Lula reage a Trump e diz que sempre esteve aberto ao diálogo, mas trabalha para responder tarifaço

Declaração de petista nas redes sociais veio após presidente americano dizer que o brasileiro pode falar com ele ‘quando quiser’

PUBLICIDADE

Foto do autor Felipe Frazão
Atualização:

‘As pessoas que governam o Brasil fizeram a coisa errada’, diz Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump disse que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, pode falar com ele quando quiser. Crédito: Reprodução/Youtube/The White House

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta sexta-feira, dia 1º, à afirmação do presidente Donald Trump de que o petista poderia entrar em contato com ele a qualquer momento.

“Sempre estivemos abertos ao diálogo”, disse Lula em postagem no X, horas depois da declaração de Trump, que também justificou o tarifaço de 50% pelas “coisas erradas” feitas por quem governa o País.

Lula disse que está aberto ao diálogo, mas também afirmou que trabalha para reagir a tarifaço imposto por Donald Trump Foto: Wilton Júnior/Estadão

“Quem define os rumos do Brasil são os brasileiros e suas instituições. Neste momento, estamos trabalhando para proteger a nossa economia, as empresas e nossos trabalhadores, e dar as respostas às medidas tarifárias do governo norte-americano”, escreveu o petista na mensagem.

Publicidade

PUBLICIDADE

Nesta sexta-feira, em entrevista curta na Casa Branca, Trump afirmou que Lula poderia falar com ele quando quisesse. As declarações foram dadas em resposta à jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo e da GloboNews.

Trump foi questionado diretamente sobre se estava disposto a discutir as tarifas aplicadas ao País e reafirmou que Lula pode falar com ele, repetindo a mesma frase: “Ele pode falar comigo quando quiser”. Na sequência, ao ser perguntado sobre o que estaria em pauta para o Brasil, completou: “Vamos ver o que acontece. Eu amo o povo brasileiro”.

Questionado sobre o componente político nas tarifas, já que inexiste desequilíbrio comercial desfavorável aos EUA, Trump afirmou que “as pessoas que governam o Brasil fizeram a coisa errada”.

Publicidade

Integrantes do Itamaraty e do Palácio do Planalto, reservadamente, disseram que agora é necessário verificar se Trump dará sinal verde para a burocracia americana preparar de fato uma primeira conversa de máximo nível político. E salientaram que o americano apenas respondeu a uma pergunta em momento informal na Casa Branca, e que um telefonema entre chefes de Estado requer preparação cuidadosa.

Lula havia dito que escalara ministros para tentar intermediar contatos, mas que a resposta até então havia sido negativa para uma conversa na Casa Branca. Em 11 de julho, dois dias após anunciar o tarifaço de 50%, Trump dissera que só conversaria com o petista “em outro momento”.

Como mostrou o Estadão, Lula cogita ligar para Trump, mas queria antes ter a certeza de que o americano iria atender a ligação e focar em comércio na conversa - ou seja, o petista não vai dar margem para negociar assuntos institucionais e de soberania.

Publicidade

Há receio no Palácio do Planalto de que ele seja submetido a algum tipo de constrangimento político ou humilhação, mesmo por telefone ou videochamada.

Em entrevista ao The New York Times, o brasileiro afirmou que o País “não negociará como se fosse um país pequeno contra um país grande”. O próprio Lula disse que deseja ser tratado com respeito e civilidade.

Ambos têm um histórico de declarações hostis mútuas no passado e jamais interagiram ou se encontraram pessoalmente. Integrantes do governo dizem que movimentos exploratórios, que podem ajudar a preparar o terreno para um contato no mais alto nível estão em curso.

Publicidade

PUBLICIDADE

O estreitamento de contatos entre equipes de governo faz parte desse processo. Na quarta-feira, dia 30, pela primeira vez o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) conversou com o secretário de Estado, Marco Rubio, em encontro discreto em Washington, fora do Departemento de Estado e da embaixada brasileira.

Os contatos mais frequentes têm sido feitos pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A equipe dele trabalha com expectativa de novos contatos, em nível técnico e político.

O ministro Fernando Haddad (Fazenda) afirmou que deve falar mais uma vez com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, na próxima semana. O encontro deve ocorrer após contato da equipe do americano nesta quinta-feira, dia 31, segundo o governo brasileiro.

Publicidade

Na última quarta-feira, 30, o presidente americano assinou a ordem que define a tarifa adicional de 40% sobre o Brasil (além dos 10% inicialmente aplicados como tarifa recíproca), apontando especialmente razões políticas em seu comunicado, com ataques ao governo brasileiro e ao ministro Alexandre de Moraes, em razão do julgamento de Jair Bolsonaro e da regulação das big techs. Apesar disso, quase 700 produtos brasileiros foram isentos da tarifa.

Contatos entre os governos Lula e Trump:

  • Videoconferência entre Geraldo Alckmin, Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR)- 6/3
  • Reuniões virtuais entre Mauro Vieira e Jamieson Greer (USTR) - 8/3 e 2/4
  • Encontro presencial entre Fernando Haddad e Scott Bessent (Secretário do Tesouro) na Califórnia - 4/5
  • Dez reuniões de negociação tarifária no grupo de trabalho entre técnicos de ministérios do Brasil e contrapartes americanas - 8/3 a 4/7
  • Viagem dos embaixadores Mauricio Lyrio e Fernando Pimentel (equipe da Secretaria de Assuntos Econômicos e Financeiros) a Washington para reunião com representantes de Comércio - 26/3 a 28/3
  • Duas reuniões virtuais entre Geraldo Alckmin e Howard Lutnick (Secretário de Comércio) - 19/7 e 28/7
  • Encontro presencial entre Mauro Vieira e Marco Rubio (Secretário de Estado) em Washington - 30/7

Segundo o MDIC, o Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais criado em julho por ordem de Lula já realizou 27 reuniões com 162 representantes públicos, 225 representantes privados e 123 entidades privadas (empresas, associações, federações). Três reuniões envolveram empresas norte-americanas, a última delas com William Kimmitt, advogado representante da Secretaria de Comércio dos EUA.

Vale ler também
Coluna do Estadão
ANTT criou proibição ilegal contra empresas de ônibus, diz MPF
Ricardo Corrêa
Postura de aliados de Flávio em debates coloca em dúvida disposição para serem palanques do senador
Coluna do Estadão
Relatora, Tereza Cristina é excluída de negociação de acordo com governo sobre fertilizantes