COP: Nova geração de líderes ambientais do País busca incluir populações vulneráveis nas discussões

Neta de Chico Mendes, indígena e mulher negra da periferia se destacam na conferência e pedem maior participação de comunidades tradicionais e jovens nas decisões sobre o futuro do planeta; veja vídeo

PUBLICIDADE

Foto do author Paula Ferreira
Por Paula Ferreira
Atualização:

ENVIADA ESPECIAL A DUBAI*- Angélica Mendes cursava o doutorado, em 2018, quando visitou a terra natal, no Acre, e ouviu de seringueiros que estava no rumo certo pois precisavam dela “com bastante estudo”. As palavras foram ditas por companheiros de ativismo de seu avô, Chico Mendes, que, na ocasião, participavam das homenagens que marcavam 30 anos do assassinato do líder ambiental.

PUBLICIDADE

Naquele momento, Angélica “virou a chave” e considerou que precisava levar a voz das comunidades extrativistas para os fóruns de decisão. Cinco anos depois, aos 34 anos, a bióloga participa de sua primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-28), em Dubai. Hoje, Angélica atua na mobilização de extrativistas e tenta pautar discussões de interesse desses trabalhadores em locais de decisão.

“As coisas foram acontecendo de uma forma que eu estou exatamente onde deveria estar. E eu aceito essa missão. Acho que o que meu avô fez foi importante e precisamos que nós, da família, principalmente, continuemos isso”, contou ela ao Estadão no pavilhão do Brasil da COP-28.

A Conferência da ONU tem sido palco de novas lideranças ambientais brasileiras: negras, indígenas, amazônidas e periféricas. Com o meio ambiente de volta à agenda prioritária do Brasil, a delegação do país na COP-28 foi a maior entre as nações visitantes no encontro em Dubai, com cerca, de 3,2 mil pessoas.

“A gente vem para aprender, para ocupar espaços que deveriam ser nossos, articular com companheiros, articular com potenciais doadores e acho que fazer um caminho para as próximas COPs, porque essa foi a primeira e a gente pretende conseguir agora, de fato, começar a influenciar decisões que envolvam povos indígenas e comunidades tradicionais”, diz Angélica Mendes.

Neta de Chico Mendes, Angélica Mendes é bióloga e ativista Foto: Paula Ferreira/Estadão

Parte do Comitê Chico Mendes, uma organização criada após a morte do seringueiro para defender a conservação da floresta, Angélica defende que o governo tenha posturas progressistas também em relação aos combustíveis fósseis, que têm se colocado nesta conferência do clima como o grande “elefante na sala”.

“Como meu avô dizia lá atrás, a gente precisa ter gente dentro da floresta para cuidar da floresta”, diz. “Algumas coisas ainda nos preocupam, porque não tem como dissociar a floresta desses modelos econômicos que são colocados nacionalmente como a exploração de petróleo. A gente tem um caminho para tentar virar essa chave dentro do governo, porque não adianta fazer um discurso que chame a atenção só para Amazônia.”

Publicidade

Aos 24 anos, a ativista Marcele Oliveira, do Rio de Janeiro, atraiu todos os holofotes da plenária da sociedade civil com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a COP-28. Na ocasião, em meio à pressão pelo anúncio da possível adesão do Brasil à Opep+, grupo criado pela Organização dos Países Produtores de Petróleo, afirmou que os investimentos em combustíveis fósseis são “o caminho do desastre” e cobrou uma discussão séria sobre o tema, sendo fortemente aplaudida.

Na plenária da sociedade civil, Marcele Oliveira cobrou maior participação de jovens nas discussões Foto: Ricardo Stuckert

“Cria de Realengo”, na zona oeste do Rio de Janeiro, Marcele iniciou sua trajetória no ativismo climático na ocupação Parquinho Verde, que pedia que a área de uma antiga fábrica fosse convertida em um parque para a população local. Parte do projeto que forma negociadores jovens, Marcele pediu ao presidente que sejam criados espaços para que a juventude possa participar e pautar as mudanças necessárias para seu próprio futuro.

“O Brasil é e precisa ser uma liderança rumo à transição energética, ao enfrentamento do racismo ambiental e à garantia de justiça climática. Para isso acontecer de verdade, tem que ter juventude inserida em todos os processos relacionados a negociações e construções dos eventos”, argumentou em entrevista ao Estadão.

Nesse sentido, ela critica a pequena quantidade de painéis liderados pela juventude durante a COP-28 e defende que, na conferência que ocorrerá no Brasil, a situação seja diferente.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

“O mundo está ouvindo falar da questão climática com muito mais propriedade do que há 20, 30 anos atrás. O caminho é muito longo quando a gente fala de reparação e justiça. O que precisa ser feito é o que a gente vem fazendo enquanto juventude. Colocar as cartas na mesa”, pontua.

No palco principal da abertura da COP-28, no dia 1º de dezembro, apenas uma mulher discursou: a indígena Isabel Gakran, de 35 anos, da terra indígena Laklãnõ Xokleng, no Sul do Brasil. Isabel faz parte do Instituto Zág, uma rede que reúne jovens indígenas que atuam no reflorestamento, que foi premiado pela ONU por seu trabalho ambiental contra a extinção das araucárias.

Em seu discurso, Gakran mencionou o avanço dos eventos climáticos extremos, como a seca e as enchentes. E chamou a atenção para a urgência do momento que a humanidade vive. “Somos a natureza tentando se defender. Este é um chamado para ação. Não podemos mais adiar”, disse, diante dos chefes de Estado de mais de 160 países.

Publicidade

Isabel Gakran, da terra indígena Laklãnõ Xokleng, com o presidente Lula e a primeira-dama Janja, durante a COP-28 Foto: Ricardo Stuckert

Ao Estadão, Gakran contou que foi convidada a discursar na COP-28 após pessoas da equipe de organização conhecerem o Instituto Zág no prêmio oferecido pela ONU. A organização recebeu apoio financeiro do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheik Mohamed bin Zayed. Apesar do auxílio de uma das principais nações produtoras de petróleo do mundo, Gakran defende que é preciso conscientizar também esses países rumo à preservação do planeta.

“Se a gente ficar sem ar para respirar, nem os petroleiros e nem os indígenas terão como viver neste planeta. Estamos nessa missão também de tentar fazê-los enxergar que a solução é a floresta de pé, é manter a nossa floresta viva”, diz.

* A repórter viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.