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Bruno Soller analisa o comportamento do eleitor brasileiro com base em big data e pesquisa

Opinião|Mais do mesmo: Bolsonaro reúne muitos apoiadores, mas prega para convertidos

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É inegável que a capacidade de mobilização do bolsonarismo é, hoje, muito maior do que a do petismo. A direita brasileira, sem uma organização específica, conseguiu se entranhar nas classes média e mais altas da população e os eventos convocados pelas redes e por políticos e influenciadores parecem ter virado um compromisso social. Apoiadores esperam o dia, como um grande evento, e se arrumam de acordo, utilizando-se de símbolos e cores nacionais. Marcam encontros com amigos e passam por momentos agradáveis em troca de um grito de libertação contra aquilo que mais ojerizam, a presença de Lula na presidência e as decisões políticas que impactam negativamente nas suas maneiras de enxergarem o mundo. O clima não é hostil, é de congraçamento e, em nada se assemelham às manifestações-protesto que se acostumou a ver comandados por movimentos sociais e sindicatos.

Com uma boa presença de público e acusado de tentar golpear o Estado, Bolsonaro fez a convocação, fazendo um contraponto, justamente em defesa da democracia. Os discursos de políticos e lideranças que estão sob o seu guarda-chuva eleitoral avançaram para questões como a liberdade de expressão e a anistia aos presos do dia 8 de janeiro de 2023. Palavras de efeito, discursos em inglês, defesa da família e momentos de reflexão Bíblica foram feitos e serviram para consolar um público que já é um seguidor fiel do bolsonarismo. Como reforço de discurso, os atos têm sua serventia, mas a mensagem do evento do Rio de Janeiro em nada se desassociou do que foi visto meses atrás na Avenida Paulista. Em Copacabana, Bolsonaro protagonizou um pocket show do ato em São Paulo.

Bolsonaro mostrou mais uma vez capacidade de mobilização, mas pregou para convertidos Foto: Alexandre Brum/Estadao

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O fato é que o governo Lula caminha para a metade de seu mandato. Esse ano, o Brasil encara as urnas e tem assuntos de suma importância para serem discutidos, que afetam a população diariamente, e que parecem absolutamente esquecidos pela oposição brasileira. Uma pesquisa do Ipespe para a Febraban, chamada de Radar Febraban mostrou que 67% dos brasileiros estão incomodados com o aumento dos preços e a diminuição do poder de compra. Esse é o ponto nevrálgico que tem feito muitos eleitores que escolheram Lula estarem decepcionados com sua gestão. Há um entendimento em grupos de foco realizados pelo Brasil que Bolsonaro teve um desafio maior nessa área do que Lula, já que houve uma pandemia no meio do caminho e que afetou diretamente a economia. Lula já não tem mais essa bengala e as justificativas de ordens naturais e de safra não têm o mesmo impacto para convencer o eleitorado. Além disso, ficou marcado para o cidadão o discurso da volta da possibilidade de comer picanha e tomar cerveja no final de semana.

Em uma eleição que acabou com uma margem tão estreita de votos e com uma fragilidade da gestão Lula, tudo que Bolsonaro não precisa fazer é se resumir ao seu nicho. Seu público se mantém fiel e segue rejeitando o governo. Amanhã ou depois, quando lançar uma candidatura, seja de Michele Bolsonaro, ou dos governadores que o apoiam, Bolsonaro já tem uma grande parcela da população que estará consigo, não só pela sua persona política, mas também por uma rejeição a Lula, que o atual presidente não está sendo capaz de reverter. Portanto, é estratégico que, ao invés de olhar apenas para sua bolha, o bolsonarismo expanda sua mensagem para conquistar votos, com vistas a 2026.

A discussão sobre Elon Musk e Alexandre de Moraes, que pautou muito dos discursos de seus apoiadores, tem um alcance limitadíssimo. Fala com as classes mais endinheiradas da população brasileira e, em nada, toca o trabalhador que está preocupado com o que vai ter pra comer em casa. Segundo o IBGE, o preço dos alimentos já teve uma subida de mais que o dobro do IPCA. Arroz, feijão, batata e muitos legumes aumentaram em mais de 10% de valor neste ano.

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Em um grupo qualitativo realizado na cidade de Natal, uma assistente de limpeza, de classe D, eleitora de Lula mostrou sua vergonha ao dizer que precisava, ao chegar no caixa do supermercado, escolher quais produtos tirar de seu carrinho para poder passar sua compra já que o dinheiro estava limitado. Sua frase, no entanto, expressa justamente a tese deste artigo: “Eu estou decepcionada com Lula, ele não está entregando o que prometeu. Mas, o Bolsonaro também não está nem aí pros pobres.”

Esse sentimento de que Bolsonaro olha para os mais ricos pode encalacrar o ex-presidente numa luta de classes que o PSDB se viu colocado e nunca conseguiu sair. A pecha de partido da elite é o primeiro passo para fracassar eleitoralmente no âmbito nacional. Um exemplo claro foi a má condução tucana num tema que trouxe benefícios aos mais pobres, como por exemplo algumas privatizações, como a do setor de telefonia, que permitiu a quem não tinha condições, o acesso a um celular, algo que nunca foi defendido pelo partido. Por força de narrativa, as privatizações foram vistas como um ato de venda do patrimônio nacional e benefício de empresários. O tema até hoje é um tabu na sociedade. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que 45% dos brasileiros ainda são contrários às privatizações contra 38% que são favoráveis.

Para jogar o jogo eleitoral brasileiro, é mais do que necessário entender que o Brasil é pobre e que 28,8% da população pertence à classe D e mais 27,2% à classe C2. Ou seja, 56% do povo vive com uma renda média familiar abaixo dos 2 mil reais mensais.

Apenas 10% dos presentes no evento de Bolsonaro faziam parte das classes C2 e D, que são maioria no eleitorado brasileiro Foto: Alexandre Brum/Estadao

Baseando-se na manifestação da avenida Paulista, uma pesquisa realizada pelo Monitor de Debate Político da Universidade de São Paulo, mostrou que apenas 10% dos participantes desse ato estavam encaixados nessa porção da sociedade brasileira. 49% dos manifestantes viviam com mais de 5 salários mínimos, pertencendo às classes B2, B1 e A, que quando projetamos do ponto de vista nacional são apenas 23,6% dos brasileiros.

O domingo que prometeu ser de grande festa para a direita latino-americana acabou com um gosto amargo no Equador, já que Noboa foi derrotado em alguns pontos do seu referendo, apesar de ter conseguido aprovar o endurecimento das leis penais, com um mais do mesmo, no Brasil, mostrando engajamento do bolsonarismo, mas sem conseguir expandir a mensagem para se tornar majoritário no país e uma importante consolidação de oposição a Petro, na Colômbia, que levou meio milhão de pessoas às ruas contra o projeto de estatização dos serviços de saúde. Um saldo regular, mas que mostra força dessa frente ideológica em um ambiente até pouco tempo dominado pela esquerda.

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No dia em que o cristianismo celebrou o quarto domingo pascal, o dia do Bom Pastor, o ensinamento Bíblico remonta à capacidade do arregimentar de novas ovelhas. O Bom Pastor cuida de seu rebanho, mas o incentiva a conquistar novos seguidores. Utilizando dessa metáfora, o movimento bolsonarista necessita de apoiadores capazes de furar outras bolhas. Apesar de levar a multidão reunida em Copacabana ao delírio, Nikolas Ferreira, Michele Bolsonaro e Silas Malafaia apenas estão ajudando a manter os fiéis. Para expandir, o bolsonarismo precisa enfrentar temas que fogem de sua zona de conforto. É necessário olhar para a realidade das pessoas e o momento está oportuno para isso. Sem um projeto que pense como melhorar a condição de vida do brasileiro, que discuta o drama da segurança pública, o caos na saúde, aumentado pela crise da dengue e os percalços urbanos como o transporte público e as vagas em creches, a pregação ficará restrita a quem já está convertido.

Opinião por Bruno Soller

Bruno Soller é estrategista eleitoral. Especializado em pesquisas de opinião pública, é graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, com especialização em Comunicação Política pela George Washington University. Trabalhou no governo federal, Câmara dos Deputados e Comissão Europeia.

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