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Impressões, pensamentos, verdades e versões

Opinião|O Grinch bateu à porta da minha casa e o estrago foi grande

Uma reflexão sobre os desafios para 2024: estresse climático, caos ecológico. O que mais está por vir?

Foto do author Giuliana Morrone
Atualização:

Resolvi fazer um café. Exausta! Era o fim da maratona de Natal.

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Fui encarregada de levar as sobremesas para o almoço em família no dia 25. Fiz charlote de pêssego e banoffee. Na véspera, meu filho resolveu preparar um peru de Natal, seguindo a receita de um autodeclarado redneck — um caipira do Kentucky, nos Estados Unidos.

I fucking hate social media, brinquei, parafraseando a personagem Amanda, do apocalíptico “O Mundo Depois de Nós”, disponível na Netflix.

O filme trata claramente de racismo e indiretamente de desafios da humanidade: os poderes assustadores da internet, o descontrole sobre a inteligência artificial, o caos ecológico. Tudo com suspense e realismo mágico.

Logo no início do filme, a personagem Amanda disse detestar pessoas. Eu detesto essas maluquices de redes sociais.

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O redneck do Kentucky publica vídeos com receitas exóticas.

Literalmente, afoga o peru de Natal num contêiner, fazendo uma marinada com litros de água, suco de limão e vinho branco. A ideia é que fique totalmente submerso. Imagine o tamanho da tina de plástico que meu filho arrumou para fazer a magia do Natal redneck acontecer.

Ele desmontou o interior da geladeira para acomodar, no refrigerador, a piscina olímpica de peru. No dia seguinte, quase acabou com a manteiga do supermercado, muita manteiga para untar a ave. Uma zona que parecia não ter fim. Teve. O peru ficou realmente uma delícia, super macio. O redneck triunfou.

Uma ventania fortíssima adiou meu plano de tomar o café sossegada, depois da festança. Eu tinha acabado de limpar o forno e os vestígiosnatalinos do Kentucky. A porta estava aberta, quando uma avalanche de folhas e flores cobriu o chão da cozinha. Tenho o privilégio de morar em casa, num bairro muito arborizado. Este ano, nós, moradores de Brasília, vivemos o encantamento de uma floração antecipada de cambuís. As árvores têm flores pequeninas. Juntas, formam buquês amarelos. A florada foi atípica, em decorrência do calor também fora do normal. 2023 foi o ano mais quente da história, segundo o Copernicus, o Programa da União Europeia de Observação da Terra.

A ventania foi assustadora. Nunca vi tantas folhas e flores juntas. Peguei a vassoura e enchi um saco de lixo de flores de cambuís. Era um sinal, mas não percebi. O café esfriou. O tempo passou. Fui dormir.

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Acordei no escuro. No grupo de WhatsApp, a queixa geral. Mais uma vez, ficamos sem energia. Uma tempestade, na madrugada, nos levou a mais um apagão. Aqui na vizinhança, velas são itens indispensáveis. Falta luz de forma recorrente. Já perdi tv e outros aparelhos. Um vizinho solidário teve a ideia de comprar um estoque grande de lanternas e revender para a comunidade. É a comprovação de que nem sempre privatização de empresa de energia resulta em melhorias para os clientes. Na mensagem automática do robô da Neoenergia, mais uma promessa: “em breve, nossa equipe vai te atender!”

Saí do quarto escuro e pisei numa poça d’água. A casa estava alagada. Quartos, banheiros, sala. O lavabo parecia a tina do peru: cheio de água. Na cozinha, dava para fazer onda com o rodo que eu peguei correndo para me livrar daquele aguaceiro.

A tragédia de flores de cambuís Foto: Giuliana Morrone

A manutenção da casa está sempre em dia, mas a ventania de ontem levou também as flores de cambuí para o segundo andar da casa, onde ficam os quartos. O ralo da área externa ficou entupido, provocando a enxurrada.

Foi uma manhã apocalíptica: sem energia, com a casa inundada. Uma tragédia que começou com flores e folhas. Os pensamentos vão para as ameaças de 2024: os poderes assustadores da internet, o descontrole sobre a inteligência artificial, o caos ecológico.

Tudo com suspense e realismo mágico.

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Opinião por Giuliana Morrone

Giuliana Morrone nasceu no hospital da L2 Sul, em Brasíla. Para onde vai, leva a experiência de mais de 30 anos de jornalismo político e internacional. É especializada em ESG.

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