Não imunizar todo o planeta contra covid-19 pode custar mais de 1 milhão de vidas, dizem cientistas

Especialistas de universidades americanas criam modelo que calcula os riscos de não aplicar doses em habitantes de baixa renda

PUBLICIDADE

Por Adam Taylor
Atualização:

Um novo modelo está tentando calcular o custo de vacinar o mundo todo. E também pode revelar o enorme custo de não vacinar o mundo todo: pelo menos 1 milhão de vidas.

Pesquisadores das universidades de Yale, Brown, Maryland e Stanford, bem como do grupo Public Citizen, que defende um melhor acesso a medicamentos, publicaram o modelo e suas descobertas em um estudo ainda não revisado por outros cientistas na semana passada. Sua pesquisa, que outros especialistas chamaram de imperfeita, mas reveladora, surge em meio a uma nova pressão para o governo dos Estados Unidos garantir um acesso mais amplo a vacinas de tecnologia de RNA mensageiro contra o coronavírus, fabricadas pelas empresas americanas Pfizer e Moderna.

Profissional de saúde administra uma dose da vacina contra a doença do coronavírus Pfizer-BioNTechdurante oprograma de vacinação para jovensde 14 a 17 anos em uma academia em Guadalupe, México, 11 de fevereiro de 2022. Foto: REUTERS/Jose Luis Gonzalez 

PUBLICIDADE

De acordo com o modelo, aplicar doses de vacina de RNA mensageiro em cada pessoa que vive em países de renda média e baixa este ano evitaria 1,2 milhão de mortes. Terceiras doses para essa população, já comuns em países ricos, evitariam 1,5 milhão de mortes, segundo o modelo.

Zain Rizvi, diretor de pesquisa da Public Citizen e um dos autores do estudo, disse que os resultados devem ser um “alerta” para os Estados Unidos. “O presidente Biden tem a oportunidade de salvar um milhão de vidas se lançar um programa global sério de fabricação e entrega de vacinas”, disse ele.

Os números estão alinhados com outras estimativas de organizações globais de saúde. O Covax, um esforço global de vacinação apoiado pela Organização Mundial da Saúde, estimou publicamente que suas entregas de vacinas poderiam salvar entre 1 milhão e 1,27 milhão de vidas em 2022.

Já morreram pelo menos 5,7 milhões de pessoas – e possivelmente muito mais. Se esses números forem precisos, ou mesmo remotamente esclarecedores, uma rápida expansão da vacinação em países de baixa renda poderia evitar um número gigantesco de mortes.

E haveria benefícios adicionais para aumentar a vacinação nos países mais pobres. Um estudo separado e revisado por pares divulgado no mês passado descobriu que, se os países ricos doassem metade de suas vacinas, o mundo estaria muito melhor protegido contra futuras variantes.

Publicidade

Mas, se estes são os benefícios, quais são os custos? Dinheiro, é claro: salvar vidas custa dinheiro. E os países ricos que pagariam a conta nem sempre estão dispostos a carteira.

Na quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde e seus parceiros anunciaram uma nova chamada para financiar seu ACT-Accelerator, órgão criado para aliviar a desigualdade global durante a pandemia, com o objetivo de atingir US$ 23 bilhões em 2022. O Covax, o pilar desse órgão para a vacinação, já havia lançado seus próprios pedidos de US$ 5,2 bilhões em financiamento nos próximos três meses.

Muitos países ricos doaram para esforços como o Covax, dando dinheiro ou doses excedentes. Em novembro do ano passado, o governo Biden anunciou um plano para aumentar a oferta global de vacinas de RNA mensageiro com bilhões de dólares em financiamento.

Mas os esforços globais para combater o coronavírus continuam persistentemente subfinanciados. E à medida que os temores sobre a pandemia diminuem em países altamente vacinados após a onda de infecções pela variante Ômicron, a atenção pode estar mudando de foco.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Os países de alta renda querem declarar vitória sobre o coronavírus, disse a enviada especial da OMS, Ayoade Alakija, em entrevista coletiva nesta semana. “Não existe vitória sobre a covid. Já sabemos disto há muito tempo”, disse Alakija, que também é copresidente da Aliança Africana de Entrega de Vacinas da União Africana.

O modelo de Rizvi e seus colegas pode mostrar que o preço para vacinar o mundo é menor do que muitos esperavam. Gregg Gonsalves, coautor do estudo e professor associado da Escola de Saúde Pública de Yale, disse que sua pesquisa mostrou que a vacinação global pode ter “um preço incrivelmente razoável” quando se considera o número de vidas salvas.

Essa quantia, com base nas estimativas do número de vacinações, bem como nos custos estimados de produção e entrega de vacinas de RNA mensageiro da OMS e de outras organizações, variou consideravelmente. No máximo, seria US$ 81.500 por vida salva. No mínimo, US$ 7.400.

Publicidade

Ambos os preços seriam consideravelmente mais baixos que as estimativas usadas pelo governo federal dos Estados Unidos para calcular o valor monetário de uma única vida – mais de US$ 10 milhões em certas estimativas.

Mulher recebe segunda dose de reforço contra a covid-19 durante programa de vacinação realizado em uma igreja, em Santiago, Chile, 8 de fevereiro, 2022. Foto: REUTERS/Ivan Alvarado 

O artigo não foi revisado por pares e alguns especialistas em modelos matemáticos observaram que havia muitas outras complicações que não foram consideradas, entre elas o impacto de níveis generalizados de imunidade em países mais pobres que tiveram grandes surtos de Ômicron.

Outro fator foi o custo adicional de aumentar a produção tão rapidamente. Um estudo divulgado no início deste ano estimou que seria necessário fabricar 15 bilhões de doses adicionais de vacinas de RNA mensageiro este ano para enfrentar a Ômicron – algo muito acima dos modelos atuais.

“É um esboço de modelo”, explicou Gonsalves, acrescentando que a variedade de complicações significava que haveria pouca “vantagem para o dinheiro” em modelos mais complicados, os quais não mudariam o resultado principal.

E tem sido difícil questionar esse resultado principal. No ano passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou uma proposta para acabar com a covid-19 usando a vacinação, juntamente com outras medidas. A proposta foi orçada em US$ 50 bilhões. O modelo lançado na quinta-feira chegou a preços semelhantes, variando de US$ 35 bilhões a US$ 61 bilhões.

Os benefícios para a vida humana são óbvios. Mas também há benefícios econômicos. A estimativa do FMI para 2021 sugeria que a economia global poderia ganhar US$ 9 trilhões se adotasse sua proposta.

Analisando o modelo, Monica Gandhi, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia em San Francisco, que não esteve envolvida na pesquisa, disse que suas descobertas são “importantes e impactantes, um apelo à ação” para países, como os Estados Unidos, que já gastaram trilhões em suas próprias respostas à pandemia.

Publicidade

Rebecca Katz, diretora do Centro de Ciência e Segurança da Saúde Global do Centro Médico da Universidade de Georgetown, disse que o sucesso dos modelos de previsão durante essa pandemia sempre dependeu de quais fatores estavam envolvidos.

No entanto, Katz acrescentou por e-mail: “muitos acreditam que as vacinas de RNA mensageiro serão uma plataforma fundamental para futuras vacinas, então construir capacidade global de fabricação de RNA mensageiro em todo o mundo parece um investimento inteligente” para o futuro.

Até agora, nem a Pfizer nem a Moderna concordaram em trabalhar com um centro de tecnologia de RNA mensageiro apoiado pela OMS na África do Sul, que os apoiadores dizem que ainda vai levar anos para fazer a engenharia reversa de uma candidata a vacina. Em comunicado de lucros esta semana, a Pfizer anunciou que prevê cerca de US$ 100 bilhões em receita este ano. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.