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‘Bandido ostentação’: chefe acusado de lavar R$ 1 bilhão do PCC é preso em praia de Pernambuco

Líder acusado de comandar o setor financeiro da facção foi localizado em condomínio na Praia dos Carneiros, em uma ação que contou com participação da Abin, da Polícia Civil e do Ministério Público

Foto do author Marcelo Godoy
Por Marcelo Godoy
Atualização:

A polícia prendeu nesta terça-feira, 11, Odair Lopes Mazzi Junior, o Dezinho, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC). Um dos chefes da chamada Sintonia Final, o grupo que controla as ações da facção criminosa indicados por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, Dezinho foi apontado na Operação Sharks como o responsável pela lavagem de R$ 1 bilhão, enviados pelo grupo para o Paraguai.

Odair Lopes Mazzi Junior, o Dezinho, líder do PCC, foi preso na Praia dos Carneiros, em Pernambuco Foto: Polícia Civil de Pernambuco

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Foragido desde 2020, o acusado estava escondido em um condomínio de luxo com sua mulher. Desde o desaparecimento de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta – supostamente assassinado na Bolívia – e a prisão de Valdeci Alves dos Santos, o Colorido, em abril de 2022, em Salgueiro, também em Pernambuco, Dezinho tinha assumido também a tarefa de cuidar da logística do tráfico internacional de drogas.

Dezinho era conhecido por gostar de ostentar riqueza. Seus endereços em São Paulo incluíam apartamento em Moema, na zona sul, e uma casa em um condomínio em Alphaville, em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo.

Fotografias apreendidas pelo Ministério Público Estadual mostram a festa de casamento do acusado, em que ele levou a mulher para passear de helicóptero, e outras fotos em que ele aparece em trajes tradicionais árabes – suspeita-se em viagem de lua de mel. Em outra imagem, ele e a mulher aparecem em capa da Revista Caras, como se estivessem na “Ilha de Caras”.

Fotografias apreendidas pelo Ministério Público Estadual mostram a festa de casamento do acusado, em que ele levou a mulher para passear de helicóptero Foto: Ministério Público de São Paulo

“Extremamente importante essa prisão. Ele (Dezinho), o Silvio Luiz Ferreira (Cebola) e o Patrick Velinton Salomão (Forjado) eram integrantes da sintonia final de rua do PCC. E, na Bolívia, o Sérgio Luiz de Freitas, o Mijão. A participação da ABIN e da Polícia Civil de Pernambuco foi importantíssima no sucesso dessa operação”, afirmou o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao crime Organizado (Gaeco).

Gakiya foi responsável pela denúncia dos acusados na Operação Sharks, que detectou em 2020 a lavagem de R$ 1,2 bilhão ganho pelo PCC com o tráfico internacional de drogas – a quantia não inclui os negócios particulares feitos por seus membros e associados. Os dados da contabilidade da facção mantida por Dezinho constavam de documentos apreendidos e se referiam ao período entre junho de 2018 e setembro de 2020.

Dezinho é visto em fotos em que aparece em trajes tradicionais árabes. Investigadores suspeitam que tenha sido sua viagem de lua de mel Foto: Ministério Público de São Paulo

A Justiça de São Paulo decretou a prisão de 18 acusados de pertencer à cúpula da facção na operação, a maior até então a investigar a lavagem de dinheiro da cúpula da organização criminosa. Eles teriam sido nomeados para a Sintonia Final por Marcola, em razão da transferência dele e de outros chefões do grupo para o sistema prisional federal, em 2019. Em razão da dificuldade de comunicação com a rua, era preciso entregar essa missão para pessoas da mais absoluta confiança de Marcola.

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Dezinho era conhecido por gostar de ostentar riqueza. Fotos apreendidas pelo MP mostram viagens do acusado Foto: Ministério Público de São Paulo

Casas-cofre, laranjas e dólar-cabo

De acordo com dados da Sharks, a facção havia montado um esquema em que parte do dinheiro – cerca de R$ 200 milhões – fora movimentado por meio de contas bancárias em nomes de laranjas e de empresas fantasmas. O restante foi mantido em casas-cofre espalhadas pelo Estado de São Paulo e transportado em carros até ser entregue a doleiros, que remetiam os recursos para o exterior por meio do chamado dólar-cabo, a fim de a facção pagar seus fornecedores de drogas no Paraguai, na Bolívia e no Peru.

A rede de casas-cofre – o tesouro do PCC – foi criada para que o grupo mantivesse sua liquidez. A facção tinha, então, dificuldade para fazer a lavagem do dinheiro obtido com o tráfico internacional de cocaína. As casas ainda resolviam o problema. Os investigadores desconfiam que parte delas estava instalada em casas de luxo adquiridas pelo grupo em bairros nobres do Estado. Depois, a facção passou a investir em propriedades no Paraguai e imóveis na capital paulista.

Depois, investigações da PF, como a Operação Rei do Crime, detectaram que o PCC teria passado a usar esquema de doleiros. Entre eles estava o do ‘Banco do Crime’, investigado na Operação Tempestade, da PF, ele teria movimentado o dinheiro do tráfico por meio do mesmo sistema de lavagem de dinheiro dos suspeitos de movimentar recursos desviados de hospitais de campanha para a a pandemia de covid-19 no Rio, na gestão do governador cassado Wilson Witzel. Essa é uma das principais revelações da Operação Tempestade.

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As investigações subsequentes apontam Dezinho como suspeito de ter movimentado cerca de 15 toneladas de cocaína em um único ano. “Ele era responsável pela logística de drogas, como a contratação de pessoas para beneficiar a pasta base de cocaína”, afirmou o promotor. A Diretoria de Inteligência da Polícia Civil de Pernambuco passou a monitorar o acusado depois de receber informações do Gaeco de São Paulo, que obteve ainda ao apoio da Central de Inteligência Nacional, mantida pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que coordenou as ações na área de inteligência.

Dezinho estava com documentos falsos quando foi detido pelos policiais civis. “Ele estava recebendo a visita da mulher, que estava de férias, quando foi capturado”, contou o promotor. Em 2020, ele escapara ao cerco da polícia quando vivia em um condomínio de luxo em Alphaville, na Grande Sâo Paulo. Atualmente, ele ainda é réu no processo da Operação Sharks. De acordo com o Gaeco, o PCC está em 22 países e contaria com cerca de 40 mil integrantes.

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