Varíola dos macacos: Jovem morre após espera de 50 dias por remédio; ‘Ele tinha esperança’, diz irmã

Tecovirimat é o único medicamento disponível para a doença no País, mas falta do envio de novas remessas pelo Ministério da Saúde preocupa médicos

PUBLICIDADE

Foto do author João Ker
Por João Ker
Atualização:

Benício Toureiro, de 23 anos, foi internado em 29 de setembro no Hospital Nereu Ramos, em Florianópolis, por causa da dor que sentia com as feridas da varíola dos macacos (monkeypox ou mpox). Dois meses depois, o rapaz – que trabalhava em uma padaria enquanto estudava para realizar o sonho de ser músico – se tornou a 13.ª vítima da doença no Brasil. O País é o segundo com maior número de óbitos e casos no mundo e cuja resposta ao surto é vista como ineficiente por especialistas.

PUBLICIDADE

Dos 60 dias que Benício passou internado, 50 foram à espera do tecovirimat, único remédio que tem se mostrado eficaz contra o vírus no mundo. O produto também é o único aprovado, em caráter emergencial, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Brasil recebeu o 1º lote do medicamento em agosto, mas não tem conseguido garantir uma frequência no envio de novos estoques para atender à demanda.

Em Cuiabá, um paciente de 27 anos foi internado no Hospital Universitário Júlio Muller em 21 de setembro. Seu quadro evoluiu com insuficiência renal, falta de ar, taquicardia, dentre outros sintomas. Em 4 de outubro, a equipe médica solicitou o tecovirimat ao Ministério da Saúde.

O remédio, porém, não chegou e o rapaz morreu em 8 de novembro, segundo a Secretaria da Saúde de Mato Grosso. “O paciente não fez uso da medicação em razão de ela não estar disponível no Ministério da Saúde. A solicitação ficou na lista de prioridade do governo federal”, informou a pasta.

Dentre as três vítimas da mpox registradas em Minas, apenas duas tiveram acesso ao tecovirimat, apesar de todas apresentarem sintomas elegíveis para o tratamento, segundo o protocolo desenvolvido pelo próprio ministério. No Rio, o medicamento foi disponibilizado para dois dos cinco pacientes que morreram por complicações da doença.

Em São Paulo, que concentra a maior parte dos casos no Brasil, com mais de 4,2 mil infecções confirmadas, apenas um dos três pacientes que morreram se tratou com o tecovirimat. A Secretaria de Estado de Saúde não informou, entretanto, se o remédio foi solicitado para as outras duas.

O remédio é essencial para frear o avanço da varíola dos macacos nos humanos, principalmente nos que têm algum tipo de imunodepressão, como HIV, transplante ou quimioterapia recente. Em agosto, o ministério informou ter conseguido os primeiros lotes do remédio após doação da fabricante, a SIGA, e disse estar em negociação com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) no continente, para receber novas remessas.

Publicidade

Benício ao lado da irmã, Brunna Toureiro: "Ele aguentou até o último momento porque tinha esperança que ia melhorar", diz ela. Foto: Arquivo pessoal

“Tentamos com os órgãos públicos, com o prefeito, com pessoas do Ministério Público, com quem a gente podia”, conta Brunna Toureiro, de 31 anos, irmã mais velha de Benício. “Mas todos falaram que infelizmente era assim, teria de esperar.”

Ela e o pai, o motorista de frete Amabilio Ferreira, de 57 anos, entraram em contato com conhecidos nos Estados Unidos, onde o remédio está disponível desde agosto. “Ele era o primeiro da fila. Não tivemos acesso mesmo.”

Critérios

Em agosto, na época da entrega do 1º lote, o governo federal disse que os critérios de distribuição tecovirimat ficariam a cargo do Centro de Operação de Emergências para monkeypox do ministério. Mas esses parâmetros ainda não são claros nem para as equipes médicas que pedem o tratamento. No Espírito Santo, um paciente aguarda o tratamento desde 17 de outubro e, segundo a Secretaria da Saúde local, “ainda não há previsão para o envio”.

Já o Rio Grande do Norte teve acesso ao remédio para dois pacientes. Um deles foi solicitado em 15 de outubro e esperou 35 dias. No segundo caso, foi pedido em 3 de dezembro e chegou só três dias depois.

O tecovirimat de Benício chegou em 19 de novembro, após o Hospital Nereu Ramos ter negociado diretamente com o laboratório produtor. “Se a gente tivesse esperado o Ministério da Saúde, talvez não teríamos conseguido nem esse tratamento”, disse ao Estadão Eduardo Macário, superintendente da Vigilância em Saúde de Santa Catarina.

Se a gente tivesse esperado o Ministério da Saúde, talvez não teríamos conseguido tratamento

Eduardo Macário, superintendente da Vigilância em Saúde de Santa Catarina

O pedido foi feito ao governo federal em 7 de outubro. Após ficar sem resposta ou previsão de entrega, o hospital conseguiu contatar a fabricante do remédio, que doou cinco tratamentos para uso compassivo. Como o ministério teve de intervir no processo de importação e Santa Catarina tinha apenas Benício na fila, segundo Macário, os outros quatro foram redistribuídos aos outros Estados.

“Foi difícil, porque o ministério não tem estoque estratégico. Os tratamentos que chegaram foram totalmente consumidos”, aponta Macário. “O que preocupa a gente e todos os Estados é a ausência desse estoque estratégico. Se ele existisse, talvez não tivesse demorado 30 dias para o remédio chegar.”

Publicidade

Segundo Macário, a recomendação de uso do tecovirimat é “o quanto antes” a partir do momento em que o quadro se agrava. A maioria dos estudos e pesquisas recentes aponta que os sinais de melhora começam a se intensificar após o 14º dia de tratamento. No 10º, Benício não resistiu a uma infecção generalizada e morreu.

Ao longo dos 50 dias em que Benício esperava a chegada do tecovirimat, a varíola dos macacos se espalhou de modo desenfreado pelo corpo. As lesões, que começaram com uma espinha na coxa, cresceram e se multiplicaram em mais de 250 espalhadas pelo períneo, virilha, rosto, axilas, costas e braço do rapaz.

Ele precisou ter as mãos amarradas na cama para não coçar as feridas. Eram tantas e ardiam de tal modo que uma começou a se juntar à outra e a cicatrização foi dificultada, ainda mais quando foi descoberta uma imunossupressão até então desconhecida.

Sem o tecovirimat, a equipe médica que cuidava de Benício não tinha muitas opções, exceto o alívio da dor. “Em alguns casos, parece que o uso da vacina após a exposição ao vírus também pode funcionar como bloqueio para o desenvolvimento da doença. E esses seriam os únicos dois tratamentos específicos disponíveis no momento. Todos os outros são para suporte e controle dos sintomas”, diz a infectologista Carolini Valle.

Em agosto, o Estadão mostrou que a falta de acesso ao tecovirimat fez com que o uso de morfina para controlar a dor das feridas de monkeypox se tornasse o único tratamento possível para a maioria dos casos graves. No caso de Benício, ela era aplicada diretamente na veia, em doses administradas de quatro em quatro horas.

“Um dia, eu disse que tudo bem se ele não aguentasse mais a dor e quisesse desistir. Perguntei se ele queria, mas ele apertou minha mão e fez que não, porque ia esperar o remédio. Ele aguentou até o último momento porque tinha esperança de que iria melhorar”, lamenta Brunna.

Em nota, o ministério informou ter recebido 28 tratamentos contra a mpox, por meio de doação da OMS e do laboratório fabricante. O último lote, com 16 tratamentos, foi recebido em novembro e utilizados em dez pacientes elegíveis.

Publicidade

Os critérios para uso compassivo do medicamento são: resultado laboratorial positivo com lesão visível ou paciente internado com a forma grave. Para este segundo grupo, leva-se em conta a presença de encefalite, pneumonite, lesões cutâneas com mais de 250 erupções pelo corpo, entre outros sinais.

“O Ministério da Saúde segue em contato com a OPAS/OMS para aquisição de mais tratamentos, além de contato com outros países para verificar a possibilidade de doações”, acrescentou.

Discriminação

Antes de ser internado, Benício contou ter encarado um misto de discriminação e desinformação comum a pacientes desde que a mpox se espalhou pelo Brasil, atingindo principalmente a população de homens que se relacionam com homens (HSH) e LGBT+. Ao sentir os primeiros sintomas, ele buscou atendimento no Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú (SC), e disse que foi dispensado com diagnóstico de sífilis.

“Até eu descobrir que estava com varíola dos macacos, sofri duas violências médicas”, disse Benício em vídeo publicado nas suas redes sociais antes da internação. “Chegou um dia em que tive feridas mais fortes na pele, fui ao Ruth Cardoso direto do trabalho e, chegando lá, o médico não me pediu nenhum exame e falou pra mim que era sífilis”,

O jovem não quis o tratamento para sífilis e voltou para casa. Nas redes, se sentiu “humilhado e discriminado”. A doença evoluiu, as feridas pioraram e ele procurou novamente o hospital. Desta vez, ele conta, foi encaminhado a um Centro de Testagem e Aconselhamento. Lá recebeu o diagnóstico de mpox e a orientação de se manter isolado para não transmitir a doença.

“Estou no SUS da minha cidade, que graças a Deus funciona excelentemente bem. Sei que muita gente não tem esse privilégio em outras regiões do País, mas eu pedi outro médico porque ia ser atendido pelo mesmo do plantão passado”, disse ele.

Antes de completar os 15 dias de isolamento, as feridas cresceram em tamanho e quantidade. “Ele não suportava mais a dor. Até que tentamos pedir uma ambulância e não conseguimos. Meu pai foi ao hospital, mas disseram que não tinha”, lembra a irmã.

Publicidade

Com medo de transmitir a doença pelo contato de alguma ferida com a caminhonete do pai ou no banco de algum taxista, Benício caminhou sozinho e com dor durante cerca de um quilômetro até chegar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima. Lá, foi admitido e conseguiu um leito improvisado enquanto aguardava a transferência para o Hospital Nereu Ramos, em Florianópolis.

Em nota, a Secretaria de Saúde de Balneário Camboriú disse que Benício “já havia coletado exames para monkeypox” e era acompanhado na Rede de Saúde quando foi ao Hospital Ruth Cardoso. Afirma ainda que, apesar de ter comorbidade, ele “estava em bom estado geral nas ocasiões” em que procurou a instituição, nos dias 7 e 14 de setembro.

“Nos atendimentos do hospital foram realizados exames de rotina e prescritos medicamentos sintomáticos. Como não apresentava gravidade nas vezes em que esteve no Hospital, o paciente foi orientado a retornar para a UPA para acompanhamento e investigação de outra comorbidade”, acrescentou a pasta.

A escassez mundial de vacinas e remédios contra a varíola dos macacos foi antecipada desde que o vírus saiu da África, onde era endêmico em países como Nigéria e Congo, e chegou à Europa. Foto: Dado Ruvic/Reuters

Brasil de fora

A escassez mundial de vacinas e remédios contra a varíola dos macacos foi antecipada desde que o vírus saiu da África, onde era endêmico em países como Nigéria e Congo, e chegou à Europa. O desafio foi previsto por especialistas e pela OMS, que reconheceu a falta de tratamentos e vacina específica. A entidade declarou o surto atual como “emergência de saúde global” em julho.

Não demorou muito para a ciência descobrir que o tecovirimat e a vacina Jynneos/MVA-BN, desenvolvidos inicialmente contra a varíola humana, tinham bons resultados no combate à mpox. Mas isso não resolveu o problema, uma vez que a produção de ambos é feita por duas fabricantes sem capacidade de suprir a demanda mundial pelo remédio ou pelo imunizante.

Tanto o tecovirimat quando a vacina Jynneos, produzida pela Bavarian Nordic, foram aprovados para uso humano contra a varíola dos macacos de forma emergencial e em caráter de estudo. Mas com a liberação de agências regulatórias dos Estados Unidos e da Europa, governos se adiantaram na compra direta do medicamento com a farmacêutica SIGA e hoje contam com tratamentos em estoque para pacientes graves. Não foi o caso do Brasil.

Em agosto, o epicentro da doença já tinha se movido da Europa para as Américas. “Em particular na América Latina, a conscientização insuficiente de medidas para saúde pública foram combinadas com falta de acesso às vacinas para atiçar as chamas do surto”, disse Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS.

Publicidade

Já no mês seguinte, a SIGA publicou comunicado relatando demanda pelo remédio que totalizava US$ 76 milhões (aproximadamente R$ 397 milhões). As compras vieram de 12 países, entre eles Estados Unidos e alguns da Ásia e da Europa. A previsão da empresa era entregar ao menos o equivalente a US$ 66 milhões (R$ 345 milhões) das aquisições ainda este ano.

O Brasil, entretanto, ficou de fora da corrida pelo tecovirimat e pelas vacinas, dependendo mais uma vez das poucas aquisições pelo fundo rotatório da Opas ou doações pela fabricante.

O acesso às vacinas também é insuficiente para implementar sequer a estratégia de imunização das populações-chave (homens que fazem sexo com outros homens, gestantes e imunodeprimidos, por exemplo) recomendada pela OMS e usada em países como Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

Até agora, o governo federal confirmou apenas a compra de 50 mil doses, das quais recebemos 9,8 mil no início de outubro, quando o ministério disse que “seguia em tratativas para aquisição” de mais estoque. Questionada pelo Estadão, a pasta não informou se comprou novas remessas.

A orientação do ministério é de distribuir a vacina, que requer duas aplicações por pessoa para a imunização completa, às pessoas que tiveram contato prolongado com casos confirmados, que usam profilaxia pré-exposição (PrEP) ou fazem tratamento com antirretroviral para HIV.

Em setembro, o ministro Marcelo Queiroga sugeriu ainda que o frasco com uma dose poderia ser fracionado em cinco, mas estudos sobre isso ainda não concluíram se a efetividade, segurança e eficácia são as mesmas. Ainda que fossem, o total recebido pelo Brasil continuaria insuficiente.

Em nota enviada à reportagem, a Médicos Sem Fronteiras alerta que o aumento de casos da varíola dos macacos no Brasil é motivo de preocupação. “O cenário preocupante que vemos no momento é de produção da vacina mais eficiente atualmente por uma única empresa, capacidade produtiva limitada e concentração da grande maioria das doses disponíveis em poucos países ricos”, diz a organização.

Publicidade

“Estamos repetindo muitos dos problemas que aconteceram na pandemia da covid-19″, aponta Lorena Barberia, professora de ciência política da USP e coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária em Políticas Públicas e Sociedade.

“Nesse novo surto, em que a transmissão da mpox saiu da África, vemos que outros países foram muito mais rápidos em implantar programas de testagem, vacinação e procurar evitar que os casos graves evoluíssem para óbito”, afirma.

No intervalo entre as duas remessas de tecovirimat que se tem notícia sobre a chegada no País, o Brasil registrou quase 6 mil novos casos de varíola dos macacos, conforme o boletim mais recente divulgado pelo ministério, referente a 14 de dezembro. Desses, ao menos 240 precisaram de internação, entre eles uma gestante. Das 14 mortes confirmadas até agora, 13 foram nesse período.

Futuro nebuloso

Para o sanitarista Daniel Soranz, que integra a equipe de transição do governo Lula (PT0 para a Saúde e preocupa a “inércia” do governo atual e a ausência de “planejamento orçamentário para ampliar o PNI (Programa Nacional de Imunizações)”.

O Ministério da Saúde deveria agir agora porque é uma questão urgente. Se isso não acontecer, casos como o do Benício vão, infelizmente, se repetir

Lorena Barberia, professora de ciência política da USP

“Como o país que foi pioneiro no combate ao HIV dá uma mancada tão grande nessa epidemia, que está amordaçada, esquecida e negligenciada?”, questiona o infectologista Fábio Araújo, que desde maio tem atendido pacientes da mpox no Instituto Emílio Ribas. “Não são muitos casos graves, por isso há um descaso absoluto. Mas mesmo que sejam dois, três ou quatro, esse cuidado é uma obrigação do Estado”, desabafa.

Outra lacuna apontada é a falta de campanhas informativas claras, objetivas e amplamente divulgadas sobre o vírus e sua disseminação. “Não temos informação, vacinas ou tratamentos. Ainda precisamos de muitas evidências para mostrar como o governo federal precisa mudar estratégias e políticas, mas também fortalecer a comunicação e trabalho nas comunidades vulneráveis”, avalia Lorena.

“O Ministério da Saúde deveria agir agora porque é uma questão urgente. Na verdade, deveríamos ter agido há meses”, aponta. “Se isso não acontecer, casos como o do Benício vão, infelizmente, se repetir.”

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.