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Transtorno do espectro autista (TEA): o que é, quais os sintomas e como é o tratamento

Estima-se que dois milhões de brasileiros vivem com algum nível de TEA, mas muitos deles ainda não têm diagnóstico

Por André Bernardo

Renato tinha pouco mais de 2 anos quando, em 1980, sua mãe, Marisa, resolveu levá-lo a uma psicóloga. O garoto que gostava de cantarolar músicas do cantor Roberto Carlos, de repente, parou de cantarolar. Mais do que isso: começou a dar cabeçadas no chão e na parede. Logo na primeira consulta, Marisa ouviu da psicóloga que seu filho tinha autismo. Até então, ela nunca tinha ouvido falar naquela palavra.

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“Tenho quatro filhos e o Rê é o terceiro deles. Demorou um pouco para andar e não olhava nos olhos. Mas teve um desenvolvimento relativamente dentro do normal”, relata a mãe Marisa Furia Silva, de 76 anos, que é professora, tradutora e intérprete de inglês. “Na época, eu não sabia o que era autismo. Não havia literatura sobre o assunto nem na biblioteca da USP”. O diagnóstico foi confirmado por dois neurologistas.

Hoje, Renato tem 46 anos. É um dos dois milhões de brasileiros que, segundo estimativas, vivem com TEA, sigla para transtorno do espectro autista. Para fazer parte do espectro, a criança precisa apresentar déficit na comunicação ou interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento.

Há três níveis, dependendo do grau de suporte de que a criança necessita. A de nível 1 precisa de suporte, a de nível 2 precisa de suporte substancial e a de nível 3 precisa de suporte muito substancial. “Meu filho continua aprendendo e melhorando. Mas ainda é totalmente dependente”, explica Marisa que, três anos depois de receber o diagnóstico do filho, fundou, em 1983, a Associação de Amigos do Autista (AMA).

O diagnóstico de Renato foi precoce. Mas, há casos de diagnóstico tardio. Como o do psiquiatra e psicoterapeuta Alexandre Valverde, que recebeu o dele aos 42 anos. “O TEA não tem cura ou tratamento porque não é uma doença; é uma condição de origem genética”, explica o médico. “O que há para tratar são as comorbidades como ansiedade e depressão, entre outros distúrbios psiquiátricos”.

Para fazer parte do espectro autista, a criança precisa apresentar déficit na comunicação ou interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento Foto: irena_geo/Adobe Stock

Qual é a causa do transtorno do espectro autista (TEA)?

Não há uma única causa. Por essa razão, é considerado multifatorial. A causa pode ser tanto genética quanto ambiental.

Mas, veja bem: genético não quer dizer hereditário. “A criança nasce com TEA por causa de uma mutação nos genes”, descreve a neuropediatra Christiane Cobas, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em termos de influências externas, “há alguns fatores de risco, como idade paterna avançada e uso de drogas na gravidez”, cita a médica.

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Em meados do século passado, chegou-se a cogitar a hipótese de que, entre outros motivos, a falta de afeto materno poderia gerar filhos autistas. “Felizmente, a teoria da ‘mãe geladeira’ caiu por terra”, relata o psiquiatra Alexandre Valverde.

Outras hipóteses, como contaminação da água ou uso de determinados remédios na gravidez, ainda carecem de evidências científicas.

A partir de que idade surgem os primeiros sintomas?

Por volta dos 2 anos. Entre outros sinais, a criança evita contato visual, não responde quando é chamada, faz movimentos repetitivos (balança o corpo para frente e para trás), se isola dos colegas, leva tudo ao pé da letra, tem reduzida capacidade de abstração, reage a barulhos ou a contato físico, apresenta interesse exagerado a assuntos específicos e segue uma rotina própria muito rígida.

“Muitas vezes, os primeiros indícios já se manifestam quando as crianças são ainda bebês. Mas, os pais, por serem de primeira viagem, não percebem. Um exemplo: há pouco contato visual na hora da mamada”, descreve a psicóloga Mayra Gaiato, fundadora do Instituto Singular, em São Paulo, e autora do livro Cérebro Singular: Como Estimular Crianças no Espectro Autista ou com Atrasos no Desenvolvimento (2023).

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Em geral, bebês autistas quase não sorriem, têm repulsa pelo toque, não gostam de ir no colo e raramente emitem sons.

Como se dá o diagnóstico?

Através de exame clínico. O que isso quer dizer? Primeiro, o médico ouve a história do paciente. É a chamada “anamnese” – palavra de origem grega que pode ser traduzida como “ação de trazer à memória”.

Depois, vem a avaliação física, quando o médico de fato examina o paciente. O psiquiatra e psicoterapeuta Alexandre Valverde chega a usar a palavra “investigação” para designar essa etapa da consulta. Exames de laboratório, como o de sangue, ou de imagem, como a tomografia, não detectam o transtorno ou confirmam o diagnóstico.

“O diagnóstico é feito por uma equipe multidisciplinar e envolve testagens neuropsicológicas e avaliação clínica”, detalha o neurologista Eduardo Jorge Custódio da Silva, do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A equipe multidisciplinar abrange profissionais de diferentes especialidades, como psicólogos, psiquiatras e neurologistas. E a testagem neuropsicológica avalia, entre outros aspectos, memória, concentração e linguagem. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor será o prognóstico.

O que caracteriza uma criança como autista?

Segundo a mais recente edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5), publicado em 2013, para uma pessoa ser diagnosticada dentro do espectro autista, ela precisa apresentar dois traços característicos:

  • Dificuldade persistente na comunicação social e na interação social em diferentes contextos, como casa, escola e sociedade.
  • Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades, que prejudicam seu convívio familiar, escolar ou social.

No primeiro caso, a criança com TEA não consegue trocar ideias, compreender gestos ou fazer amigos, entre outros obstáculos.

No segundo caso, apresenta rigidez de comportamento (só come determinados alimentos ou senta nos mesmos lugares), interesses restritos (a protagonista da série sul-coreana Uma Advogada Extraordinária, da Netflix, é vidrada em baleias) e hipersensibilidade sensorial (umas não gostam de pisar em areia ou manusear massa de modelar; outras não suportam fogos de artifício ou têm aversão a toque físico, como abraço).

Outra característica marcante é repetir tudo o que ouve – fenômeno que os especialistas chamam de “ecolalia”.

“A criança pode até ser tímida e retraída, mas, quando precisa, ela interage com os outros. A autista, não. Por mais que queira, não consegue se explicar ou pedir ajuda. Por essa razão, age de maneira disruptiva, batendo a cabeça na parede ou jogando objetos no chão”, diferencia a psicóloga Mayra Gaiato, do Instituto Singular.

Crianças com autismo podem ter uma maior sensibilidade a sons Foto: Anna Schlosser/Adobe Stock

Quantos graus de autismo existem?

O DSM-5 prevê três: 1, 2 e 3, segundo a intensidade dos sintomas. Termos como “leve”, “moderado” e “grave” ou “severo” não são mais usados. “O que diferencia um do outro é a necessidade de suporte”, explica Alexandre Fernandes, coordenador do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Associação Brasileira de Neurologia (ABN).

O nível 1 de cuidado é aquela pessoa que, embora pertença ao espectro, leva uma vida livre e independente. Seria o caso de Sheldon Cooper (interpretado pelo ator Jim Parsons), da série The Big Bang Theory.

Já o nível 3 é aquela pessoa que precisa de supervisão 24 horas por dia, sete dias por semana. Caso de Raymond Babbitt (vivido pelo ator Dustin Hoffman) no filme Rain Man.

“As pessoas do nível 3 falam pouco ou quase nada, ficam estressadas com facilidade e têm dificuldade para mudar o foco”, descreve o neurologista Erasmo Casella, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Um detalhe: o nível é determinado no momento da avaliação. Ao longo da vida, dependendo de eventuais desconfortos emocionais, pessoas do nível 2 podem migrar para o nível 3 ou, ainda, para o nível 1.

Quantas pessoas com TEA existem hoje no Brasil?

Não há estatísticas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) fala em uma criança com TEA em cada 100. Já o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), que realiza estudos a cada dois anos em onze estados americanos, calcula uma em cada 36 na casa dos 8 anos.

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A proporção é de quatro meninos para uma menina. Estima-se que, em números absolutos, o total de pessoas com TEA no Brasil seja de dois milhões. Muitos deles, porém, nem diagnóstico têm.

Crianças com TEA devem ser matriculadas em escolas especiais?

Depende. O ideal é que crianças dos níveis 1 e 2 sejam matriculadas em salas comuns de escolas regulares. Crianças autistas têm condições de aprender como qualquer outra. Só precisam de acesso diferenciado.

A psicóloga Mayra Gaiato compara o caso da criança autista com o da cadeirante. “Ela tem condições de subir num lugar alto. Mas, para chegar lá, precisa de rampa. A autista também. No caso dela, é preciso construir ‘rampas’ de comunicação entre a criança e a escola”, explica a fundadora do Instituto Singular.

É aí que entra a figura do mediador, ou acompanhante terapêutico, que vai servir de “rampa” entre a criança e a comunidade escolar.

Já crianças do nível 3, que não conseguem levar uma vida autônoma e independente, mesmo com muito suporte, precisam de uma classe ou de uma escola especial.

TEA tem cura?

TEA não é doença. Portanto, não tem cura, remédio ou tratamento. O que se trata, na maioria das vezes, são as comorbidades. Cerca de 70% das pessoas com TEA apresentam outros distúrbios associados ao TEA. Em 48% delas, podem ter mais de uma comorbidade. Transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) são alguns deles. Em alguns casos, tais comorbidades podem demandar terapias específicas. Em outros, dificultar o diagnóstico.

Para reabilitar a criança com TEA, ou seja, desenvolver suas habilidades sociais e de comunicação, os médicos indicam uma terapia chamada Análise Aplicada do Comportamento. É mais conhecida pela sigla ABA – do inglês Applied Behavior Analysis.

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“São recomendadas de 20 a 40 horas semanais de terapia. Quanto maior o nível de suporte da criança, maior o número de horas recomendadas”, observa a neuropediatra Christiane Cobas, do Sírio-Libanês.

O TEA pode ser diagnosticado em adultos?

Poder, pode. Mas requer cuidado. A primeira vez em que o autismo foi mencionado no DSM foi em 1980. De lá para cá, os critérios de diagnóstico mudaram muito. Pessoas que não eram consideradas autistas até pouco tempo atrás, por não preencherem os requisitos necessários, passaram a fazer parte do espectro. “Ninguém se torna autista. Em geral, sempre foi”, observa o neurologista Alexandre Fernandes, da ABN.

E por que o diagnóstico requer cuidado? O professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Assumpção, faz um alerta: o TEA está na moda. “Algumas pessoas acham que, por preencherem os critérios do Google, conseguem fazer autodiagnóstico. Um diagnóstico em psiquiatria não é o somatório de sintomas e sinais”, adverte.

Além disso, existe uma coisa chamada “prejuízo adaptativo”. Os que realmente fazem parte do espectro, prossegue, é porque seus sintomas são sutis e, no decorrer da vida, aprenderam a camuflá-los. O nome dado a essa estratégia de camuflagem é “masking” (ou “mascaramento”, em livre tradução).

Alguns indícios de TEA na fase adulta: dificuldade de entender figuras de linguagem, presença de gestos repetitivos ou expressões verbais atípicas e apego a rotinas ou a padrões ritualizados de comportamento.

Há mitos ligados ao TEA?

Sim, e são muitos. Alguns estão relacionados às causas do transtorno. O principal deles? Vacina causa autismo. “É o pior de todos. Felizmente, já foi superado há tempos”, acredita o neurologista Erasmo Casella, do Einstein.

Há outros: infecções por fungos, fertilização in vitro e hipertensão arterial também estariam entre as prováveis causas de TEA.

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Mas há mitos relacionados também a tratamentos. Vão desde dietas até uso de canabidiol, passando pelas câmaras hiperbáricas. “É tudo fake news!”, garante Francisco Assumpção, da USP. “Não há dados, pelo menos até o presente, que comprove qualquer uma dessas teses”.

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