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Bolsonaro quer ano-novo com mais um aliado para matar crise no peito

Após emplacar Nunes Marques no STF, presidente trabalha para eleger Lira à cadeira de Maia na Câmara e ressuscita discurso de ódio contra o PT

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Foto do author Vera Rosa
Por Vera Rosa
Atualização:

Caro leitor,

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O presidente Jair Bolsonaro escolheu a batalha sobre a qual vai concentrar as energias nos primeiros dias de 2021. A poucos dias de iniciar a segunda metade do mandato, Bolsonaro está empenhado em eleger o sucessor do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em 1.º de fevereiro. Quer naquela cadeira um perfil semelhante ao do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques: alguém que domine a técnica de “matar no peito”, hoje muito em moda na política e no Judiciário.

Primeiro nome indicado por Bolsonaro para o Supremo, no ano em que vivemos em perigo, Nunes Marques tem tomado decisões sob medida para atender aos interesses do Palácio do Planalto.Foi assim ao votar contra a reeleição de Maia e ao impor derrotas à Lava Jato. O magistrado também adotou o discurso oficial do governo ao sustentar que a vacinação obrigatória para combater o coronavírus sódeveria ocorrer após esgotadas “formas menos gravosas de intervenção sanitária”.

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o escudo de proteção escolhido por Bolsonaro para o duelo que vai definir quem comandará a Câmara atende pelo nome de Arthur Lira (AL). Chefe do Centrão, líder da bancada do Progressistas e réu no Supremo, Lira é o candidato que o presidente quer na vaga de Maia justamente na temporada que começa em fevereiro e termina em 2023, pouco depois da corrida ao Planalto.

O deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), no plenário da Câmara dos Deputados Foto: Dida Sampaio/Estadão

Para elegê-lo, Bolsonaro deu carta branca à articulação política do governo nas negociações. Deputados têm recebido ofertas de cargos em estatais e no Ministério e de dinheiro para emendas parlamentares extra orçamentárias

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Maia e o seu bloco, que inclui partidos de oposição, apoiam a candidatura do deputado Baleia Rossi (SP), presidente do MDB. A disputa no Salão Verde poderia ocorrer como qualquer outra não fosse Bolsonaro interferir para ter o controle da Câmara, emplacar ali sua agenda de costumes, frear investigações e blindar o governo.

O deputado federal Baleia Rossi (MDB) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) Foto: Gabriela Biló/Estadão

No Salão Azul do Senado, com vários aliados no páreo, as nuvens não parecem tão carregadas, ao menos por enquanto. Tanto é assim que o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP) – prestes a deixar o cargo –, está hoje cotado para ocupar um ministério na reforma da equipe. As mudanças na Esplanada devem ocorrer após a definição da nova cúpula do Congresso.

Eleger o comandante da Câmara virou uma espécie de “tudo ou nada” para Bolsonaro. Na outra ponta, o grupo de Maia avalia que desbancar Arthur Lira significa derrotar o presidente da República e criar mais obstáculos para o seu projeto de reeleição, em 2022. Por essa perspectiva, a briga no Congresso virou o primeiro ensaio para a construção de uma frente ampla contra Bolsonaro.

O Planalto, por sua vez, tenta ressuscitar a polarização contra o PT. A estratégia vem sendo desenhada para despertar o medo davolta do partido do ex-presidente Lula ao poder. “Quem está com Baleia e Maia está com o PT. Querem derreter o governo de qualquer jeito”, resumiu o deputado Coronel Tadeu (SP), aliado de Bolsonaro. O PSL, partido de Tadeu, integra o bloco de apoio a Baleia, mas o coronel aderiu à campanha de Lira.

“Eu acho que a disputa será muito pesada e se perdeu a chance de pacificar o ambiente”, disse o ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) José Mucio Monteiro ao Estadão. “O governo não deveria se envolver, porque corre riscos. Se perder, pode ganhar um adversário”.

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A lembrança de Eduardo Cunha (MDB-RJ), eleito presidente da Câmara em 2015, sempre vem à tona nessas ocasiões. Dez meses após vencer o petista Arlindo Chinaglia (SP), nome então respaldado pelo Planalto, Cunha autorizou a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, ainda em dezembro daquele ano. Dilma foi deposta em 2016.

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Antes do caldo entornar, com Bolsonaro acusando Maia de deixar caducar o pagamento do 13.º do Bolsa Família e o deputado obrigando o governo a admitir a “mentira”, Muciohavia conversado com o presidente sobre o embate no Congresso. Embora não tenha aceitado o convite para ser ministro, ele aconselhou Bolsonaro a reconstruir pontes na Câmara. Foi além: afirmou que Maia defende a mesma agenda de reformas do titular da Economia, Paulo Guedes.

Nem Guedes, no entanto, tem mais esse diagnóstico. O chefe da equipe econômica não escondeu a irritação ao tomar conhecimento de um manifesto divulgado pelo PT, PDT, PSB e PC do B, antes do Natal, quando esses partidos decidiram engrossar o bloco de Maia. “Queremos derrotar Bolsonaro e sua pretensão de controlar o Congresso, um presidente criminoso, cujo afastamento é imperioso para que o Brasil possa recuperar-se da devastação em curso”, diz um trecho do documento.

O manifesto também se posiciona contra a privatização e o que chama de “entrega” da Petrobrás, Eletrobrás, Correios e bancos públicos. Guedes viu nesse capítulo o dedo de Maia e uma “confissão” de que ele teria atuado para barrar a venda de estatais. Apelidado de PG, o ministro sustenta que uma “conspiração” passou perto do Planalto. 

A promessa de transferir estatais para a iniciativa privada, porém, não só não saiu do papel como o próprio Bolsonaro assinou, no último dia 24, o decreto que prevê a criação de mais uma empresa pública: a NAV Brasil Serviços de Navegação Aérea. 

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Maia diz que Guedes não cumpre o que promete. Ao Estadão , o presidente da Câmara contou ter ouvido o próprio Lira chamar o ministro de “vendedor de redes”, alguém que, na visão dele, faz muita propaganda, mas nem sempre entrega a mercadoria. “O que vai pesar em relação a 2022 é a pauta do governo nos próximos seis meses. O presidente é que vai ditar o caminho de um governo que quer ser popular ou populista”, avaliou o deputado.

No mercado futuro da política, o terceiro ano da gestão é visto como a chance para um presidente mostrar serviço, dar uma chacoalhada na equipe e se reposicionar no jogo. Mas Bolsonaro vai continuar negando a gravidade da pandemia do coronavírus em 2021? 

“Ninguém me pressiona para nada. Eu não dou bola para isso”, reagiu o presidente no sábado, 26, diante das cobranças pelo atraso da vacina no Brasil, enquanto a imunização contra a covid-19 avança em outros países. “Se eu pensar em reeleição, eu não trabalho”, desconversou o chefe do Planalto nesta segunda-feira, 28, em bate-papo com apoiadores.

Se Bolsonaro não aceita pressões, que nome ele dá para a fatura apresentada com antecedência por partidos do Centrão? E há quem diga que, na “vida nova” de 2021, a “faca no pescoço” pode ser ainda maior, dependendo do resultado da disputa no Congresso. Feliz Ano-Novo!

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