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Hepatite viral: zagueiro David Luiz, do Flamengo, está com suspeita da doença; entenda os riscos

Infecção que atinge o fígado pode causar de alterações leves até graves; os tipos de tratamentos, assim como a duração, dependem de qual vírus está acometendo o paciente

Foto do author Renata Okumura
Por Renata Okumura
Atualização:

Inflamação no fígado provocada por um vírus, a hepatite viral pode causar de alterações leves até de alta gravidade. Dependendo do quadro clínico, o avanço da doença pode comprometer o órgão, causando a cirrose hepática, ou gerar uma infecção tão grave que o paciente pode precisar de transplante hepático de urgência.

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Na noite de quarta-feira, 24, o zagueiro David Luiz, do Flamengo, foi substituído no intervalo do segundo tempo, durante partida do Flamengo contra o São Paulo, pelo jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil, com suspeita de apresentar quadro de hepatite viral. O jogador, de 35 anos, será submetido a exames médicos pelo clube até esta sexta-feira, 26, para avaliar o seu real quadro de saúde. A informação foi divulgada originalmente pelo GE e confirmada pelo Estadão.

"Existem vários vírus que são hepatotrópicos, ou seja, que têm uma tendência de agredir o fígado. Alguns desses vírus causam outros sintomas sistêmicos. Outros vírus agridem só o fígado. E alguns podem cronificar ou somente geram infecção aguda com resolução no intervalo variável de tempo", afirma Débora Terrabuio, médica hepatologista da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) e do Hospital das Clínicas.

Em caso de suspeita da doença, recomenda-se fazer testes de sangue e amostras de biópsia hepática, com caracterização adicional do vírus Foto: WERTHER SANTANA/ ESTADÃO

No Brasil, as hepatites virais mais comuns são causadas pelos vírus A, B e C – diferentemente da hepatite autoimune, que vitimou a jogadora de futsal Pietra Medeiros, do Taboão Magnus, que ocorre quando o próprio organismo ataca o órgão. Existem ainda, com menor frequência, o vírus da hepatite D, cujos casos são mais comuns no Norte do País, e o vírus da hepatite E, mais raro no Brasil, e que costuma acometer pessoas imunodeprimidas. 

"Temos ainda outros vírus que causam hepatite. Por exemplo, a mononucleose (doença do beijo) ou até a toxoplasmose (doença transmitida por gatos). A própria covid-19 pode alterar e provocar uma hepatite, inflamação no fígado, alterando os exames laboratoriais. Assim como o próprio HIV, por exemplo. Ou seja, vários vírus podem causar hepatite", acrescenta a especialista.

A hepatite A não vira crônica, ao contrário dos tipos B e C. Quando você tem uma infecção viral, ela pode ser leve, se resolver e o fígado desinflamar sozinho. "Para algumas hepatites virais, há tratamento, como é o caso da B e C. Para outras, o próprio organismo resolve a infecção. É o que chamamos de hepatite aguda, quando o próprio sistema imune responde e o organismo cura e resolve o problema da inflamação no fígado", explica a médica hepatologista da SBH.

Em algumas condições, no entanto, o quadro agudo evolui para doença crônica, quando o organismo não consegue eliminar o vírus. "No caso da hepatite crônica, na maioria das vezes, é necessário o uso de medicação para ajudar a eliminar o vírus. O paciente pode desenvolver cicatriz no fígado, podendo apresentar cirrose hepática. Algumas hepatites podem gerar uma inflamação tão grave que o paciente pode precisar de transplante hepático de urgência", acrescenta Débora. 

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Sintomas

Em geral, a infecção ocorre de forma silenciosa, sem a presença de sintomas, e a descoberta da doença ocorre por meio de exames de sangue de rotina. Mas há outras formas de manifestação.

Confira abaixo os principais sintomas da hepatite:

  • Cansaço
  • Mal-estar
  • Tontura
  • Enjoo
  • Vômitos
  • Dor abdominal
  • Olhos amarelados (icterícia)
  • Urina escura
  • Fezes claras
  • Alguns vírus podem causar febre também

Diagnóstico

A partir da suspeita da doença, são realizados exames de sangue– que são as enzimas hepáticas.

"Com o resultado, conversamos com o paciente para ver se tem histórico de medicação que possa fazer mal para o fígado. Que histórico de exposição ele teve, pois há hepatites virais que são transmitidas por água contaminada. Se viajou para algum local onde possa ter consumido água com más condições sanitárias. Uma investigação do que pode estar causando aquela elevação das enzimas do fígado", diz a médica do Hospital das Clínicas.

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Em seguida, também são realizados exames de sorologia para hepatites A, B e C e para outros vírus. Posteriormente, é realizada uma ultrassonografia do abdômen para verificar o quanto o fígado está comprometido.

Tratamento

Os tipos de tratamentos, assim como a duração, dependem de qual vírus está acometendo o paciente.

Em alguns casos, o próprio organismo elimina o vírus. No caso da hepatite A, em geral, são usados medicamentos para tratar os sintomas que o paciente apresenta.

Em outras situações, além dos sintomas, também é preciso tratar o vírus com medicações específicas. 

"Alguns vírus, tratamos por curto período de tempo, como por exemplo, citomegalovírus, com medicações injetáveis na veia. No caso de hepatites B e C, o tratamento é mais prolongado com comprimidos por via oral", explica a especialista.

Prevenção

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A hepatologista lembra ainda que algumas das hepatites virais são transmissíveis entre as pessoas. "O tipo A é transmitido por contato com água e alimentos contaminados com resíduos fecais. E no caso da B e C, transmissão por sangue contaminado", acrescenta Débora.

Ou seja, com relação à hepatite A, é preciso ter cuidado com os alimentos ingeridos. Lavar bem verduras para diminuir chances de adquirir o vírus, assim como tomar água de origem conhecida.

Para os tipos B e C, é recomendado que se evite o compartilhamento de alicates de unhas. Pode ter gotículas de sangue e a pessoa corre o risco de se contaminar, caso alguém que tenha hepatite tenha usado anteriormente o utensílio.

"É importante ainda usar camisinhas durante as relações sexuais. Não compartilhar seringas, agulhas e produtos de higiene mais íntimos. Outro ponto é ter cuidado com tatuagens. Procurar locais seguros que usem agulhas estéreis e descartáveis. Da mesma forma, quando está fazendo o tratamento dentário, para evitar a transmissão por hepatite C", orienta Débora.

"Atualmente, com a triagem nos bancos de sangue, a transmissão das hepatites B e C por hemoderivados é praticamente zero, pois o sangue é todo testado", conforme a hepatologista do Hospital das Clínicas. 

Vacinação

Para as hepatites A e B, as imunizações disponíveis em postos de vacinação de todo o País. Não há, porém, vacina contra a hepatite C, que tem demonstrado ser a mais letal no Brasil nas últimas décadas. Mas existe tratamento e cura, que podem ser alcançados por meio de medicamentos disponibilizados no SUS para qualquer pessoa que esteja infectada pelo vírus.

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Em relação às vacinas para as hepatites A e B, para atingir a máxima eficácia, os imunizantes precisam ser administrados de forma completa, conforme propõe o esquema vacinal para cada faixa etária.

Veja abaixo o esquema recomendado pelo Calendário Nacional de Vacinação:

Crianças

  • Hepatite B recombinante: 1 dose ao nascer.
  • DTP + Hib + HB (penta – entre outras doenças, protege contra a Hepatite B) / 3 doses recomendadas: 1ª aos 2 meses; 2ª aos 4 meses; 3ª aos 6 meses.
  • Hepatite A (HA): 1 dose recomendada aos 15 meses.

Adolescentes, adultos e gestantes

  • Hepatite B: 3 doses recomendadas (iniciar ou completar o esquema de acordo com a situação vacinal). Intervalo recomendado: 2ª dose deve ser aplicada 1 mês após a 1ª dose e a 3ª dose deve ser aplicada 6 meses após a 1ª dose.

População imunodeprimida

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  • Observar a necessidade de esquemas especiais com doses ajustadas, disponibilizadas nos Centros de Imunobiológicos Especiais (Crie).

Campanha nacional de prevenção contra as hepatites virais

Em 27 de julho deste ano, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de prevenção contra as hepatites virais, responsáveis pela morte de mais de 82 mil pessoas no Brasil entre 2000 e2020. Entre os óbitos, a hepatite C é o tipo que mais provoca mortes no País: foram 62.611 entre 2000 e 2020, o que representa 76,2% do total de vítimas no período, entre as demais hepatites. 

Além disso, segundo dados da pasta, o Brasil notificou 718.651 casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2021, sendo 168.175 (23,4%) de hepatite A; 264.640 (36,8%) de hepatite B, 279.872 (38,9%) de hepatite C e 4.259 (0,6%) de hepatite D.

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, as consequências ocasionadas pelas hepatites virais, como infecção aguda, câncer hepático ou cirrose associada às hepatites, matam cerca de 1,4 milhão de pessoas por ano no mundo

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