Diante da escalada da violência em São Paulo, o ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva Filho fez um estudo e constatou que os bairros mais ricos da capital paulista têm taxa de roubo muito superior às regiões de classe média e pobres da cidade. A Coluna do Estadão teve acesso aos dados com exclusividade. Pelo levantamento, Pinheiros é a área mais crítica.
O coronel da reserva da Polícia Militar do Estado calculou a proporção de ocorrências em 2024 em relação à população dos bairros, divididos por distritos policiais da cidade. Ele usou dados populacionais de 2017, mas ressaltou que praticamente não houve alteração e, portanto, as taxas podem ser consideradas para a adoção de políticas de segurança. Os números explicam parte do aumento da sensação de insegurança nos bairros e ajuda a calibrar a ação policial.
Os moradores de Pinheiros (14ª DP) - bairro de classe média alta repleto de bares e restaurantes onde ocorreram roubos muito violentos recentemente - têm razão para reclamar da insegurança, disse o ex-secretário. A cada 10 mil pessoas, foram registrados 296,9 roubos. Isso representa três vezes mais que a média da capital de 96 roubos/10 mil habitantes.
“O levantamento ainda é parcial. Faltam muitos distritos policiais, mas é possível visualizar que a violência de Pinheiros é cerca de 100% maior que Ibirapuera, Vila Mariana e Morumbi e quase 600% maior que Tucuruvi”, afirmou à Coluna. “Há uma necessidade muito grande de calibrar a ação dos policiais. Estão devendo melhorias nesses locais, não é só reclamação de classe média alta”, emendou.
José Vicente também detalhou que Pinheiros teve uma taxa de roubos por habitante 148% maior do que o Capão Redondo, bairro popular que foi o mais violento do Brasil no começo dos anos 2000. “Será que não podiam colocar em Pinheiros um terço das viaturas que estão fazendo vitrine nas calçadas da avenida Paulista?”, provocou.
Como mostrou o Estadão, Pinheiros foi a região com mais roubos registrados em fevereiro, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública paulista. Foram 331 ocorrências, alta de 2,5% ante o mesmo mês de 2024. São ao menos 11 vítimas de assalto na região por dia, sem contar os furtos, com aproximadamente 30 casos diários.
Confira a situação de parte dos bairros
- Pinheiros (14º DP) - 296,9/10 mil
- Jardins (78º DP) - 249/10 mil
- Perdizes (23º DP) - 243,9/10 mil
- Jardim Paulista (15º DP) - 223,7/10 mil
- Vila Mariana (36º DP) - 143,3/10 mil
- Ibirapuera (27º DP) - 138/10 mil
- Morumbi/Vila Sônia (34º DP) - 123,1/10 mil
- Freguesia do Ó (28º DP) - 90,4/10 mil
- Cidade Tiradentes (54º DP) - 65,2/10 mil
- Tucuruvi (20º DP) - 44/10 mil
Tucuruvi está entre os bairros mais tranquilos
O Tucuruvi (20ªDP), de classe média, apareceu como um dos bairros mais tranquilos, com taxa de 44/10 mil habitantes, bem abaixo da média, de acordo com o estudo apresentado pelo ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente. Tanto lá como no Alto da Mooca, as taxas de roubo por habitante são a metade da registrada na capital.
Dados são menores que a realidade
O ex-secretário nacional de Segurança Pública observa que há subnotificação de casos. O roubo de celulares, por exemplo, nem sempre é registrado. Ele defende, então, que os governos realizem pesquisas de vitimização com frequência regular.
“Um problema muito sério é que não fazemos esse levantamento com a regularidade que deveríamos. Trata-se de uma pesquisa de opinião para saber quantas pessoas foram efetivamente vítimas de crimes e não registraram queixa. Nos Estados Unidos, anualmente, é feito. O Estado do Paraná está fazendo este ano”, relatou.
Alternativa para reduzir o índice de roubos
José Vicente da Silva Filho defende reforçar o policiamento dos batalhões nos bairros, em vez de usar tropas especiais. “Há uma ilusão de que as grandes tropas, com caveirão e roupa camuflada, vão resolver o problema, só que não. A hora em que seu celular foi roubado não é a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) que vai atender, é o batalhão da sua área”, completou o ex-secretário, destacando que a disparada dos roubos é o fator que mais assusta a população.
O coronel avaliou que, no cenário nacional, o problema é semelhante: predominância do uso da força policial em detrimento de ações de inteligência. “Ainda estamos debatendo usar cada vez mais força e percebendo que a inteligência não funciona. Não tem uma coordenação de inteligência no âmbito nacional. No âmbito nacional não tem coordenação nenhuma”.







