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Crônica, política e derivações

Das Razões da Medicina -- Parte I

Por Paulo Rosenbaum
Atualização:

Das Razões da Medicina - Parte I

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"Sem referência à epistemologia, uma teoria do conhecimento seria uma meditação sobre o vazio; e sem relação à história das ciências, uma epistemologia seria uma réplica perfeitamente supérflua da ciência sobre a qual pretenderia discorrer"

Hilton Japiassu

Segundo Henri Bergson, o trabalho do filósofo consiste em inverter a direção natural do trabalho do pensamento. Descartada a pretensão e como acredito que haja uma filosofia da medicina, apenas tentarei fazer algo análogo. Começemos do fim. Em todas as versões aceitáveis do que essencialmente caracteriza a atividade médica encontramos pelo menos um objetivo principal razoavelmente compartilhado: cuidar da saúde das pessoas.

Temos observado um padrão de comportamento com assuntos científicos polêmicos na mídia que vêm se caracterizando tanto pela fulanização do problema, como pela desqualificação -- que por conveniências não explicitadas -- seleciona ou simplesmente deleta argumentos alheios. Toda critica consistente deveria ser enaltecida, este é, ou deveria ser, o papel da oposição na política, das teorias rivais nas ciências. Um autor deveria agradecer uma boa análise crítica de um comentarista ou de um referee. Mas não é que ela é quase sempre mal recebida? Considerada uma ofensa. Nos meios mais sectários, um golpe. Termo quase bastardizado em nossos tempos de dossiê versus dossiês. A tradição da polêmica, infelizmente empobrecida no país, teria o mérito de resgatar um debate saudável. Aonde todas as partes sairiam mais esclarecidas, mesmo que com as divergências acirradas, na medida em que, ao menos aprofundariam o conhecimento do assunto acerca de matérias sensíveis. E as tornariam mais disponíveis para o grande público. Afinal, só assim faz sentido a res publica e o bem comum como aspiração consensual dos cidadãos.

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Comecemos de novo, desta vez pela experiência. O que é a experiência do ponto de vista científico? Não são só dados laboratoriais reproduzíveis como pode pensar o senso comum. Segundo Bachelard experimentar consiste em se fazer as perguntas certas. Ele destaca que a história das ciências não pode ser meramente empírica, mas, antes de tudo, o progresso das ligações racionais do saber. Neste sentido, a epistemologia histórica é uma reação ao positivismo. Graças a esta estratégia pode-se resgatar procedimentos que foram precocemente descartados pela ciência e resignifica-los mostrando que a história pode não ter mesmo terminado. Foi, por exemplo, o típico caso da acupuntura. Do descarte precoce à sua redenção temos uma história interessante relatada pelo epistemólogo austríaco Paul Feyrabend. Conta este autor que quando Mao T. Tung chegou ao poder na China quis saber quais alternativas teria aquilo que classificou como "medicina ocidental burguesa" (sic). Foi informado que nas montanhas, muito além de Beijing, resistiam praticantes de uma multimilenar forma de medicina tradicional chinesa que envolvia a associação de procedimentos como moxabustão, acupuntura e fitoterápicos. O objetivo era evidentemente político: contrapor a tecnologia ocidental ao padrão artesanal "nacionalista" do velho Império.   O ditador chinês convocou estes supostamente anacrônicos representantes da arte curativa que para surpresa geral foram provando seu valor quando instalados em ambiente de estímulo a pesquisa na Universidade de Pequim. Décadas depois haviam refeito a tradição, as vezes até mesmo sob o risco de descaracterizá-la, porém continuaram sendo financiados para aplicar sua arte e pesquisá-la dentro de um ambiente acadêmico. Até que nas últimas décadas a acupuntura (apenas um braço da medicina tradicional chinesa) vêm se validando cientificamente e encontrando cada vez mais adeptos no mundo, especialmente a partir de um boom ocorrido na América do Norte nos anos setenta.

Assim há que se criticar a falsa noção, ainda fecunda dentro das ciências duras, de que haveria um "experimento crucial" que determinaria a completa aceitação ou repúdio de uma disciplina. Mesmo porque, segundo Lakatos, experiências cruciais "só são vistas como cruciais muitas décadas mais tarde".

Quando a análise enfoca a história da medicina, raros são os historiadores que, lançando um olhar retrospectivo sobre esta ciência, discordam do aforismo de Claude Bernard de que uma anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica. Sabemos que a lógica em si mesma é insuficiente para dar conta de exigências e possibilidades de validade que, conforme nos mostrou Thomas Kuhn, em seu clássico "A estrutura das revoluções científicas", ampara-se em valores e necessidades de uma dada cultura, em determinado momento histórico. Ou seja, impõe-se reconhecer a não universalidade e a não univocacidade dos padrões normativos de ciência alguma. É verdade que abusamos do termo "paradigma". É tratado como se fosse uma palavra mágica e auto-referente. Mas ele nem é mesmo uma palavra, talvez seja um grande tema, já que comporta, segundo Imre Lakatos, 27 diferentes significados. Mas que se pode fazer, se este é o preço a se pagar sempre que estamos em áreas sem fronteiras delimitadas?

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