Câncer de pulmão: medicamento reduz em 51% risco de morte em pacientes

Tumor desse tipo é o mais letal do País; estudos apresentados no maior congresso de oncologia do mundo, nos EUA, mostram, pela 1ª vez, eficácia de remédios em estágios iniciais da doença

PUBLICIDADE

Foto do author Fabiana Cambricoli
Por Fabiana Cambricoli
Atualização:

CHICAGO (EUA)* - Dois estudos apresentados no maior congresso de oncologia do mundo neste fim de semana indicam avanços no tratamento do câncer de pulmão, tumor que mais mata no Brasil, com média de 28 mil óbitos por ano no País.

Uma das pesquisas, conduzida pelo renomado Yale Cancer Center, dos Estados Unidos, demonstrou que um medicamento foi capaz de reduzir em 51% o risco de morte para pacientes com uma das formas do tumor de pulmão de células não pequenas, tipo responsável por mais de 80% dos casos da doença.

Mortes provocadas pelo tabaco devem aumentar para 8 milhões em 2030; cigarro é um dos fatores de risco Foto: Reuters

PUBLICIDADE

Os trabalhos foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), que acontece em Chicago até a próxima terça-feira, 6. O trabalho dos pesquisadores americanos investigou, em um estudo de fase 3 com a participação de 682 pacientes de 26 países, o uso do medicamento osimertinibe, produzido pela AstraZeneca, em pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas com a mutação do tipo EGFR.

Todos os participantes do estudo passaram por cirurgia para retirada do tumor e, após a operação, parte dos pacientes recebeu o medicamento e o outro grupo recebeu placebo. Após acompanhamento de quase cinco anos, os cientistas observaram que o risco de morte entre os que tomaram o medicamento foi 51% menor do que no grupo que não recebeu a droga. O benefício foi observado em todos os estágios da doença analisados.

Diretor adjunto do Yale Cancer Center e líder do estudo, Roy Herbst afirmou que os resultados devem fazer com que o uso do osimertinibe se torne o tratamento padrão para esses tipos de tumor de pulmão. Para ele, os números de sobrevida global “inspiram confiança” em adotar a medicação para casos de tumores com a mutação EGFR.

“Isso reforça ainda mais a necessidade de identificar esses pacientes com biomarcadores disponíveis no momento do diagnóstico e antes do início do tratamento”, afirmou ele, ao ressaltar a necessidade dos exames que possam identificar quais dos pacientes possuem a mutação.

Imunoterápico aumenta chance de eliminação completa da doença

Outro estudo, também com foco nos tumores de células não pequenas, demonstrou que o uso do medicamento imunoterápico pembrolizumabe, da farmacêutica MSD, antes da cirurgia para retirada do tumor e combinado com quimioterapia, aumentou as chances de remoção completa do câncer durante a operação e reduziu o risco de recidiva da doença.

Publicidade

A pesquisa, também de fase 3 e conduzida pela Universidade de Stanford, demonstrou redução de 42% no risco de recorrência e progressão da doença ou morte entre os pacientes que receberam o imunoterápico antes da cirurgia.

“Outros estudos com outros imunoterápicos já demonstraram benefício parecido. Este estudo vem corroborar o papel da imunoterapia pré-operatória e esta estratégia passa a se tornar mais uma opção de tratamento para esses pacientes”, disse ao Estadão William Nassib William Junior, líder de especialidade de tumores torácicos do Grupo Oncoclínicas, que também acompanhou a apresentação dos estudos em Chicago.

Para o especialista, os dois estudos se destacam porque são os primeiros a mostrar benefícios dessas drogas também para pacientes com tumores em fases iniciais, quando ainda há chance de cura.

“Nas últimas duas décadas, tivemos dois grandes avanços contra o câncer de pulmão: imunoterapia e terapia alvo”, afirmou. “Até recentemente, no entanto, estes avanços eram aplicáveis só a pacientes com doença avançada, uma situação na qual as chances de cura são muito pequenas ou inexistentes. Esses novos estudos trazem avanços para a doença em estágio mais inicial, quando os tumores são operáveis e as chances de cura são reais.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.