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Por que a vacina contra covid entrou no calendário de imunização de crianças de 6 meses até 4 anos?

Especialistas destacam que covid tem se tornado cada vez mais uma ‘doença pediátrica’ e, por isso, vacinar os pequenos é a principal estratégia para evitar casos graves e óbitos; adesão à imunização infantil está baixa

Foto do author Leon Ferrari
Por Leon Ferrari
Atualização:

A vacina contra a covid-19 passa a integrar o calendário nacional de imunização para crianças entre 6 meses a menores de 5 anos a partir do ano que vem. Na prática, isso significa que a imunização deixa de acontecer no esquema de campanha, algo emergencial, e se torna uma rotina, além de poder ser cobrada para acessar alguns serviços e políticas públicas, como o Bolsa Família ou no ato de matrícula em escolas (embora, neste caso, não seja um impeditivo para inscrição), da mesma forma que ocorre para outros imunizantes, como os contra sarampo, rubéola e poliomielite.

Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que a medida é importante pois, ao mesmo tempo em que a doença vem se tornando “cada vez mais pediátrica”, as taxas de imunização, principal barreira contra casos graves e óbitos, estão baixas entre o público infantil. Quadros de covid longa na população pediátrica também preocupam.

Segundo especialistas, a covid-19 vem se tornando cada vez mais uma doença pediátrica Foto: Africa Studio/Adobe Stock

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Neste ano, até agosto, 3.586 crianças de zero até 5 anos incompletos foram hospitalizadas por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) causada pela covid, de acordo com o último boletim do Ministério da Saúde, com dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe). Foram registradas 93 mortes de pacientes dessa faixa etária. A maior parte das hospitalizações e dos óbitos se concentra nos bebês com menos de 1 ano (veja mais dados abaixo).

“Neste momento, se você pegar os dados não só do Brasil, mas dos Estados Unidos também, o risco de casos mais graves e morte das crianças é praticamente comparável ao da população com mais de 80 anos. Nós, adultos, fomos vacinados ou tivemos a doença ou as duas coisas. As crianças foram muito menos expostas, então deixam de ter a imunidade natural, e, sem vacinação, passam a ser um grupo muito suscetível”, diz a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas.

O pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que, por ter recebido de uma até quatro doses de vacina e/ou já ter tido a doença alguma vez, a população adulta brasileira, hoje, tem uma “doença muito mais leve do que na era pré-vacinal. “(Por outro lado) As crianças que estão nascendo agora são o único grupo que não teve oportunidade de receber uma dose de vacina ou exposição ao vírus. Quando olhamos para as taxas de incidência, esse é o segundo grupo com maior incidência de hospitalização, perdendo só para os maiores de 80 anos, mas quase empatando”, completa.

No Brasil e no mundo, as ações de imunização contra a covid foram conduzidas de forma excepcional conforme os imunizantes eram aprovados por órgãos regulatórios. Ao longo de 2022 e 2023, vacinas para crianças começaram a ser ofertadas. Hoje, para o grupo de 6 meses até 5 anos incompletos, há dois imunizantes disponíveis, a Pfizer Baby (a partir dos 6 meses até 5 anos incompletos) e a Coronavac (a partir dos 3 anos) (confira os esquemas vacinais abaixo).

As vacinas para os pequenos chegaram em um momento em que os adultos já haviam recebido duas doses ou mais da vacina, o que diminuiu a percepção de risco da doença, e a inclusão delas nas campanhas do governo federal, na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi marcada por uma série de obstáculos e de uma forte onda de desinformação. Tudo isso, de acordo com os especialistas, nos leva a um cenário preocupante: a taxa de imunização de crianças contra a covid segue “muito baixa”.

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“Pela primeira vez na história, vemos mais pais vacinados do que seus filhos. Isso é absolutamente inusitado”, diz Rosana. Até agosto, de acordo com o último boletim do Ministério da Saúde, a cobertura vacinal contra covid de bebês de 6 meses até dois anos com duas doses é de 9,79%, e com três, de 3,52%. No caso de crianças de 3 a 4 anos, 19,75% receberam as duas doses do esquema primário, enquanto só 0,3% receberam a dose de reforço.

Preocupados com esses números, os médicos destacam que, além de seguros e eficazes, os imunizantes são a principal barreira para evitar casos graves e óbitos pela doença. Além disso, fora do período agudo da infecção pelo coronavírus, a covid longa, com mais de cem sintomas persistentes, e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica associada à covid (SIM-P), são pontos de atenção na população pediátrica.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 10% e 20% daqueles que foram infectados experimentam uma variedade de sintomas a médio e longo prazo. “Acabei de voltar de congressos que discutiram o impacto da covid longa nas crianças, e não é pouca coisa”, afirma Rosana. “As crianças estão com atraso cognitivo e no aprendizado.”

O quadro, fala a infectologista, é difícil de tratar, pois se entende pouco da fisiopatologia dele, isso é, os mecanismos pelos quais o vírus causa essa série de sintomas após a doença inicial.

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Já a SIM-P é uma condição rara que, em geral, acomete crianças e adolescentes após cerca de duas a seis semanas após o contato com o vírus. Conforme o Ministério da Saúde, ela presenta amplo espectro clínico, com “acometimento multissistêmico”, e os sintomas podem incluir “febre persistente, sintomas gastrointestinais, conjuntivite bilateral não purulenta, sinais de inflamação mucocutânea, além de envolvimento cardiovascular frequente”.

Do início da pandemia (em 2020) até 2 de setembro de 2023, foram confirmados 2.064 casos de SIM-P, e 141 deles evoluíram para óbito. Neste ano, especificamente, foram 40 casos confirmados e 1 óbito.

Mortes e internações de crianças e adolescentes por covid

O último boletim do Ministério da Saúde com dados do Sivep-Gripe referentes a agosto destaca que, nas duas últimas semanas desse mês, as faixas etárias com maiores incidência e mortalidade por covid abrangeram idosos e crianças com 4 anos ou menos.

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Até agosto, foram registradas 2.312 hospitalizações de menores de um ano; 1.274 entre pacientes com 1 a 4 anos; e 730 de pequenos entre 5 e 11 anos. Quanto às mortes, os números foram, respectivamente, de 66, 27 e 12.

O Estadão comparou esses dados com o consolidado do ano passado, que foi marcado por uma explosão de casos da doença puxada pela cepa original da Ômicron. Nessa comparação, o que se observa é que a tendência é de queda de internações e óbitos por covid – no entanto, a desaceleração é menor entre crianças e adolescentes. Mudanças na metodologia de apresentação dos dados por idade nos relatórios após a troca de gestão federal limitam a comparação.

Considerando todas as faixas etárias, a queda nas internações foi de 87,93%. Olhando só para os pequenos de menos de 1 ano, a redução foi de 70,75%. Para bebês e adolescentes, compreendendo as faixas de menos de 1 até 19 anos, ela foi de 77,78%.

Já a queda geral de mortes pela síndrome respiratória aguda grave causada por covid foi de 90,6%. Nos bebês de menos de 1 ano, o decréscimo foi de 79,5%. Olhando de forma mais ampla, para uma faixa que abrange os menores de 1 ano até jovens de 19 anos, ela foi de 85,03%.

Vacinas disponíveis para as crianças

  • Pfizer Baby: para crianças de 6 meses a 4 anos, 11 meses e 29 dias. O esquema primário é constituída por três doses, com intervalo de 8 semanas entre a primeira e a segunda, e 4 meses entre a segunda e a terceira. Não há indicação de dose de reforço.
  • Coronavac: para crianças de 3 a 4 anos, 11 meses e 29 dias. O esquema primário é composto por duas doses, com intervalo de quatro semanas. Há a indicação de uma dose de reforço, preferencialmente com a vacina da Pfizer, com intervalo de quatro meses após a segunda dose recebida.

O que diz o governo

Em nota, o Ministério da Saúde destacou que, com a inclusão da vacina contra a covid no Programa Nacional de Imunizações (PNI), os Estados são obrigados, a partir de 2024, a oferecer o imunizante para o público de 6 meses até 5 anos. “Estamos empenhados em retomar as altas coberturas vacinais e oferecer, gratuitamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mais de 40 imunobiológicos, entre vacinas, soros e imunoglobulinas”, disse.

A pasta também destacou que a vacinação infantil está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e encaminhou o texto do primeiro parágrafo do artigo 14, que diz ser “obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”.

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O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, responsável pelo programa Bolsa Família, informou que não acompanha o “tipo de vacina” recebida pela criança, mas cobra o cumprimento do calendário nacional de vacinação. “A condicionalidade da saúde compreende o cumprimento do calendário nacional de vacinação e o acompanhamento do estado nutricional para os beneficiários que tenham até 7 anos de idade incompletos, e a realização de pré-natal das gestantes.”

O Ministério da Educação informou que, quando a Saúde inclui uma vacina no PNI, as instituições de educação infantil que atendem a faixa etária devem exigir a apresentação do comprovante no ato da matrícula. No entanto, de acordo com a pasta, a não apresentação do comprovante não é impeditivo para a efetivação da matrícula.

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