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Correndo atrás de votos: o papel das redes sociais nas eleições 2022

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Por Redação
Atualização:

Renata Cristina Nogueira Santos, Doutoranda na Escola de Administração da UFBA. Servidora Técnico-Administrativa em Educação do IFNMG

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José Antônio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado da Escola de Administração da UFBA. Pesquisador FGV-EAESP

O dia 16 de agosto de 2022 marcará o início das propagandas eleitorais para as eleições de 2022, conforme o calendário eleitoral publicado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Fato é que a propaganda eleitoral tem mudado de forma com a evolução das Tecnologias de informação e comunicação. A comunicação política, até então dominada por uma relação verticalizada entre candidatos e eleitores e pelo uso de veículos de comunicação em massa, como rádio e televisão, tem sido acrescida de novos personagens e instrumentos, possibilitando o impulsionamento de espaços de propaganda e de diálogos.

As eleições de 2018 desafiaram uma série de premissas da comunicação política, entre elas o papel da imprensa em distribuir visibilidade entre os candidatos. A vitória de um candidato que embora apresentasse um discurso radical, pouca estrutura partidária e tempo televisivo irrisório, mas que contava com boa infraestrutura tecnológica, que combinava ações coordenadas com ondas de replicação descentralizadas contrariou as previsões  dos estudiosos da comunicação política [1].

Acrescenta-se ainda a todo esse contexto, a facada sofrida pelo então candidato do PSL, Bolsonaro, evento que marcou o pico de publicações no Twitter no período eleitoral de 2018, com mais de 1,4 milhão de referências em apenas quatro horas (16h às 20h), representando o evento brasileiro de maior repercussão imediata no Twitter desde as eleições de 2014 [2]. Nas semanas seguintes à facada, o candidato, que soube explorar o ataque sofrido, obteve um aumento de 2% a 5% nas pesquisas eleitorais subsequentes, até as eleições [3].

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Em 2019, uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto DataSenado [4] apontou que 45% dos 2,4 mil entrevistados afirmaram ter decidido o voto nas eleições de 2018 levando em consideração informações obtidas por meio de redes sociais, sendo consideradas as mais influentes para fins políticos o Facebook (31%), o Whatsapp (29%), o YouTube (26%), o Instagram (19%) e o Twitter (10%).

Diante do contexto de complexificação do ambiente da comunicação política, destaca-se a importância de se analisar as redes sociais como influenciadoras do debate político atual no contexto das eleições de 2022.

Assim, buscou-se explorar as redes sociais dos três presidenciáveis mais bem colocados na disputa eleitoral, conforme pesquisa do DATAFOLHA, um dos institutos de pesquisa mais consolidados e de maior credibilidade em pesquisas eleitorais, cujos resultados não se distanciam de outras pesquisas de nível similar de credibilidade. Desse modo, a última pesquisa DATAFOLHA verificada, realizada em 27 e 28 de julho de 2022, aponta como os três primeiros colocados em intenção de votos: Lula (com 47%), Bolsonaro (com 29%) e Ciro Gomes (com 8%).

Foram analisadas num intervalo de aproximadamente 3 meses, 4 redes sociais - Facebook, Instagram, Twitter e Youtube - dos três candidatos a presidente, em dois períodos: 17 de março a 15 de abril de 2022 (30 dias) e 04 de julho a 2 de agosto de 2022 (30 dias).Os dados foram extraídos por meio da ferramenta "Emplifi".

Considerando que o público das redes sociais pode se repetir - um mesmo usuário acompanhar o candidato em redes sociais diferentes - será considerada para fins de interpretação do total de público das redes, a média de seguidores/fãs/inscritos nos dois períodos analisados. Para análise de quantitativo de seguidores/fãs/inscritos foram consideradas as datas de 15 de abril e 2 de agosto.

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Tabela 1. Número de seguidores/fãs/inscritos

 Foto: Estadão

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Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Emplifi.

Os três candidatos aumentaram seus públicos no período analisado: Lula teve um aumento de 17,95%, Ciro Gomes teve um aumento de 5,52% e Bolsonaro cresceu 4,18% em relação ao público de abril. Vale observar que Bolsonaro já parte de um patamar alto de público nas redes sociais, com uma grande distância dos demais, já explorando essas ferramentas digitais há mais tempo que os demais candidatos. No Youtube, por exemplo, Bolsonaro já estava inscrito desde 2009. Os demais candidatos fizeram seus canais apenas em 2018.

Para além do número absoluto de seguidores, uma variável importante na análise do grau de impacto de um perfil em redes sociais é o chamado engajamento, que se refere a ações dos usuários diante do conteúdo publicado. Para esta análise, foram consideradas as seguintes ações em cada rede social: Facebook (reações, comentários e compartilhamentos), Instagram (curtidas e comentários), Twitter (curtidas, comentários e retweets), Youtube (curtidas e comentários). Considerou-se o volume de ações dividido pelo número total de fãs/seguidores/inscritos no momento da publicação do conteúdo, multiplicado por 1000.

Gráfico 1. Engajamento de candidatos à presidência nas redes sociais

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 Foto: Estadão

Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Emplifi.

O engajamento foi analisado considerando dois períodos de 30 dias: 17 de março a 15 de abril de 2022 (30 dias) e 04 de julho a 2 de agosto de 2022 (30 dias). Por meio do gráfico, é possível visualizar as redes sociais que cada candidato se destaca: Bolsonaro obtém mais engajamento no Facebook que nas demais redes sociais, tendo apresentado um aumento de engajamento no Facebook, Instagram e Twitter no intervalo analisado, mas não conta com um engajamento significativo no Youtube. Lula tem alcançado o maior engajamento entre os candidatos, com destaque para Instagram e Twitter. No Youtube, houve uma queda de engajamento significativa no intervalo analisado, de 1900 interações (por 1000 assinantes) para 415 (por 1000 assinantes). Ciro Gomes tem crescido no Facebook, Twitter e Instagram. E embora tenha apresentado uma queda de engajamento no Youtube, ainda é o candidato com maior público engajado nessa rede na análise de 04 de julho a 2 de agosto. Abaixo a soma do engajamento dos candidatos em todas as redes.

Gráfico 2. Engajamento total nas redes sociais

 Foto: Estadão

Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Emplifi.

Embora Bolsonaro conte com um público de seguidores/fãs/inscritos superior aos demais candidatos, foi possível verificar que, em relação ao engajamento, Lula é o candidato que mais se destaca nas redes. Ciro tem mantido um engajamento similar ao de Bolsonaro, embora tenha um público cerca de dez vezes menor que aquele, o que parece revelar uma concentração de esforços desse candidato na divulgação de seu nome e ideias.

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Não se pode ignorar, no entanto, o grande público que não está nas redes sociais. Segundo o TSE [5], 156.454.011 estão aptos para votar nas eleições de 2022. O número de seguidores/fãs/inscritos de Bolsonaro representa apenas 7,55% desse total de aptos a votar, 2,46% do público do Lula e 0,66% de Ciro Gomes. Desse modo, considerando o uso das redes sociais como uma estratégia comum entre os candidatos, até que ponto as redes sociais podem influenciar decisivamente nos resultados das eleições presidenciais de 2022?

É inegável que as redes sociais têm surgido e se afirmado no cenário político, reduzindo a hegemonia dos veículos tradicionais, por conta da velocidade e praticidade do ato comunicativo, pela abrangência do alcance de informações, e pela possibilidade de manifestação de vários sujeitos em relação a temas políticos, conferindo desintermediação entre cidadãos e representantes. No entanto, redes sociais e veículos tradicionais não se excluem, podendo se retroalimentar, como por exemplo quando mídias tradicionais referenciam redes sociais, utilizam os "Trending Topics", "Hashtags" e outras ferramentas das mídias sociais para pautar seus conteúdos, ou quando as redes repercutem os debates presidenciais na televisão.

Por outro lado, a literatura recente da comunicação política aponta para uma "turbulência política" causada pelas redes, na medida em que elas desorganizam as estruturas de visibilidade da comunicação antes vigentes, gerando incertezas em relação ao ambiente informacional segmentado, agora explorado pelos atores políticos [1].

As primeiras entrevistas presidenciais na televisão serão realizadas em breve e ao que se seguirá os debates. Será interessante e oportuno observar o que acontece nas entrevistas e a reverberação nas redes sociais, principalmente nesta reta final da eleição. Acreditamos que a eleição não se decide apenas em um locus, seja digital ou convencional, mas em um mix de ambos. É objetivo destes pesquisadores repetir esses levantamentos das redes sociais daqui até a eleição.

Notas e referências

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[1] SANTOS JUNIOR, Marcelo Alves dos. Plataformização da comunicação política:: governança algorítmica da visibilidade entre 2013 e 2018. E-Compós, [S. l.], v. 24, 2021. DOI: 10.30962/ec.2101.

[2] RUEDIGER, Marco Aurélio; GRASSI, Amaro. Redes sociais nas eleições 2018. 2018.

[3] PINHO, José Antônio Gomes de. Como será a tentativa de Golpe? ESTADÃO, 29 de julho de 2022.

[4] DATASENADO. Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade de Dados na Internet. Nov/2019. Disponível em https://www12.senado.leg.br/institucional/ouvidoria/publicacoes-ouvidoria> Acesso em 15 de abril de 2022.

[5] TSE. Tribunal Superior Eleitoral. Estatística do Eleitorado. Disponível em https://www.tse.jus.br/eleitor/estatisticas-de-eleitorado/eleitorado>.Acesso em 04 de agosto de 2022.

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