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Bem-vindos a Dallas

Escritor revisita a cidade fervorosamente anti-Kennedy na década de 1960, onde o ódio cresceu nos dias de JFK, culminando em sua morte

Juliana Sayuri, O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2013 | 16h10

Dallas, Texas. Ali John F. Kennedy foi assassinado a tiros. Se Kennedy entrou para a história imortalizado em diferentes papéis - o conquistador, o herói americano, o jovial presidente, o símbolo de uma época, Dallas também entrou. Foi-lhe cravada a identidade de "cidade do ódio". Sobre essa arena se debruçaram os americanos Steven L. Davis e Bill Minutaglio, autores de Dallas 1963 (Editora Twelve).

Anotações, cartas e jornais antigos formaram o arquivo desses escritores, que retratam o que era a cidade à época. Quem nos conta essa história é Steven L. Davis, 50 anos, que cresceu e viveu por décadas em Dallas. "O ódio estava realmente presente na cidade. Esse sentimento que nós vimos começar, dominar e explodir em Dallas agora se espalhou nacionalmente. Está em todos os lugares dos EUA", diz Davis, nesta entrevista exclusiva ao Aliás.

O que era Dallas em 1963?

John F. Kennedy foi alertado, por conselheiros e amigos próximos, a não ir a Dallas. No dia 24 de outubro de 1963, Adlai Stevenson, embaixador americano nas Nações Unidas, foi agredido ali - e também alertou o presidente. Na manhã em que desembarcavam na cidade, Kennedy disse a Jackie: "Estamos entrando numa terra insana". Por que Dallas era considerada uma cidade louca, uma cidade do ódio? À época, Dallas reunia americanos extremistas, que se sentiam ameaçados pelas posições do presidente sobre os direitos civis e a URSS. Ameaçados, pois defendiam a segregação racial e uma ofensiva nuclear contra a Rússia. E os lunáticos de Dallas não estavam à margem da sociedade, mas no centro. Líderes cívicos e poderosos eram os organizadores dessa resistência. Um dos principais opositores, o general Edwin Walker, conhecido por suas visões políticas ultraconservadoras, fez manifestações violentas e liderou o protesto contra Stevenson. Kennedy não podia deixar de ir a Dallas - isso mandaria uma mensagem errada para a sociedade, como se o presidente estivesse se rendendo ao general, e ele jamais faria isso. Dias antes de 22 de novembro, foram distribuídos milhares de pôsteres, como um cartaz de "procurado", com fotos de JFK, acusado de traição. Certamente havia outras cidades furiosas, outros focos de resistência, mas Dallas se tornou o quartel-general.

Por quê?

Dallas tinha influências religiosas, políticas e econômicas consideráveis por trás dessa resistência. H. L. Hunt, petroleiro texano e um dos mais ricos do mundo, estava destinando parte de sua fortuna a financiar investidas contra o presidente. Hunt tinha estações de rádio que transmitiam sua mensagem anti-Kennedy para o país. O nome da Praça Dealey, onde o presidente foi assassinado, vem de George B. Dealey, editor por muito tempo do Dallas Morning News, o mais influente jornal no sul do país. Ted Dealey, herdeiro do jornal, detestava JFK. Convidado com outros editores texanos a visitar a Casa Branca, em 1961, Ted confrontou o presidente. Disse: "Queremos um homem forte para liderar a América. Você só está brincando com o velocípede de Caroline". Quer dizer, o presidente estava diante de pressões internacionais - mísseis em Cuba, muro em Berlim, a URSS - e os opositores o viam como uma garotinha num triciclo. A cidade ainda tinha a maior igreja batista do país, com W. A. Criswell como líder espiritual. Num sermão, o reverendo criticou a religião de JFK, o primeiro católico a ocupar a Casa Branca, dizendo que o presidente não governaria, pois sempre se ajoelharia para o papa. Assim, Dallas se tornou um ímã para outros opositores de JFK, antes e durante sua presidência.

Como era antes?

Na campanha, Lyndon B. Johnson era a chave para conquistar votos no sul do país. Diante dessas investidas anti-Kennedy, os democratas estavam perdendo o Texas. No fim, as eleições de 1960 seriam decididas entre Texas e Illinois. JFK pediu a Lyndon Johnson que fosse a Dallas fazer campanha de última hora. Isso entrou para a história: apoiadores de Richard Nixon e parlamentares de Dallas receberam Johnson e Lady Bird com uma manifestação surreal, com cartazes dizendo que eles eram traidores e socialistas ianques. A cidade simples, com ruas simpáticas e minimercados se transformou, com moradores agressivos cuspindo nos Johnsons, atirando pedras e placas de trânsito neles. Era muita raiva, como se a loucura tivesse dominado as ruas de Dallas. As câmeras de TV gravaram essas cenas, que rodaram o país inteiro. Isso provocou uma reviravolta na campanha. Na época, o partido democrata reunia muita gente conservadora no sul. Eles eram contra os direitos civis, e por isso, não estavam apoiando JFK. Mas após essa manifestação horrível, principalmente contra Lady Bird Johnson, tão elegante, mudaram de ideia. Isso contribuiu muito para a vitória de Kennedy no Texas. E tornou a cidade famosa como polo anti-Kennedy, um antro de lunáticos agressivos. Essa atmosfera só piorou nos 1.036 dias de JFK na presidência, culminando em sua morte.

E após a morte de JFK, a cidade é outra?

Por muito tempo os americanos culparam a cidade inteira pelo assassinato. De fato, havia muito ódio ali. Após as primeiras notícias da morte de JFK, a polícia recebeu milhares de telefonemas. Eram mulheres desesperadas querendo confessar o crime para livrar seus maridos - que, pensavam elas, certamente teriam matado o presidente. A angústia de uma minoria, de gente poderosa, dominou Dallas. Depois, as pessoas passaram a negar qualquer relação entre o clima de ódio na cidade e a morte do presidente. Diziam que o assassinato poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar. Assim, Dallas teve sua identidade marcada por 1963. Lutou contra esse passado por muito tempo - e ainda luta. Muitos queriam simplesmente apagar essa lembrança, demolir o prédio em que Lee Oswald se escondeu para atirar. Com o tempo, a cidade continuou a crescer, tornou-se mais cosmopolita, diversa e próspera, elegeu um prefeito negro (Ron Kirk, em 1995). Esse fazer as pazes com o passado começou na década de 1980, quando finalmente decidiram salvar o prédio da Praça Dealey, transformado no Museu Sixth Floor, que conta a história de uma maneira muito digna. Aliás, a morte de JFK foi um episódio sequestrado por teorias de conspiração envolvendo a máfia, a CIA, os cubanos. Muitos perderam perspectiva sobre o que realmente aconteceu.

O que realmente aconteceu?

JFK foi assassinado por Lee Oswald. Mas ainda hoje há muitas teorias de conspiração. O interessante é: por quê? Bill Minutaglio e eu estivemos em Dallas, no fim de semana passado. Quando discutimos nosso livro no Texas, os texanos imediatamente entendem o que estamos dizendo. Entendem totalmente o que era a cidade do ódio que certamente influenciou o atirador. Em outros lugares, é difícil compreender o que era essa atmosfera insana, é mais atraente acreditar em outras teorias - afinal, JFK era um político inteligente e carismático, um jovem bonito e sedutor, por que um perdedor iria matá-lo no Texas? Aí é mais fácil inventar histórias. Algumas teorias são simplesmente absurdas, como a que diz que LBJ matou JFK. As pessoas talvez prefiram acreditar em contos de fadas e filmes de Hollywood.

No pós-Kennedy, os americanos encontraram outro presidente que se tornou um símbolo de esperança nos EUA?

Sim, Barack Obama. Apesar das decepções e dos erros, Obama acertou muitas vezes. Suas palavras nos atingem, realmente trazem esperança por um país melhor. Não por acaso há paralelos com Kennedy. Os inimigos de Obama usam as mesmíssimas palavras que usavam os inimigos de JFK. Seriam traidores, socialistas, antiamericanos. Se Kennedy foi criticado por ser católico, Obama teria uma religião estranha e estrangeira - dizem os opositores, erroneamente, que o presidente é muçulmano. Um campo de batalha está se formando no nosso país. Muitos americanos se sentem ameaçados pelas mudanças que Obama poderia trazer, assim como se sentiam ameaçados por JFK. Ao visitar Dallas, Obama foi recebido pelo Tea Party com muitos cartazes que lembram 1963, com um fator a mais: o racismo. Mas tudo ocorreu tranquilamente. Afinal, a segurança presidencial melhorou muito desde a década de 1960.

O que mudou?

Não sou especialista em segurança, não posso dizer exatamente o que mudou. Mas melhorou. É uma característica interessante sobre nós, americanos. Após um ataque, forte e trágico, tendemos a ficar superprotetores e supercautelosos. Em diferentes escalas, o choque do 22 de Novembro é semelhante ao do 11 de Setembro. Tentamos manter tudo sob controle e nos conformes, um mundo hiperorganizado, mas é impossível controlar tudo.

Queria propor um exercício de imaginação: e se JFK não tivesse morrido?

Muitos imaginam como o mundo seria. Stephen King escreveu 11/22/63, uma viagem no tempo que tenta impedir o assassinato. O livro dá uma ideia do que seriam os EUA se a história tivesse sido diferente. Na realidade, não seria uma história muito bonita, pois JFK poderia não ser reeleito e ficaríamos muito perto de uma guerra nuclear. Na política internacional, JFK é lembrado por impedir a guerra nuclear, mas, na política interna, foi um fracasso total. Não avançou em nenhuma de suas propostas. Se JFK não tivesse morrido, enfrentaria o que Obama enfrenta hoje: críticas e frustrações por promessas e esperanças não cumpridas. Realmente, a morte muda tudo.

Há uma cidade raivosa como Dallas atualmente nos EUA?

Não há uma cidade em particular. Na verdade, esse sentimento de ódio que nós vimos começar, dominar e explodir em Dallas agora se espalhou nacionalmente. Está em todos os lugares do país.

Pensei que o sr. seria mais otimista...

Desculpe, mas é difícil ser um americano otimista nos dias de hoje.

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