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Brasil adota esquema de dose única para vacinação contra o HPV

Anúncio foi feito pela ministra da Saúde, Nísia Trindade; vírus está por trás de aproximadamente 90% dos casos de câncer do colo do útero no Brasil

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Por Victória Ribeiro

Em um vídeo divulgado nas redes sociais nesta segunda-feira, 1, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, revelou uma nova estratégia na vacinação contra o HPV (sigla para papilomavírus), principal agente causador do câncer de colo de útero: a partir de agora, a vacina será administrada em dose única. Antes, eram indicadas duas doses.

De acordo com a ministra, a decisão de adotar a vacinação em dose única baseou-se em estudos científicos que indicam uma maior adesão à vacina, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quem pode se vacinar gratuitamente pelo SUS:

  1. Meninas e meninos de 9 a 14 anos;
  2. Pessoas de 9 a 45 anos com condições clínicas especiais como HIV/Aids, transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea, pacientes oncológicos (imunossuprimidos);
  3. Vítimas de abuso sexual;
  4. Pessoas com papilomatose respiratória recorrente (PPR).

Além disso, Nísia incentivou Estados e municípios a realizarem uma busca ativa por pessoas de até 19 anos que não receberam nenhuma dose da vacina contra o HPV, para que possam atualizar seu esquema vacinal.

Segundo Ministra da Saúde, mudança estratégica foi baseada em estudos científicos e em recomendação da Organização Mundial de Saúde Foto: terovesalainen/Adobe Stock

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A ministra aproveitou também para destacar o progresso nos índices de vacinação, com mais de 5 milhões de doses aplicadas em 2023, o maior número desde 2008. Na comparação com 2022, o aumento foi de 42%. “Agora temos mais vacinas para proteger nossa população”, afirmou.

Embora o HPV também esteja associado a outros tipos de câncer, como de ânus, vulva, vagina, pênis e orofaringe, a médica Isabella Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), ressalta que os estudos científicos que embasam a decisão da dose única não demonstram sua eficácia na proteção contra esses tipos de neoplasia.

Apesar disso, países como Grã-Bretanha e Austrália foram os primeiros a mudar suas políticas e estabelecerem a vacinação em uma única dose. Segundo Isabella, a expectativa é que exista uma vigilância epidemiológica desses locais, para que em breve existam evidências sobre a eficácia da única dose contra os outros tipos de cânceres além do de colo de útero.

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“O Brasil faz vigilância da circulação do vírus, mas não das lesões precursoras. Ou seja, quando uma pessoa vai ao ginecologista e são detectadas as lesões pré-cancerígenas, não há uma notificação. Por isso, a expectativa é que exista um acompanhamento da dose única em outros países, como a Austrália”, afirma Isabella.

Mesmo reconhecendo essa lacuna, a diretora da SBIm afirma que, do ponto de vista da saúde pública, a decisão pode colaborar com uma maior adesão da vacinação e, consequentemente, alterar significativamente o cenário do HPV no Brasil.

“Ao se vacinar contra o vírus, a pessoa não só se protege, mas também contribui para reduzir a circulação e a prevalência do HPV. Essa é a base estratégica por trás da mudança no esquema vacinal, juntamente com o objetivo de eliminar o câncer de colo de útero”, explica Isabella.

Segundo a OMS, a ampla implementação da estratégia de dose única poderia prevenir 60 milhões de casos de câncer do colo do útero e 45 milhões de mortes em todo o mundo nos próximos 100 anos.

O que é o HPV?

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A sigla diz respeito ao papilomavírus humano, responsável pela infecção sexualmente transmissível (Ist) mais frequente no mundo, segundo o Ministério da Saúde. Ainda segundo a pasta, a transmissão do HPV ocorre pelo contato direto com a pele ou mucosa infectada, ou seja, pelo toque, penetração vaginal ou anal, ou contato do vírus com a boca. Já foram identificados mais de 200 subtipos do vírus.

Cerca de 70% a 80% da população entra em contato com o HPV em algum momento da vida, principalmente por meio da atividade sexual. Embora a maioria das infecções pelo vírus seja resolvida pelo sistema imunológico, algumas persistem, o que pode resultar no desenvolvimento de lesões e, eventualmente, no desenvolvimento do câncer.

Quais as formas de prevenção contra o HPV?

Segundo Mariana Scaranti, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, a principal estratégia nesse sentido é a vacinação. O imunizante contra o HPV é disponibilizado gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) há dez anos.

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Além da vacinação, outra estratégia fundamental no combate ao HPV é o uso de preservativo. Mas, como esse método não é 100% eficaz no combate à doença, segundo o Ministério da Saúde, é importante combinar o uso de preservativos com a vacinação.

Para evitar especificamente o câncer de colo de útero provocado pelo HPV, outra estratégia é a realização regular do papanicolau. Trata-se de um exame ginecológico que identifica infecções no colo do útero e pode detectar a doença antes que ela se transforme em um tumor. Segundo a oncologista, a periodicidade de realização desse exame deve ser decidida junto com o ginecologista.

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