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Análise: Disputa por terra está na raiz de violência no Quênia

Disputas pela terra entre etnias e desigualdade econômica podem explicar conflito.

Por Mark Doyle
Atualização:

O vale Rift é uma falha geográfica que corta o Quênia e também está no centro da divisão política e étnica do país. Historiadores e acadêmicos afirmam que não é por coincidência que as cidades que ficam no vale Rift, como Nakuru e Naivasha, foram palco de violência logo depois do polêmico pleito que reelegeu o presidente Mwai Kibaki. Segundo estes analistas, enquanto as diferenças sobre o resultado das eleições é claramente política - com a oposição e alguns observadores independentes acusando o governo de fraudar a votação - na raiz de parte da atual onda de violência está a busca por terras férteis. Um acadêmico de Nairóbi, que não quis se identificar, afirmou que o vale Rift era dominado pelos pastores Masaai e a tribo Kalenjin, antes da introdução da agricultura comercial em larga escala na África. "Os Masaai foram deslocados por colonos britânicos a partir do final do século 19, pelo menos das terras mais cobiçadas", disse o acadêmico. Essas terras mais férteis e de clima mais fresco ficaram conhecidas como "White Highlands" ("Terras Altas Brancas", em tradução livre). "Quando foi declarada a independência, os fazendeiros brancos não foram substituídos pelos Masaai, mas por (membros da tribo) Kikuyus, que faziam parte da nova elite política do país", acrescentou o acadêmico. Ressentimento O deslocamento (dos Masaai e Kalenjin) ou, mais precisamente, o ressentimento histórico explorado pelos partidos políticos do país quando se referem ao episódio, é parte da raiz da atual violência no Quênia. Os Kikuyus são o maior grupo étnico do Quênia e são economicamente dominantes. Eles tiveram mais sucesso ao se organizaram contra os britânicos e, por isso, colheram os primeiros frutos da independência. Eles estão no centro da violência no vale Rift, nas cidades de Naivasha e Nakuru, tanto do lado das vítimas como também dos responsáveis pela onde de violência. O atual governo do Quênia é visto pela oposição como sendo dominado pelos Kikuyus. É nesse contexto que se explica a ligação entre o atual conflito e antigas rixas provocadas por disputas por terra. Posse da terra Mas o acadêmico de Nairóbi afirma que esta não é apenas uma questão étnica. "É fácil nos concentrarmos nos Kikuyus, mas (o conflito) é causado por desigualdades de renda profundas e antigas do Quênia", afirmou. E por uma população que cresce rapidamente e que encara a posse de terras como uma forma de sobrevivência. Segundo o acadêmico, Masaais ricos e bem relacionados politicamente conseguiram se aproveitar os benefícios da posse de terra no vale Rift, assim como os Kikuyus. Políticos de todos os grupos étnicos, ainda segundo o especialista, já estavam preparando o caminho, às vésperas das eleições, para tirar proveito das animosidades levantadas pelos chamados "confrontos pela terra", que tradicionalmente vêm à tona em tempos de votação. "Ocorreram episódios na violência em confrontos pela terra em 1992/93, 1997 e 2001/2002, sempre em épocas de eleição", acrescentou o acadêmico. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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