Foi por desenho e não acaso que o agro brasileiro adotou a inteligência artificial muitos anos antes da explosão de popularidade do ChatGPT, em novembro de 2022. O impacto das IAs na produtividade do campo cultivado do Brasil já se fazia sentir há mais de 20 anos, mesmo que não diretamente. Como mostra reportagem do jornal de 27 de março de 2019, as IAs vieram primeiro na forma de produtos, como sementes e fertilizantes, produzidos com a ajuda dessas novas tecnologias.
O Estadão usou a palavra “produtividade” pela primeira vez na edição de 11 de outubro de 1912 - ou seja, há 112 anos. Uma longa reportagem alertava para a necessidade de combater as pragas que assolavam os laranjais, minando a capacidade produtiva das árvores.

De janeiro a dezembro de 2001, a palavra produtividade precedida dos modificadores “alta”, “aumento” e “crescimento” bateu o recorde de uso nos 150 anos do jornal, aparecendo 1.571 vezes - mais de quatro por edição.
As reportagens e os editoriais louvavam o aumento da produtividade no campo ou lamentavam o crescimento insuficiente da eficiência nos demais setores.
Produtividade nas páginas do Estadão
Sem surpresa para ninguém, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre de 2025, mais uma vez, foi impulsionado pelo agronegócio. Os números impressionam - alta de 12,2% no setor em relação ao trimestre anterior e de 10,2% comparado ao mesmo período do ano passado.
Alexandre Calais, editor de Economia do Estadão, resumiu bem o momento: “Novamente, o crescimento foi puxado pelo agronegócio, como já é tradicional. Este ano, o País deve colher mais uma safra recorde”.
A revolução que o Brasil esqueceu de fazer
Desde os anos 40 do século passado, quando a ciência aplicada, a tecnologia, os novos processos e a inovação entraram para valer no radar econômico brasileiro, o Estadão se bateu pela modernização da economia.
O jornal passa a incentivar o investimento em competitividade que hoje explica o sucesso do agro, que bate recordes sem ampliar a fronteira agrícola e, na maior parte das vezes, preservando o meio ambiente.
Mas aqui está o problema: só o agro se mexeu com a intensidade necessária para competir com vantagem nos mercados globais.
Os últimos da fila
Enquanto a produtividade do campo brasileiro compete de igual para igual com qualquer produtor mundial, o resto da economia brasileira patina.
Os rankings internacionais de produtividade e competitividade colocam o Brasil no fim da fila - um vexame que o Estadão tem apontado nas reportagens e lamentado nas páginas de Opinião.

A conta é simples e dolorosa. Antes, a economia brasileira ficava atrás apenas da Europa e dos Estados Unidos. No pós-guerra, o Japão nos passou. Nos anos 1970, foi a vez da Coreia do Sul. Depois veio o dragão chinês. Agora, países que víamos pelo retrovisor estão nos ultrapassando.
Um estudo de 2024 da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra o Brasil na lanterna em competitividade. Perdemos para Argentina, Colômbia e até Peru. No ranking de produtividade de 2022, feito pela escola suíça IMD, só estamos melhor que Mongólia, Nova Zelândia e Venezuela. É trágico.
O que significa produtividade
Produtividade mede quanto uma economia produz com os recursos de que dispõe. Na conta básica pega-se o PIB real (toda a riqueza gerada em um ano, já descontada a inflação) e divide-se o resultado pelas horas totais trabalhadas no País.
Existe também uma medição mais complexa, que considera trabalho e capital investido juntos. O resultado mostra quanto esses fatores contribuem para o crescimento econômico das economias. Ambas as metodologias produzem resultados comparáveis, deixando claro quais países estão fazendo mais com menos.
O Brasil, com exceção do agro, sai-se muito mal seja qual for a metodologia utilizada.
O mito que atrapalha
Desde 1941, quando o Estadão usou pela primeira vez a expressão “aumento de produtividade”, o jornal tenta derrubar o mito perigoso e resistente de que para fazer mais é preciso explorar a mão de obra, obrigando os trabalhadores a cumprir cargas horárias desumanas.
Esse mito é perverso. Ele satisfaz as taras ideológicas de alguns, mas se levado a sério, resulta em diminuição da qualidade de vida de todos - em especial dos mais pobres.
O mito confunde eficácia com eficiência. Eficácia é atingir objetivos a qualquer custo. Eficiência é aumentar a produtividade pelo uso correto das tecnologias e de processos e pela alocação correta dos recursos. Com menos esforço e os mesmos recursos a produtividade aumenta e, com ela, a geração de riqueza cresce.
Quando se examina a razão da prosperidade de algumas nações enquanto outras vão ficando para trás, o fator mais decisivo pode ser encontrado na maneira como umas e outras encararam o desafio da produtividade.
A lição do campo
O agro brasileiro não cresceu impondo jornadas exaustivas aos produtores. Cresceu adotando pioneiramente as inteligências artificiais, automação e processos avançados que tornam cada hora trabalhada mais produtiva.
Enquanto isso, para o resto da economia brasileira sobram impostos, taxas e burocracia. Faltam marco legal duradouro, regulação sábia, financiamento e formação de gente qualificada.
Em editorial da edição de 6 de abril deste ano, o jornal comenta o relatório “Financiando o crescimento em um ambiente desafiador no mercado de dívida”, que acabara de ser publicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O jornal viu no documento mais uma das tantas advertências sobre os riscos à produtividade que vocalizou ao longo de toda sua longa história. Diz o editorial: “O relatório da OCDE deveria ser mais um alerta para o governo brasileiro, que vem adotando uma série de medidas de estímulo ao consumo, sem qualquer preocupação com uma maior produtividade num país que vive de espasmos econômicos”.
Muitas vezes em suas páginas o Estadão exortou outros setores da economia a se mirar no exemplo do agro e multiplicar suas taxas de produtividade. Com a disseminação das IAs e a circunstância energética única que o Brasil oferece para o avanço dessas tecnologias, dessa vez essa exortação se reveste de uma oportunidade real.
Veja abaixo como o Estadão tratou desses temas ao longo dos anos:
O progresso no pós-Segunda Guerra
O jornal reproduziu e apoiou os termos da famosa “Carta da Paz Social”, como ficou conhecido o discurso do líder empresarial Euvaldo Lodi (1896-1956) ao tomar posse na presidência da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O Estadão acabava de voltar aos seus legítimos donos, a família Mesquita, depois de cinco anos sob ocupação de prepostos da ditadura Vargas, que também se findara. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, abriram-se para o Brasil e o mundo os prospectos de um período de progresso material impulsionado por tecnologia, inovações e aumento da produtividade. O resultado esperado com a subida da maré era a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, condição essencial com que contavam os líderes do Ocidente para enfrentar as promessas utópicas do comunismo.
O que disse o Estadão: “Os empregadores procurarão com o máximo interesse e boa vontade promover, pela racionalização do trabalho e pela melhoria do equipamento, o aumento da produtividade das empresas, visando a diminuição dos custos de produção, como meio de conseguir a redução dos preços de venda, tendendo assim a facilitar as condições gerais de vida.” 16/1/1946. Veja a página original
Choque com nosso ‘subdesenvolvimento’
No período do pós-guerra um vento de abertura para o exterior trouxe para o Brasil a chance de atrair capitais, máquinas e imigrantes altamente qualificados, deslocados dos campos de guerra da Europa. Veio também, como se verá, a possibilidade de comparação do estágio civilizatório do Brasil com os dos demais países e o consequente choque com o que se chamou nosso “subdesenvolvimento”.
O que disse o Estadão: “Temos que orientar nossa política social no sentido de favorecer e estimular o aumento da produtividade do trabalho humano. Impõe-se favorecer a modernização de nosso parque industrial mediante a aquisição de maquinaria estrangeira, não devendo faltar a essas iniciativas todo o apoio oficial. É mister (...) a atração de imigrantes e capitais estrangeiros.” 20/8/1948. Veja a página original
Relatório mostra um país encalacrado
O choque das comparações com os países industrializados teve sua apoteose no “Relatório Abbink”. Por encomenda da Comissão Técnica Mista Brasil-Estados Unidos, 105 especialistas trabalharam sob a liderança do economista norte-americano John Abbink (1890-1958). O relatório que levou seu nome mostrou um país encalacrado, que não produzia nem sequer alimentos suficientes para sua população e isso limitava o crescimento industrial e o poder de consumo interno. O Relatório Abbink foi enfático ao apontar a necessidade de reformas fiscais e controle de gastos de modo que sobrassem recursos para o autofinanciamento de projetos. Sugeriu a criação do Banco Central e a montagem de um arcabouço legal que desse segurança jurídica aos investidores externos. O Estadão bateu de frente com o coro dos negacionistas das conclusões de John Abbink.
O que disse o Estadão: “Quem poderá negar que essas são verdades incontestáveis? — E quem há aí que as ignore? — São coisas que todos estamos fartos de saber; de ver e de sentir. Não queremos, porém, conhecê-las e por isso ficamos zangados quando alguém vem repeti-las e relembrá-las. Porque não queremos fazer o esforço e os sacrifícios que se impõem para remediar e corrigir a situação. As declarações do sr. Abbink provocaram uma tempestade. Esta, aliás, já passou, como as trovoadas de verão.” 13/3/1949. Veja a página original
Universalização das garantias trabalhistas
Os grandes estudos e relatórios com diagnósticos e prescrições para o aumento da produtividade mostraram também que o progresso social passava pela universalização das garantias trabalhistas. Trabalhar melhor e com maior produtividade não significava trabalhar mais duro ou em mais longas cargas horárias.
O que disse o Estadão: "A instabilidade, a falta de qualquer garantia, a não ser a do salário mínimo e familiar, é o maior inconveniente do salário por tarefa, que condena o trabalhador à preocupação e à insegurança em relação ao futuro, uma vez que não pode contar com nada de certo para a manutenção própria e da família. A sofreguidão por ganhar sempre mais, por acumular tarefas, compromete o equilíbrio e a qualidade do seu trabalho, criando um estado psicológico de ansiedade em relação ao aumento da produtividade própria, cujas consequências prejudiciais irão se refletir na vida do operário e na da família que dele depende.” 28/8/1949. Veja a página original
A importância de um parque industrial robusto
A década de 50 do século passado entronizou o conceito de que nenhum país - com raras exceções, como a da Suíça - pode almejar o desenvolvimento e a paz social sem um parque industrial capaz de competir em termos globais.
O que disse o Estadão: “O aumento da produtividade tende a melhorar consideravelmente o nível de vida das populações. Na Europa, fala-se em dobrar em dez anos, em gradativa ascensão: nos primeiros anos, será menor a melhora, mas caminhará, à medida que os empregos de capital forem revelando resultados. Nem (o aumento de produtividade) se opõe ao pleno emprego: ao contrário, acompanha-se de uma política de expansão econômica, que evita a redução do número de trabalhadores, mas pode exigir mutações, previstas com antecedência, a fim de serem minoradas suas consequências." 24/9/1955. Veja a página original
Aumento de salário exige aumento de produtividade
Depois de assimilados os conceitos de que a adoção de tecnologias inovadoras não ameaçam o emprego e de que o bem-estar do trabalhador é condição essencial, chegara a hora de entender outro ponto fulcral: aumento real e sustentável de salário exige aumento de produtividade.
O que disse o Estadão: “O único aumento de salário não inflacionário é aquele que corresponde a um aumento da produtividade. Isso permite melhorar o padrão de vida dos assalariados sem ser preciso elevar os preços.” 2/11/1967. Veja a página original
IA aparece no jornal em 1967
O que viria a ser quase meio século depois a esperança concreta de aumento da produtividade da economia brasileira, a inteligência artificial estreou no Estadão em 1967. Era um texto pequeno baseado em um despacho da agência italiana de notícias Ansa. Em pouco mais de uma coluna, o texto conseguiu descrever as potencialidades das IAs e, exatamente como ocorre agora, fazer as perguntas certas sobre seus riscos.
O que disse o Estadão: “Poderá a inteligência artificial substituir no futuro a inteligência humana? Segundo a opinião de numerosos cientistas que participaram do ‘Congresso sobre automatização e suas aplicações científicas’, (realizado em Roma) esta possibilidade existe (...). Os cientistas tiveram que examinar (entre outras coisas) a possibilidade de definir a inteligência humana em termos físicos e reproduzíveis artificialmente (...). O professor e filósofo Vittorio Somenzi afirmou que também intelectualmente a humanidade arrisca tornar-se prisioneira das máquinas.” 17/12/1967. Veja a página original

A revolução do agronegócio
Um pequeno raio de luz do que viria a ser a maior revolução tecnológica brasileira, a do agronegócio, apareceu timidamente na página 39 do Estadão que circulou no dia 28 de setembro de 1972. O jornal anunciou a existência do decreto de criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, que se tornaria realidade no ano seguinte.
O que disse o Estadão: “Pesquisa fica mais racional” 28/9/1972. Veja a página original
Pesquisa como alicerce para a produtividade no campo
Os repórteres do jornal visitaram o laboratório (instalado no quilômetro 47 da antiga Estrada Rio-São Paulo) de uma pesquisadora brasileira originária da antiga Tchecoslováquia chamada Johanna Döbereiner (1924-2000). Os trabalhos da doutora Döbereiner em mais alguns anos seriam as bases da liderança mundial do Brasil no aumento da produtividade de duas culturas - a cana de açúcar e a soja. O título do artigo escrito pelos repórteres do Estadão era “Pesquisa pode revolucionar a agricultura”. Foi uma premonição.
O que disse o Estadão: “Sob a liderança da professora Johanna Döbereiner (...) seis pesquisadores (...) estão polarizando a atenção das principais instituições de pesquisa científicas dos países desenvolvidos. A pesquisa do grupo descobriu bactérias que, instaladas nas raízes da planta, permitem a elas absorver o nitrogênio do ar atmosférico (...) a um custo mínimo transformam (o nitrogênio do ar) nos nitratos indispensáveis para o desenvolvimento vegetal.” 17/8/1975. Veja a página original

Bem antes do ChatGPT
Quase quatro anos antes do ChatGPT surgir como uma estrela supernova no horizonte tecnológico, Bruno Romani, editor de tecnologia do Estadão, mostrou que o agro brasileiro já se nutria há um bom tempo de conquistas pouco conhecidas das inteligências artificiais.
O que disse o Estadão: “Uma plataforma de inteligência artificial lê informações sobre solo e clima de cada fazenda que requisita seus serviços e as une a um banco de dados de 70 mil cepas de micróbios cujos DNAs foram sequenciados. Com as marcações genéticas, o algoritmo consegue indicar quais os melhores micro-organismos para aumentar a produtividade da soja, ou proteger o milho contra doenças e o clima.” 27/3/2019. Veja a página original
Oportunidade para o Brasil
Em apenas três anos, de 2022 a 2025, a inteligência artificial (IA) atingiu o mesmo número de usuários nos Estados Unidos que a internet precisou de 23 anos para conquistar. São dados do mais recente relatório da BOND, empresa global de investimento em novas tecnologias. Os data centers que servem as IAs são insaciáveis consumidores de energia elétrica. Celso Ming, colunista do Estadão, viu nisso uma grande oportunidade para o Brasil.
O que disse o Estadão: “(Por ter uma matriz elétrica mais limpa e contar com grande oferta de energia renovável) o Brasil pode oferecer soluções que tornem os data centers mais sustentáveis, por meio do uso de hidrogênio verde e células de combustível.” 2/2/2025. Veja a página original



