Gerando resumo
A intersecção entre a geriatria e o fim de vida é íntima. Talvez nenhum especialista médico se depare tanto com o processo da morte quanto o geriatra. Um gerontólogo, profissional que estuda o envelhecimento, também não escapa desse destino. Mas como será que um e outro se preparam para a própria finitude?
O Estadão conversou com quatro desses profissionais da saúde para colher suas impressões sobre esse momento crucial e inevitável da vida.
Alexandre Kalache

Nascido no Rio de Janeiro, tem 79 anos, é gerontólogo, codiretor do Age-Friendly Institute e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR), think tank que foca no desenvolvimento de ideias e diretrizes para políticas públicas destinadas ao envelhecimento populacional. Liderou um projeto global da Organização Mundial de Saúde (OMS) entre 2006 e 2007 para identificar os elementos-chave de uma cidade “amiga dos idosos” e atuou em muitos conselhos, como os do Fórum Econômico Mundial. Confira seu depoimento:
Em outubro, completo 50 anos de gerontologia e 80 de idade. Eu seria muito tolo se não tivesse aplicado esses ensinamentos em relação à minha vida. É o autocuidado. Esse autocuidado é difícil para o homem. Vivemos numa cultura machista, em que o homem diz: “O velho é sempre o outro”. Não tem o sininho da mulher, que é a menopausa, então ele ignora que esteja envelhecendo. A barriga cresce e vai em frente. Assim ele conjuga o verbo cuidar: “Tu cuidas, ele cuida, ela cuida, vós cuidais, eles cuidam. Eu não tenho nada a ver com isso, eu quero é ser cuidado”.
Acontece que não vai dar, porque vamos dar um salto de 33 milhões de idosos para 68 milhões daqui a 25 anos. Em 2050, este País será extraordinariamente envelhecido não só porque as pessoas estão vivendo mais, mas porque as taxas de fecundidade estão abaixo da reposição há mais de uma geração. Então é preciso criar reservas para poder envelhecer, para ter os pilares que garantam qualidade de vida à medida que o tempo passa.
Quando a gente envelhece, a gente não mede mais a vida pelos anos que viveu. A gente começa a medir a vida pelos anos que espera viver. É preciso se preparar. Quanto mais cedo a gente se prepara para o que almeja viver, melhor. E nunca é tarde demais. Se começa a se preparar aos 20, aos 30, terá mais ganhos. Se tem 60, 70 ou 80, é pra já. A pessoa, por exemplo, tem sobrepeso e não faz atividade física há 50 anos. Melhor começar ontem porque vai precisar de força nem que seja para sair da cama e ir ao banheiro com autonomia e independência.
É consenso dizer que a primeira reserva seja a saúde. Mas eu não falo de envelhecimento saudável, eu falo de envelhecimento ativo, que busco colocar em prática. A pessoa pode ter diabetes, hipertensão, depressão e até Alzheimer, mas, se tiver um espaço em que possa continuar ativa, contribuindo para a família, para a comunidade, é o que importa. Não interessa a doença, mas a pessoa. É esse o espaço que tem de ser criado.
O segundo capital a acumular é a aprendizagem ao longo da vida. Aprender sempre, porque a tecnologia não vai dar sopa. A informação hoje está na palma da mão. É preciso ter imaginação para saber o que fazer. Então, a cada dia, eu faço um esforço para aprender um pouquinho mais.
Não falo de envelhecimento saudável, eu falo de envelhecimento ativo
Alexandre Kalache, gerontólogo
O terceiro capital a acumular para bem envelhecer é o social. Ser mais leve, mais otimista. Adulto ranzinza é chato, mas velho ranzinza ninguém atura. Nem todo mundo tem a sorte de nascer otimista. Eu tive. Uma porque sou filho de imigrante que deu certo. Outra porque tenho o exemplo da minha mãe, que morreu aos 103 anos e era uma pessoa de bom humor, e um sogro que, às vésperas de morrer, aos 104, ainda fazia piadas. Quando era internado, todo mundo ia lá para ver como ele estava, da faxineira ao diretor do hospital.
O último capital passa pelo financeiro. É a segurança e a proteção de saber que você não vai ser abandonado, negligenciado, abusado. A corrida de 100 metros é fácil, mas chegar bem ao final de uma maratona implica ter políticas que possam fazer com que as opções mais saudáveis sejam mais baratas e acessíveis, que você possa com segurança fazer atividade física pelas calçadas sem ser violentado. A gente vive muito à mercê da sorte.
Essa segurança, esse abraço, passa também pela necessidade de ter profissionais que entendam sobre envelhecimento, do médico ao delegado, do arquiteto aos políticos. Só que a gente não está fazendo isso porque a devolução da longevidade demanda uma devolução da educação, que não existe. Como somos por essência um país do negacionismo, vamos empurrando.
Sou condicionado por uma família muito longeva. Acho que vou morrer centenário e, a menos que haja o desenvolvimento de alguma terapia, acho que vou morrer de Alzheimer. Minha mãe morreu disso. Então tenho reservado um capital financeiro para ser bem cuidado. Quero morrer em casa, e estou fazendo tudo para garantir uma equipe de cuidadoras. Algumas são ex-cuidadoras da minha mãe, que ainda são jovens e que me amam. Eu também as amo muito, eu cuido delas, arranjei emprego para todas. Às vezes, telefono e digo: “Se cuida, porque estou contando com você”.

Aos 57 anos, esta geriatra mineira dá aulas nos cursos de especialização em Gerontologia na PUC Minas e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também coordena a Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI (Instituições de Longa Permanência de Idosos), movimento social criado durante a pandemia de covid-19 que conta com mais de 1.500 membros voluntários de todo o Brasil e do exterior. Em 2022, foi eleita uma das 50 lideranças mundiais na promoção do envelhecimento saudável pela OMS, onde é consultora para cuidados de longa duração.
Eu não difiro da maior parte das pessoas. Eu queria morrer de “puf!” Ou seja, de uma hora para a outra, sem dar trabalho para ninguém. Só que a gente sabe que provavelmente não vai ser essa a nossa realidade. Então, eu busco me prover com certos recursos para esse processo.
Tento, por exemplo, sustentar minhas redes sociais, e isso inclui família e amigos, porque eu sei que o que mais vai me fazer falta no final é a presença. Fui criada por tia-avó velha, pai velho, avó velha. Quando eu nasci, meu pai tinha 51 anos. Quando ele morreu, ele tinha 92 e eu, 40. Se tudo der certo, meus três irmãos vão morrer antes de mim, meu marido vai morrer antes de mim e eu vou estar sem eles no final da minha vida. Eu sei que essa é uma realidade com a qual tenho de lidar. Mas eu não gostaria de viver esse momento solitariamente. Pretendo morrer com apoio de pessoas de quem gosto, que amo.
Do ponto de vista da saúde, faça tudo aquilo que recomendo para envelhecer bem. Acho horrível recomendar uma coisa que a gente não faz. Tenho alimentação saudável, pratico atividade física, busco desafios intelectuais, estou sempre ativa, tenho um engajamento social importante, conheço o propósito da minha vida. Em todo o caso, isso não me deixa imune à mortalidade.
Venho de uma família paupérrima. A minha avó morreu numa favela, sou filha de um analfabeto. Essas são as minhas marcas, as marcas da dificuldade. Não são as marcas da facilidade. Aonde eu fosse, tinha de dar certo. Não havia outra opção. Então, o meu propósito tem a ver com diminuir a desigualdade, com querer cidadania para todo mundo, educação para todo mundo.
Não chega a ser conflito, mas tem um tipo de questionamento que sempre fez parte da minha profissão. Quando a gente faz geriatria, a gente não sabe mais a idade que tem. Você tem 30 anos, está diante de uma pessoa de 80 e tem de se colocar no lugar dela. Então, eu tinha 30, de repente eu tinha 80 e, depois, voltava a ter 30. Qual vida eu estava vivendo? A deles ou a minha?
Ao mesmo tempo, uma coisa é imaginar a minha morte estando distante dela, outra é imaginar essa possibilidade consciente dela. A gente só toma consciência da finitude em determinadas circunstâncias. A gente não percebe essa finitude o tempo todo, a gente não percebe o corpo o tempo todo, a gente não percebe os limites. No meu momento de vida atual, eu ainda me sinto longe dessa perspectiva.
Na época da covid, eu pensava: “Será que quero ir para o CTI se for contaminada?”. Cheguei à conclusão de que “sim, quero ir para o CTI, ainda estou nova, tenho condição de recuperação, não tem nada que me impeça”. Entendo que o CTI pode prorrogar o sofrimento de pessoas mais velhas e, portanto, não fazer sentido em alguns casos. Mas, para mim, fazia sentido naquela circunstância.
Não tenho diretivas antecipadas de vontade feitas, mas tenho dialogadas. (As diretivas são documentos que permitem a uma pessoa expressar, de forma antecipada, suas preferências sobre os cuidados médicos que deseja receber, caso fique incapacitada de tomar decisões por si.) Pretendo fazê-las, mas ainda não senti essa vontade. Isso tudo que estou falando com você eu falo com o meu marido, eu tenho falado com os meus irmãos. Eles sabem, por exemplo, que sou uma doadora de órgãos, enquanto meus órgãos foram úteis para outra pessoa. À medida que a gente vai envelhecendo, essa utilidade tende a diminuir, mas a minha disponibilidade permanece.
Hoje, quero morrer na circunstância que falei: apoiada. Agora, com quais recursos médicos e tecnológicos, essa resposta vai variar de acordo com o momento de vida em que eu estiver. Mas eu não quero durar. Eu quero viver, mesmo que seja com limitação. Não sou eugenista. Eu sei que vou ter de lidar com os meus limites. Mas, hoje, eu só quero, de tudo o que tem aqui, o social. O pra mais, vai depender.
Eu não quero durar. Eu quero viver
Karla Cristina Giacomin, geriatra
Eu acho que a família que cuida não é tão generalizável como as pessoas falam. Acho que a família é um espaço de cuidado, mas também de conflito. Na velhice, na demanda do cuidado, as mágoas todas boiam de novo. Por isso, a gente tem de se esforçar tanto para resolver as nossas pendências a fim de não carregá-las para frente. É o que eu tenho tentado.
Não tive filhos. Se tivesse tido, poderia fazer diferença quanto ao meu fim de vida. Mas não lamento, não me arrependo de não ter tido filhos porque foi uma questão circunstancial. E aprendi que tem árvore que dá fruto, tem árvore que dá sombra. Eu dou sombra.
Eu acho que a gente morre da vida que levou. Você pode morrer de “puf!”, pode morrer de um acidente, isso está totalmente fora do nosso controle. No final das contas, essa é a briga: para que serve a morte? Para dar sentido à vida. Então, se estou aqui hoje, que eu faça o melhor que puder.
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Ana Beatriz Di Tommaso

Paulistana de 43 anos, é geriatra membro da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e médica referência técnica do serviço de Cuidados Paliativos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Foi uma das editoras do livro Cuidados Paliativos em Geriatria e Gerontologia (Editora Manole).
Eu não tenho filhos. Sou casada, tenho meus pais, irmãos e sogros vivos. Espero que eles não precisem me enterrar. É uma coisa muito particular minha, mas espero ser a última. Se eu for a última, fico mais tranquila, porque sou profissional da área da saúde, gostaria de poder cuidar de todos eles.
O quão longeva vou ser, não sei. Mas estou verdadeiramente me cuidando para não precisar de ninguém para empurrar minha cadeira de rodas, mesmo porque a reflexão, hoje em dia, é que provavelmente não teremos quem faça isso. Muitos que tiveram ou têm filhos os estão criando para o mundo. Um está numa cidade, outro em outra. Filhos ou família tradicional não são garantia de cuidado pleno. Por isso, a importância dos bons amigos, de uma boa organização financeira. Afinal, de alguma maneira você precisará pagar contas se tiver adoecido. Eu acho que as pessoas não deveriam romantizar a finitude. Tem de ser uma coisa de gestão em saúde mesmo.
Se eu me transformar numa grande longeva, acho que não terei outra escolha que não ser cuidada por cuidadores profissionais. Mas não gostaria de ser tão longeva. A gente é independente pra caramba, e a dependência é um ponto. Tenho conhecidos que dizem: “Meu sonho é viver 100 anos”. Eu cuido de centenários e não tenho nenhum sonho de chegar perto disso. Eu acho que 85 anos, em torno disso, está muito bom, embora eu tenha pacientes de 90 que são independentes e brilhantes. Se for esse meu caso, seguimos para 90. A minha régua é independência e autonomia. O destino é que vai dizer quando isso vai chegar.
Como vivencio as doenças e a finitude, acho que iria interpretar a minha própria finitude de um jeito sereno. Certa vez, ouvi um carnavalesco dizer: “O contrário da vida não é a morte, é o sofrimento”. Eu não enxergo a morte com uma antítese da vida, eu a enxergo como um contínuo, verdadeiramente. Agora, sofrimento, para mim, é sufocante. Sofrimento em todas as dimensões: psíquica, social, física.
Eu sou médica e consigo fazer pouco por uma pessoa que está sofrendo na finitude. A morte é uma experiência muito social. Então, a gente precisa de equipe com psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, enfermeiro, porque cada um, com o seu olhar, consegue tentar abraçar esse todo.
Eu acho que as pessoas não deveriam romantizar a finitude. É uma gestão em saúde
Ana Beatriz Di Tommaso, geriatra
A gente convive verdadeiramente com isso. Não é de ouvir dizer. É chão de fábrica. Você cuida de uma pessoa em finitude, você cuida de uma família em finitude, você se cuida dentro daquele cenário. A gente morre muito do jeito que viveu a vida toda. Isso é um clássico. A Cicely Saunders, que é a grande dama do cuidado paliativo, já trazia isso nas falas dela. Como a gente morre muito do jeito que viveu, a experiência da finitude vai ser sempre muito particular. Para alguns, pode ser muito leve, serena e angelical; para outros, pode ser muito difícil, muito sofrida. De qualquer forma, o compromisso do profissional de saúde é garantir que essa pessoa não esteja sozinha nesse momento.
A espiritualidade é importante para mim, mais a espiritualidade que a religiosidade. A gente consegue diferenciar isso bem, é um grande ponto de suporte e temperança nos momentos difíceis. Vivenciar a finitude daqueles que não desenvolveram a sua espiritualidade me reforça esse sentimento porque existe um desamparo quando as coisas já não são mais biológicas. Esse desamparo é muito acolhido pela espiritualidade. É resiliência, acolhimento, colocar significados diferentes daqueles que eram óbvios até a pessoa estar naquela situação.
O cuidado paliativo ainda é incipiente no Brasil. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) é superpioneira nas discussões paliativas. Em 2004, criou a Comissão Permanente de Cuidados Paliativos. É bastante tempo, mas, se olhar para a área da saúde, foi ontem. Quando se ensina cuidados paliativos para as pessoas, a intenção é mudar a cultura de cuidados. E, para mudar cultura, talvez precise de anos e anos, talvez de séculos.
Então, eu não sei se eu ou se você vamos morrer do jeito que a gente imaginava, mas talvez sim, porque estamos conseguindo disseminar conhecimento. E é com conhecimento que a gente vai ter cuidados paliativos do jeito que a gente entende ser responsável e ético.
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Geriatra de 49 anos, nasceu em São Paulo e é professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com mestrado e pós-doutorado pela Harvard School of Public Health. Diretora científica da SBGG, liderou estudo conduzido pela FMUSP no qual se constatou que 54% dos casos de demência na América Latina seriam evitáveis, um índice acima da média mundial (40%). O estudo foi publicado em 2024 na revista The Lancet Global Health.
Acho que todo geriatra já pensou no fim da vida por ordem direta ou indireta. Quando fiz residência, há mais de vinte anos, um professor propôs uma atividade que envolvia pensar na nossa finitude: quem estaria lá, quem não estaria, o que a gente teria e não teria feito.
Ao longo do tempo, voltamos a pensar nisso ao lidar com os pacientes. A geriatria é uma especialidade em que os pacientes morrem com mais frequência que nas outras. Todo mundo sonha em viver até os 100 anos, dormir e não acordar mais. Mas a maior parte são doenças crônicas que se arrastam.
Eu sou especialista em demência. É uma doença crônica com alta mortalidade, assim como o câncer e a insuficiência cardíaca grave, mas que também implica cuidadores, porque as pessoas podem sobreviver com ela por muito tempo. Daí eu ficar muito ligada em conexão social, em quem vai estar do lado se eu precisar de ajuda. Sou uma pessoa independente e autônoma em todos os aspectos da minha vida. E precisar de alguém perante uma doença desse tipo sempre me faz pensar sobre.
Tenho uma filha de 18 anos que mora nos EUA. Ela é filha única, como tantos aqui são filhos únicos hoje em dia, porque a árvore genealógica do Brasil vem afunilando. Isso me preocupa. Como eu vejo minha velhice muito distante, talvez o cuidador seja um robô, mas talvez seja a minha filha. Cuidar de mim pode vir a ser um ônus para ela.
Nos espaços que ocupo, ainda preciso falar sobre o que é necessário para uma pessoa viver bem. Mas não é exatamente um segredo, é meio senso comum. Para mim, o mais importante é fazer atividade física e comer de forma adequada. Também venho pensando no estresse. Será que vale a pena eu me preocupar com certas coisas? Se eu estivesse me tratando de um câncer, por exemplo, será que tal e tal problema teriam importância? Quais são minhas prioridades? Esse é um mecanismo que a gente deveria usar mais frequentemente: lembrar a nossa finitude e entender que certos problemas não valem a pena tomar um efeito tão grande na nossa vida.
Fico muito ligada em conexão social, em quem vai estar do lado se eu precisar de ajuda
Claudia Kimie Suemoto, geriatra
Meu trabalho, sem dúvida, é uma prioridade, porque é boa parte do meu propósito. Acho demência um tema fascinante pelo desafio, pela importância, pela gravidade. A demência pode destruir famílias inteiras. Ao mesmo tempo, os idosos são uma população em que, se você intervir de forma errada, o resultado pode ser fatal ou causar uma incapacidade permanente. O idoso não tem reservas, como uma criança ou um adolescente. É importante fazer algo que tenha embasamento, que seja correto. É muito sério isso, é uma fala que tenho guardada dentro de mim.
Outra fala que reproduzo para mim mesma é a de um professor que certa vez destacou a incrível motivação de formar pessoas e multiplicar o conhecimento. De fato, é uma coisa lindíssima quando uma pessoa que eu oriento na universidade ganha um prêmio por uma pesquisa. É uma coisa muito poderosa. E há muito o que fazer no Brasil e na América Latina quanto à demência.
Nunca fiz minhas diretrizes antecipadas. Eu me acho muito saudável. Mas sei que são superimportantes porque nada impede que um dia eu atravesse a rua, seja atropelada e fique ligada a aparelhos. As pessoas sabem o que a Claudia pensa sobre essas coisas? Não sabem.
Agora, se eu tiver uma doença terminal, sem nenhuma hipótese de cura, prolongar excessivamente seria errado. Mas essa definição de incurável, para muitas doenças, ainda é falha. Então, na dúvida, eu sempre acho que a gente deve pecar pelo excesso. Se não se tem certeza do incurável, acho que se deve insistir no tratamento.
Um geriatra pensa mais no fim da vida pela própria especialidade. Em geral, pouco se fala da morte, ainda mais na cultura ocidental. A gente não é educado para pensar nisso nem respeita muito a finitude. Mas, quando uma pessoa morre, é algo importante de “ser celebrado”, entre aspas. Porque, muitas vezes, estamos celebrando o legado dela.


