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Enviado de Putin diz que Brasil e Rússia partilham da mesma visão sobre guerra na Ucrânia

Chanceler russo Sergei Lavrov fala que Brasil se opôs às sanções propostas contra seu País pelos Estados Unidos

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Por Felipe Frazão
Atualização:

BRASÍLIA - Enviado pelo presidente Vladimir Putin para reuniões em Brasília, o chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, disse nesta segunda-feira, dia 17, que os países têm visões coincidentes sobre a guerra da Ucrânia. Segundo Lavrov, os russos querem uma solução duradoura para o conflito e não de imediato. Ele agradeceu à proposta brasileira para formação de um grupo de países amigos que busque mediar a paz e a rejeição do Brasil às sanções unilaterais aplicadas por potências ocidentais a Moscou.

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A invasão da Ucrânia foi condenada pela comunidade internacional, e a Rússia acusada de desrespeitar a soberania da nação vizinha. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, no entanto, relativizado a agressão bélica dos russos. O petista chegou a responsabilizar o País invadido pela guerra. “A decisão da guerra foi tomada por dois países”, disse em entrevista coletiva antes de deixar Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, no fim de sua viagem à Ásia.

Nesta segunda-feira, o chanceler russo tirou partido da posição do presidente brasileiro para apontar semelhanças entre as manifestações dos dois países. “As visões do Brasil e da Rússia são únicas em relação aos acontecimentos na Rússia”, afirmou Lavrov, em pronunciamento no Itamaraty, ao lado do chanceler brasileiro, Mauro Vieira. A declaração de Lavrov foi traduzida, em inglês, pelo Ministério das Relações Exteriores russo como “abordagem similar” do Brasil e Rússia para os acontecimentos no mundo.

“Estamos atingindo uma ordem mundial mais justa, mais correta, baseada no direito. Isso nos dá uma visão de mundo multipolar, levando em consideração as visões de vários países e não só de poucos países. Isso é muito importante para a formação de instituições de governança global. O presidente Lula da Silva falou bastante disso, estamos falando também de instituições financeiras e sobre a representatividade nesses respectivas instituições.”

Serguei Lavrov em visita ao Itamaraty em Brasília  Foto: Eraldo Peres / AP

Lavrov afirmou que as sanções lideradas pelos Estados Unidos e pela Europa prejudicam a Rússia e chamou de uma “luta dura” o posicionamento do Ocidente em relação à guerra. O Brasil jamais apoiou as sanções, não adotou nenhuma delas e posicionou-se contra nos fóruns multilaterais, como as Nações Unidas.

“As sanções unilaterais aplicadas e não aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU não são consideradas legítimas e estão impedindo o trabalho de várias organizações”, afirmou Lavrov, horas antes de se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A retórica de Lula tem sido vista no Ocidente como cada vez favorável aos interesses do governo Putin.

“Estamos conversando sobre a governança global. Há uma luta dura e nossos colegas do Ocidente querem manter as posições financeiras e políticas e na esfera de segurança. Isso motivou a situação que temos hoje na Rússia, inclusive em relação à OTAN e à comunidade europeia e no que se refere aos processos que ocorrem na Ucrânia”, disse Lavrov.

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“Estamos agradecidos à parte brasileira, estamos agradecendo pela contribuição à solução desse conflito. Precisamos resolver de uma forma duradoura e não imediata. Isso é muito importante. Vai ser levada em consideração a relação multilateral e a participação de todos os países sem exceção. Estamos falando de uma segurança multipolar. Ninguém está falando de se aproveitar das forças de segurança de outros países. Temos nossas obrigações com vários países da ex-União Soviética, da Ucrânia. A Rússia no início dos anos 2000, num conselho de segurança, assumiu várias responsabilidades e infelizmente não cumpriram nenhuma obrigação que assumiram.”

Lavrov afirmou que as sanções unilaterais sem aval do Conselho de Segurança da ONU 'não são consideradas legítimas e estão impedindo o trabalho de várias organizações'. Foto: EFE/Andre Borges  Foto: André Borges / EFE

Lavrov alega que a Rússia já explicou os motivos da invasão militar ao território da Ucrânia. Ele voltou a repetir o argumento repudiado pela comunidade internacional de que seu País invadiu o vizinho como ato de proteção a comunidades russas em território ucraniano.

“Estamos interessados que o conflito na Ucrânia seja solucionado o mais rápido possível. A Rússia já explicou várias vezes as razões por que aconteceu. Estamos querendo eliminar as ameaças. Estamos protegendo a vida de pessoas de origem russa”, afirmou o chanceler russo.

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Sete pessoas se juntaram em frente ao Palácio Itamaraty com faixas de repúdio à invasão russa ao território da Ucrânia, que completou um ano em 24 de fevereiro. Uma mulher vestia uma camisa com as cores da bandeira ucraniana. As faixas diziam “Fora Lavrov do Brasil” e “Fora Rússia da Ucrânia”. Outra pregava “Não aos acordos com a Rússia Imperialista.”

Essa é a primeira viagem de Lavrov ao Brasil desde o início da guerra da Ucrânia. A última vez que ele pisou no Brasil ocorreu em 2019, ano em que o Brasil sediou a cúpula do BRICS. O longevo diplomata, que no ano que vem completa 20 anos à frente do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, desembarcou em Brasília sob forte aparato de segurança, com ao menos 18 agentes russos e apoio local das Forças Armadas e da Polícia Federal. Um detector de metais foi instalado para ingresso no Itamaraty, e o esquadrão anti-bombas da PF fez uma varredura. Uma viatura da PF também acompanhou o deslocamento da comitiva. Havia cerca de 20 jornalistas russos trazidos por Lavrov.

Grupo de pessoas se manifesta contra a visita do chanceler russo Sergei Lavrov em Brasília, com cartazes diante do Itamaraty, onde foi recebido por autoridades do governo Lula FOTO: WILTON JUNIOR / ESTADÃO Foto: WILTON JUNIOR

Lavrov disse que as negociações bilaterais transcorreram, como de costume, em ambiente “cordial”, de “confiança e amizade”. Segundo ele, a cooperação entre as nações é construtiva, baseada em princípios de “igualdade e respeito” e independentemente de “mudanças na conjuntura mundial”.

“Abordamos os últimos desenvolvimentos do conflito em curso na Ucrânia. Renovei a disposição brasileira de contribuir para uma solução pacífica para o conflito, reportando as manifestações do presidente Lula no sentido de buscar facilitar a formação de um grupo de países amigos para mediar as negociações entre Rússia e Ucrânia”, disse o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, antes de almoço com seu homólogo. O assessor especial da Presidência Celso Amorim, recentemente recebido em Moscou por Putin, também participou da recepção.

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“Reiterei nossa posição em favor de um cessar fogo imediado, de respeito ao direito humanitário e de uma solução negociada com vistas a uma paz duradoura que contemple as preocupações securitárias de ambos os lados. Também reiterei a posição brasileira à aplicação de sanções unilaterais. Tais medidas, além de não contarem com aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, têm impacto negativo sobre as economias de todo o mundo, em especial dos países em desenvolvimento, muitos dos quais ainda não se recuperaram plenamente da pandemia”, disse Vieira.

Lavrov e Vieira ressaltaram a intenção de expandir o comércio e investimentos entre os países. Os países têm objetivo de atingir a meta de U$ 10 bilhões em comércio exterior, estabelecida há cerca de dez anos. A Rússia é o 13º maior parceiro comercial do Brasil, com U$ 9,8 bilhões de comércio, registrados em 2022, um recorde. Moscou é o principal fornecedor de fertilizantes para o agronegócio brasileiro, com participação de 1/4 das importações.

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