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CGU abre investigação sobre empresas de ‘laranjas’ suspeitas de criar ‘máfia da terceirização’

Informação foi prestada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, após revelação do caso pelo Estadão; principal empresa citada afirma ter ‘histórico inquestionável de excelência na prestação de seus serviços’

Foto do author André Shalders
Foto do author Vinícius Valfré
Foto do author Tácio Lorran
Por André Shalders , Vinícius Valfré e Tácio Lorran
Atualização:

BRASÍLIA - A Controladoria-Geral da União (CGU) abriu uma investigação sobre a lisura de um grupo de empresas do ramo de terceirização de mão de obra. O procedimento foi instaurado após reportagem do Estadão mostrar que as empresas estão ligadas entre si e que parte delas está em nome de “laranjas”: pessoas de baixa renda, moradores de casas simples na periferia de Brasília e que desconhecem aspectos básicos das empresas que dizem possuir. Juntas, as seis empresas que serão investigadas pela CGU possuem contratos com o governo que somam R$ 1,48 bilhão.

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A abertura da investigação da CGU foi confirmada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), em nota ao Estadão na sexta-feira, 1º.

“A Controladoria-Geral da União (CGU) abriu, nesta sexta-feira, 1º, uma investigação em relação a seis empresas que detêm contratos com o Governo Federal. A apuração seguirá em sigilo”, disse a Secom. “As empresas que passarão por apuração prestam serviço nas áreas de serviços gerais e especializados”, diz a nota. Cabe à CGU “realizar auditorias, inspeções, apurar irregularidades, instaurar sindicâncias, investigações e processos administrativos disciplinares”, informa a Secom.

A principal destas empresas é a R7 Facilities. Sediada numa área industrial de Brasília, a R7 pertence, ao menos no papel, a um técnico em contabilidade que recebeu o auxílio emergencial. No mês passado, reportagens do Estadão mostraram que, mesmo estando em nome de um “laranja”, a R7 Facilities prestava serviços dentro dos presídios federais de Brasília e de Mossoró (RN), de onde fugiram dois presos ligados ao Comando Vermelho (CV) em fevereiro. Para especialistas, o episódio é grave, sobretudo por não se saber o real dono de uma firma que atua dentro de presídio de segurança máxima.

Em nota, a R7 Facilities informou que tem um “histórico inquestionável de excelência na prestação de seus serviços”, mas não explicou supostos serviços com empresas que não existem. Destacou, porém, que seus contratos “são conquistados por meio de rigorosos processos de licitação e acompanhados sistematicamente tanto por gestores públicos quanto por órgãos de fiscalização e controle”. Os donos das outras firmas não souberam dar explicações ou se negaram a comentar.

Prédio onde funciona a empresa R7 Facilities, no SIA, região do Distrito Federal Foto: Wilton Junior/Estadão

Também serão investigadas pela CGU as seguintes empresas: Defender Conservação e Limpeza; GSI Serviços; GSI Gestão de Segurança; AC Segurança; e K2 Conservação e Serviços Gerais.

Além dessas seis empresas que possuem contrato com o Governo Federal, há outras cinco que têm relações com o esquema. A reportagem do Estadão mapeou as ligações entre as companhias analisando documentos de licitações, processos judiciais, balanços contábeis, registros da Junta Comercial e imagens e declarações em redes sociais.

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Do conjunto de seis empresas que possuem negócios com o governo federal, a mais bem sucedida é a R7 Facilities, com contratos que somam R$ 1,06 bilhão desde fevereiro de 2021, quando passou para os nomes de “laranjas”. Em seguida vêm a Defender (R$ 338,3 milhões); a AC Segurança (R$ 41,4 milhões); a K2 Conservação (R$ 15,2 milhões); a GSI Serviços (14,6 milhões); e a GSI Gestão de Segurança (R$ 6,5 milhões).

A R7 Facilities já é investigada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), após o Estadão revelar que está em nome de laranja. O Ministério da Justiça acionou os órgãos competentes para apurar o caso.

Fora do Poder Executivo, o mesmo grupo de empresas mantém contratos com a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF). A R7 é contratada pela Câmara para serviços de manutenção preventiva e jardinagem, por cerca de R$ 3 milhões. No Senado, são quatro contratos ativos que somam aproximadamente R$ 38 milhões, para serviços de manutenção, ascensoristas e apoio administrativo. No STF, o contrato em vigor desde janeiro no valor de R$ 18,1 milhões é para técnico de secretariado.

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A Câmara informou que a contratação da R7 se deu “sem nenhuma intercorrência”. O Senado pontuou que celebrou contrato com a companhia após processo que tramitou “sem nenhuma intercorrência”. O Supremo Tribunal Federal destacou que a R7 “juntou todas as documentações legalmente necessárias e apresentou todas as comprovações solicitadas”.

Cinco dias após a publicação da reportagem, o ex-policial Carlos Tabanez informou, por meio da assessoria de imprensa, que “não possui laranjas”, não tem relações com os proprietários das empresas e que “ratifica o não envolvimento com as supostas irregularidades relacionadas ao seu nome”.

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