. Em vez de aceitar a ocupação, juntou-se a um grupo de jovens que removia bandeiras russas, distribuía panfletos pró-Ucrânia e resistia de forma pacífica à presença das forças invasoras.
Em 3 de maio de 2022, ele e seus amigos foram presos.
Durante os interrogatórios, Oleksandr sofreu torturas. Foi espancado, submetido a choques elétricos e asfixiado com um saco plástico sobre a cabeça. Também foi obrigado a assinar acusações falsas. Os abusos continuaram durante semanas. Em alguns momentos, seus captores transformavam a violência em uma espécie de jogo, punindo qualquer resposta que não se encaixasse na narrativa imposta pela ocupação.
Após quase dois meses de detenção, foi libertado, mas permaneceu em território ocupado. Somente em 24 de agosto de 2025, Dia da Independência da Ucrânia, conseguiu retornar ao seu país.
Nas palavras de Oleksandr, viver sob ocupação não é viver. É apenas sobreviver.
Histórias como a dele vêm sendo documentadas por organismos internacionais, organizações de direitos humanos e investigações independentes. Por trás dos números existem vidas interrompidas, projetos destruídos e famílias que vivem entre a esperança e a angústia.
Diante dessa realidade, a comunidade internacional começou a se mobilizar. Atualmente, 46 países e três organizações internacionais integram a Coalizão Internacional pelo Retorno das Crianças Ucranianas. A iniciativa apoia esforços diplomáticos, humanitários e jurídicos para localizar essas crianças, garantir seu retorno seguro e promover a responsabilização pelos crimes cometidos contra elas.
É importante destacar que a Coalizão não é uma aliança militar nem está vinculada a qualquer bloco geopolítico. Trata-se de uma iniciativa humanitária voltada à proteção da infância e à defesa de princípios amplamente reconhecidos pela comunidade internacional: o direito à convivência familiar, a proteção das crianças e a dignidade humana.
É justamente nesse contexto que acreditamos que o Brasil pode desempenhar um papel relevante.
Ao longo de sua história, o país construiu uma reputação internacional baseada no diálogo, na busca de consensos, no respeito ao direito internacional e na defesa de soluções pacíficas para os conflitos. Também desenvolveu uma sólida tradição de proteção à infância, refletida em sua Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em sua atuação em organismos internacionais.
Por isso, veríamos com satisfação uma aproximação do Brasil à Coalizão Internacional pelo Retorno das Crianças Ucranianas, de maneira compatível com sua tradição diplomática e suas prioridades humanitárias. A participação brasileira teria especial relevância em uma causa diante da qual nenhuma sociedade deveria permanecer indiferente: o direito de toda criança de preservar sua identidade, manter seus vínculos familiares e voltar para casa em segurança.
A proteção da infância é uma causa capaz de unir pessoas com diferentes visões políticas, crenças e perspectivas sobre o conflito. Independentemente de onde vivemos ou da língua que falamos, existe um princípio que todos compreendemos: nenhuma criança deve crescer separada de sua família contra a própria vontade.
A distância entre Brasil e Ucrânia pode ser medida em quilômetros. A solidariedade, não.
Seguimos confiantes de que a comunidade internacional continuará trabalhando para garantir que cada criança ucraniana possa retornar em segurança ao convívio de sua família. Também esperamos que mais países se somem a esse esforço, porque o futuro de uma criança jamais pode se tornar uma questão secundária em tempos de guerra.
Quando se trata da proteção da infância, a indiferença não é uma opção. Existem causas que transcendem fronteiras, governos e conflitos. O direito de uma criança voltar para casa é uma delas.







