Um drone rondou por alguns dias a janela de um apartamento no Brooklin, em São Paulo. Era julho de 2022, ano da disputa política que dividiu o País entre aliados do então presidente Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, seu desafiante.
O morador do 16.º andar disse que nunca soube do que se tratava, mas ligou os fatos quando viu seu nome na agenda apreendida pela Polícia Federal na casa do general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro.
Os manuscritos de Heleno foram exibidos em um PowerPoint apresentado nesta terça-feira, 9, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, durante o julgamento de Bolsonaro e outros sete acusados pela Procuradoria-Geral da República na trama golpista.
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Heleno é um desses réus. Foi ele quem disse, na famosa reunião ministerial de julho de 2022, a emblemática frase considerada como “confissão” por Moraes: “Se tiver que virar a mesa é antes das eleições”.
O homem vigiado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), de acordo com a agenda de Heleno, é o ex-deputado federal Vicente Cândido (PT). Na página 67 do inquérito, as anotações do militar de alta patente se referem a Cândido da seguinte forma: “É o novo Vaccari. ABIN está de olho nele”.
João Vaccari Neto foi tesoureiro do PT. Condenado no âmbito da Lava Jato, Vaccari chegou a ser preso. No mês passado, o ministro do STF Dias Toffoli anulou todos os procedimentos contra ele naquela operação.
Integrante do Prerrogativas, grupo de advogados ligados ao PT, Vicente Cândido organizou jantares de arrecadação para a campanha de Lula, em 2022, mas nunca foi tesoureiro do partido.
“Não sei por que meu nome estava naquela agenda”, disse Cândido à coluna, numa referência às anotações de Heleno. “Sei que, quando o Alexandre de Moraes tornou público o inquérito, eu constava da página 67”.
Questionado se sabia do monitoramento feito pela Abin, o ex-deputado falou sobre o drone. “Mas nunca me preocupei com isto. Fiz a relação, por dedução, quando apareci no inquérito”, contou.
A agenda do homem forte de Bolsonaro trazia outros compromissos além do monitoramento de Vicente Cândido, anotados com uma letra bem redonda, sob o aviso “Falar c/o Pres”.

Logo após o nome de Cândido eram citados o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardoso (com ‘s’, quando o sobrenome dele é com ‘z’) e o então deputado Alexandre Padilha (PT), hoje titular da Saúde, como se os dois fossem da tropa de choque de Lula. Pulando uma linha constavam duas anotações: - Bunker em S. Paulo/- Bunker em Brasília.
“Essa agenda é absolutamente incompreensível”, avaliou Cardozo, que foi advogado de Dilma Rousseff no processo de impeachment e não é próximo de Lula. Quem acompanha o PT sabe que ele sempre foi considerado o mais tucano dos petistas.
Essa agenda é absolutamente incompreensível. Cabe ao general Heleno explicar
José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça
“Não tenho a menor ideia do que se trata nesses manuscritos. Cabe ao general Heleno explicar”, completou o ex-ministro, que também integra o grupo Prerrogativas. Desde maio de 2017 Cardozo é sócio de um escritório de advocacia que atua em tribunais superiores.
Padilha não quis falar sobre a menção a seu nome. O ex-procurador-geral da República Augusto Aras também foi citado pelo general. “Aras se aproximou da ABIN”, diz a anotação de Heleno.
À coluna, Aras negou que essa aproximação tenha ocorrido. “Passei quatro anos procurando a Abin para obter informações sobre organizações criminosas internacionais infiltradas no Brasil e jamais obtive qualquer resposta”, relatou. “Tive a impressão de que essa instituição só existia formalmente no organograma do governo, mas não funcionava para auxiliar o Ministério Público Federal nas investigações”.
Passei quatro anos procurando a Abin para obter informações sobre organizações criminosas internacionais infiltradas no Brasil e jamais obtive qualquer resposta
Augusto Aras, ex-procurador-geral da República
O caderno com apontamentos de Heleno mostrou, ainda, a sigla “PF” acompanhada de uma seta com a inscrição “preparando uma sacanagem grande”. E, logo depois, mais um tópico enigmático: “Grupos de manifestantes chilenos podem atuar no Brasil”.
Para o coordenador do Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, as menções relacionadas a integrantes do grupo são porque seus advogados sempre se destacaram pela oposição a Bolsonaro.
Marco Aurélio observou, no entanto, que é preciso ‘‘serenidade” no julgamento do ex-presidente. “A pressa não ajuda o campo democrático”, argumentou ele. “A ideia de prender Bolsonaro antes da sentença penal condenatória transitada em julgado é um equívoco.”
Nos bastidores, ministros de Lula vão na mesma linha. Ninguém fala em público sobre isso, mas há no Palácio do Planalto a preocupação em não transformar Bolsonaro em mártir. Esse script, aliás, já é seguido há algum tempo pelo presidente dos EUA, Donald Trump. E todos sabem com quais interesses.








