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Análise - R$ 83 bi de iliquidez mental

Marcos Fernandes G. da Silva*

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

'It's too late - to be grateful It's too late - to be late again'' (David Bowie, Station to Station)

O governo propôs um pacote de R$ 83 bi que basicamente mostra que ainda seu diagnóstico é errado e suas sugestões de política econômica, equivocadas por corolário.

Keynes criou o conceito de armadilha da liquidez para designar uma situação na qual o nível de incerteza com o qual as famílias e firmas se deparam é tão elevado que o governo pode injetar liquidez, dinheiro na economia, que o efeito sobre consumo e investimento é zero.

Esta é a nossa situação. Para piorar, famílias e firmas no Brasil estão alavancadas, endividadas. Racional seria, por exemplo, famílias usarem o crédito consignado usando parte do FGTS como garantia - proposta do pacotão - para trocar dívida cara por uma mais barata, negociando com o credor um pagamento à vista com um bom desconto. Troca de dívida não redundaria em aumento do consumo. Graças a Deus.

Sim, graças a Deus, pois é imoral tentar induzir famílias ao consumo alavancado em crédito num momento com o atual. O brasileiro médio acostumou-se a comprar juro. Sim, comprar juro. Explico: pessoas com informação sobre o que é juro composto, a princípio, então, informadas e racionais, compravam, em 2011, carros em 'apenas 80 parcelas de 1.000,00', quando o carro custava menos que 35 mil reais.

A teoria econômica tradicional diria que a taxa de impaciência do consumidor é elevada e ele aceita pagar três e levar um. Parece-me pouco razoável. Até, pois, as revendedoras de autos ganham é no financiamento, assim como os vendedores e os bancos das montadoras. Isto se repete no varejo, onde as financeiras dos grandes grupos é que garantem a margem do negócio. Tente negociar pagamento à vista na concessionária: impossível. E em muitas lojas chiques fazem-se vendas de roupas em apenas 6 vezes sem juro. O juro, claro, está embutido nas parcelas. Mas, em muitas dessas lojas, tente negociar: elas não aceitam o desconto à vista.

Apenas para relaxar um pouco, antes de voltarmos para Dilma, vê-se que a falta de conhecimento econômico do governo tem seus sócios no Judiciário e em instituições que teoricamente rezam pela defesa do direito do consumidor, como a ProTeste. Com o intuito de ajudar o consumidor, mas com uma proposta que somente o prejudica, o STJ proibiu descontos quando o consumidor oferece parar em dinheiro ou no débito, sem o cartão de crédito.

Tal equívoco econômico foi apoiado pela colunista da Folha de S. Paulo e advogada da área Maria Inês Dolci. Claro que não foi por maldade, mas por boa intenção. Bem, para um economista, não, para pessoas razoáveis, trata-se de advocacia do diabo sem querer, pois proibir o desconto é desconhecer que o cartão de crédito é um produto, não meio de pagamento, é inibir concorrência. É diferente do cartão de débito e do dinheiro vivo.

Bem, se pessoas estudadas comentem erros de economia, fácil é entender, voltando ao ponto central, por que pessoas com baixa escolaridade e renda compram um e levam três de qualquer coisa. Provavelmente há um problema de assimetria de informação e computacional: elas não sabem o que é juro, nem composto, e não leem aquelas letrinhas minúsculas do contrato ou da propaganda.

Aqui pega a imoralidade da proposta do governo. Sou um economista da rua também, muito popular nos bairros que frequento, em particular no meu. Converso com todo mundo, explico o que fazer e o que não fazer. Minha percepção - e percepção não é evidência empírica nem científica, é palpite baseado no senso comum do dia a dia - é que as pessoas com menos educação financeira estão mais prudentes. Mas, mesmo assim, João (nome fictício) do boteco da esquina pensou em usar esse crédito do pacotão para dar de entrada num carro usado, que seria comprado no mercado informal do bairro onde mora. Falei para ele, que já tem um carro caindo aos pedaços e cuja manutenção nem dá conta, para, claro, não fazer isso.

O governo, na sua iliquidez mental, inflexibilidade cognitiva na verdade da presidente, insiste num remédio ineficaz e com efeitos colaterais, se usado, perigosos.

Há quem diga que a reunião do conselhão (tudo ão, grandão) teve o intuito de gerar legitimidade para o pedido, quase uma súplica de joelhos, para a aprovação da CPMF e para a Reforma da Previdência. Se for esse o real intuito, foi um erro. Deputados não estão nem aí com notáveis; são atores políticos racionais e pensam nas eleições municipais e nas suas bases que são os munícipes.

Como afirmo com frequência: a presidente, quando tem ideias, tem ideias ruins; quando tem as boas, percebe tarde demais que é tarde demais.

No estudo das relações internacionais é usual se afirmar que o realismo é preferível ao idealismo. Os estados nacionais estão numa arena, cenário internacional, onde a guerra é a regra em potencial. Daí prudente saber os interesses de cada ator e negociar, em função dos mesmos, e não de ideais que mormente mascaram interesses. Todavia, há momentos na história em que política internacional foi feita com idealismo, isto é, os atores envolvidos não somente defendiam seus interesses, mas abraçavam um ideal, acreditavam num ideal romântico. Essa turma era a de Adolf, Himmler e Goebbels: uma guerra devastou a Europa por um 'ideal'.

A presidente destruiu nossa economia, não por mal, mas por um ideal, errado, anacrônico e ufanista. Ela arruinou, por ideal, o setor elétrico, a Petrobrás (refiro-me ao desenho do pré-sal, ao conteúdo nacional, etc.), o Proálcool. Por desespero, piorou a situação da petroleira nacional com populismo tarifário (preço da gasolina), endividou o Estado (quer dizer, seus filhos e netos) - aí sim, por populismo eleitoral, misturado a um keynesianismo infantil, mágico (ideal).

Tentar reverter esse quadro agora, sendo que ela é mal avaliada pela esquerda também, parece-me pouco provável.

Agora, parece, é tarde demais, mais uma vez.

* Marcos Fernandes G da Silva, 52, é pesquisador associado de políticas públicas (CEPESP/FGV), professor de microeconomia e governo (FGV/EAESP e DireitoGV) e economista da Fundação Getulio Vargas. E-mail: mfgdasilva@uol.com.br

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