Óleo afeta mercado de pescado e estudo da UFBA alerta sobre contaminação

Instituto de Biologia detectou metais pesados em animais marinhos; em humanos, as substâncias podem causar problemas de saúde. Com receio, população local deixa de comer peixe e pescadores amargam prejuízos

Publicidade

Por Priscila Mengue, Felipe Goldenberg e Milena Teixeira
6 min de leitura

JABOATÃO DOS GUARARAPES E SÃO PAULO - As manchas de óleo que atingem o Nordeste já chegaram ao mercado de pescado. Os poluentes dificultam a ação dos pescadores e pesquisas já orientam que se evite comer produtos das regiões afetadas. O Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou uma pesquisa com 50 animais marinhos e detectou resquícios do óleo em todos eles. Um estudo será feito para verificar se há metais pesados no material. No organismo humano, essas substâncias podem causar náuseas, vômito, enjoo, problemas respiratórios e arritmia cardíaca, entre outras consequências nocivas.

Francisco Kelmo, da UFBA, explica que, assim que o óleo chega à costa, o material se deposita em rochas, areias e manguezais, que são onde mariscos, caranguejos, ostras e siris se alimentam. Quando esses animais filtram a água do mar, o petróleo entra no sistema respiratório. Em alguns casos, morrem por asfixia; em outros, o óleo se deposita no próprio tecido deles.

Em Jaboatão dos Guararapes, pescador Amauri Januário dos Santos reclama da diminuição do número de peixes Foto: Tiago Queiroz/Estadão

"Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós, o que é algo extremamente perigoso", diz o professor. Como metais pesados não são excretados pelo ser humano, esses resíduos ficariam dentro do corpo pelo restante da vida. 

Para ele, o cenário de contaminação dos animais e da costa pode levar pelo menos dez anos para ser revertido, "isso se todas as manchas forem retiradas", até as que ficam por baixo da superfície."Se houver qualquer mancha de óleo no manguezal, independentemente da quantidade, a contaminação vai continuar", afirma Kelmo. 

Já para Magno Botelho, biólogo e especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, haverá "contaminação a longo prazo". "Mas saber a quantidade de óleo vazado é fundamental para que possa ser feito um prognóstico mais apurado."

Filhotes de Peixes-galo e corvina sãoencontrados mortos na praia de Janga atingida pelo óleo. Limpeza de vazamento de óleo na Praia de Janga, na cidade de Paulista. Grande quantidade da substância tóxica começou a aparecer no início da tarde desta quarta-feira (23). Centenas de voluntários participaram do mutirão de limpeza, que não tem data para acabar. Foto: Tiago Queiroz/Estadão 

Continua após a publicidade

As manchas de óleo que atingem as praias do litoral do Nordeste têm afetado a produção e a venda de pescadores e marisqueiros da Bahia há duas semanas. Consumidores estão receosos em comprar frutos do mar e, por isso, trabalhadores estocam ou jogam fora peixes, mariscos e camarões. Alguns viram a renda média mensal, de R$ 1 mil, cair mais de 80%.

Na cidade do Conde, no interior da Bahia, por exemplo, cerca de 2 toneladas de peixes estão armazenadas em freezers. "A gente até tem peixe, mas ninguém quer comprar nosso pescado", diz o presidente de um grupo de pescadores, Givaldo Batista Santos. Frutos do mar são uma das maiores fontes de renda da cidade; cerca de 2 mil pessoas vivem exclusivamente disso. "A situação está precária porque não tem como ter renda sem peixe."

De acordo com a Bahia Pesca, estatal do governo baiano responsável por fiscalizar e fomentar o trabalho de pescadores, 16 mil trabalhadores foram afetados. Até agora, 12 cidades foram atingidas pelos resíduos no Estado: Caíru, Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Conde, Entre Rios, Itacaré, Esplanada, Jandaíra, Vera Cruz, Itaparica e Mata de São João. Em todo o Nordeste, mais de mil toneladas de óleo já foram recolhidas. Na colônia de Itapuã, na capital, são 400 quilos guardados em freezers.

"Todo mundo está reclamando nas peixarias", afirma o presidente do grupo, Arisvaldo Filho. "A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo."

Na maior colônia de pesca do Estado, que fica no Rio Vermelho, em Salvador, todos os 5 mil trabalhadores se viram obrigados a jogar no lixo toda a produção de um dia de trabalho: 250 quilos de peixe. O pescador e presidente da colônia Marcos Antonio Chaves Souza diz que o movimento caiu porque o governo baiano os orientou a não comercializar os pescados. A Bahia Pesca não confirmou a informação ao Estado; a orientação seria para "não pescar nas áreas atingidas".

A presença do petróleo na água litoral da Bahia faz com que algumas pessoas fiquem com receio de comer derivados de frutos do mar. É o caso da estudante de Engenharia Estefane Caetano, de 25 anos. Mãe de um bebê de cinco meses, a jovem conta que está com medo de ingerir camarões e peixes porque, segundo ela, a substância pode gerar alguma reação na criança.

"Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar, especialmente porque tenho um bebê e tenho medo que alguma coisa passa para o meu leite. Ontem, meu marido trouxe um acarajé e eu fiquei com medo de comer", diz Estefane. 

Continua após a publicidade

O estudante de Direito Gabriel Martins, de 18 anos, também afirma que vai passar um tempo sem comer peixe. Ele narra que tomou a decisão depois que foi à praia de Vilas do Atlântico, na cidade de Lauro de Freitas. 

"A água foi muito afetada e eu tenho certeza que vai passar para os peixes. Como ainda não sei o que pode acontecer, vou ficar sem comer. Minha mãe também disse que peixe não entra tão cedo lá casa", diz. 

Já a família da engenheira ambiental Leila Santos, de 30 anos, comia peixe pelo menos três vezes por semana; agora, as refeições estão suspensas por enquanto, e os frutos do mar são substituídos por outros tipos de proteína. "Peixe, marisco, camarão… paramos de comer", diz.

Setembro foi o mês que as manchas de óleo começaram a aparecer no nordeste brasileiro, mesmo período do início da temporada de pesca da tainha. Em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, essa é a época em que "se trabalha para conseguir comer no inverno", como explicam pescadores. "Está diminuindo a quantidade de peixe. Aqui tem camurupim, carapeba, tainha, saúna", comenta o pescador Amauri Januário dos Santos, de 63 anos. "Se entrar no mangue então, não vai ser coisa de Deus."

A tainha é a principal fonte de renda de famílias como a de Valter Dionisio Santana Júnior, de 39 anos, irmão e filho de pescadores. Para eles, a chegada do óleo é quase uma questão de tempo, pois já percebem as consequências no dia a dia. A pesca da tainha costuma começar em setembro e segue por seis meses.

"Hoje é um sacrifício de horas para pegar peixe, o peixe não está conseguindo entrar na barra por causa do óleo", lamenta. "Ainda se pega uma quantidade, mas está diminuindo cada vez mais."

Valter costuma pegar de 20 a 30 quilos em um dia de pescaria, junto do irmão. "Ontem, graças a Deus, conseguimos uns quatro quilos de tainha, mas está diminuindo cada vez mais. Se entrar na barra, vai diminuir mesmo, as redes vão ficar cheias de óleo."

Continua após a publicidade

Como esta quarta-feira estava fraca para peixe, Valter dedicou o dia para costurar a rede. "Quando vi as primeiras notícias, já fiquei pensando se iria chegar aqui. A gente vive disso, aí fica preocupado."