Contra piratas da Amazônia, empresas usam escolta armada e até internet de Elon Musk

Roubos a embarcações causam prejuízo anual de cerca de R$ 100 milhões nas atividades de transporte de cargas pelo Rio Amazonas, segundo Instituto Combustível Legal

PUBLICIDADE

Foto do author Ítalo Lo Re
Por Ítalo Lo Re
Atualização:

Diante da recorrência de roubos a embarcações cometidos pelos chamados “piratas dos rios” na Amazônia, empresas que atuam na região têm investido em escolta armada, câmeras de monitoramento e até em sistemas de segurança que se utilizam da Starlink, serviço de internet da SpaceX, do bilionário americano Elon Musk, para tentar evitar ataques.

PUBLICIDADE

Levantamento do Instituto Combustível Legal (ICL) indica que a atuação das quadrilhas de piratas dos rios, focadas em saquear mercadorias, causa prejuízo anual de cerca de R$ 100 milhões nas atividades de transporte de cargas pelo Rio Amazonas. Sem contar a insegurança levada à população.

Para combater esse problema, Estados como Amazonas e Pará também têm buscado novas soluções. O principal foco neste momento é em ampliar a quantidade de bases fluviais para auxiliar no patrulhamento nas vias hídricas. Em geral, são estruturas que funcionam 24 horas por dia e dispõem até de lanchas blindadas para auxiliar em eventuais confrontos com os criminosos.

Do alto de uma embarcação, antena da Starlink auxilia na comunicação da tripulação Foto: Divulgação/Instituto Combustível Legal

Para se ter um parâmetro, só em ataques contra embarcações de transportadores do Estado do Amazonas, mais de 7,7 milhões de litros de combustível foram levados do fim de 2020 a 2023, o que acarretou em prejuízo de R$ 48 milhões no período, segundo levantamento do sindicato local das Empresas de Navegação Fluvial (Sindarma).

A implementação de tecnologias pelas transportadoras tenta mudar essa realidade. “Com elas, pode-se ter um monitoramento em tempo real das embarcações, o que dá a possibilidade de ter um enfrentamento em água”, disse Carlo Faccio, diretor do ICL.

Além disso, muitas embarcações têm recorrido a escolta armada. Como mostrou o Estadão, em tentativa de assalto em janeiro deste ano nos arredores do Rio Amazonas, a presença de dois seguranças se mostrou decisiva para repelir a ofensiva de quatro criminosos.

“Em paralelo a isso (mais tecnologia e seguranças), se criou também uma integração com as secretarias de segurança pública do Amazonas e do Pará para se ter uma pronta resposta”, acrescentou Faccio. Os órgaos geralmente são acionados por botões de emergência instalados na cabine dos navios.

Publicidade

Botão de emergência tem objetivo de agilizar pedido de socorro pelos marinheiros Foto: Divulgação/Instituto Combustível Legal

Hoje, o Pará possui uma base fluvial – localizada no estreito de Breves, em Antônio Lemos –, mas prevê instalar outras duas até o fim do ano: uma delas em Óbidos, às margens do Rio Amazonas, e outra em Abaetetuba, próxima à Ilha do Capim. A ideia é ter uma pronta resposta em mais pontos estratégicos.

Depois que a primeira base do Estado foi implementada, em 2022, os roubos caíram de forma expressiva, aponta o governo do Pará. Foram 43 casos registrados no ano passado, ante 169 no ano de 2020, quando a modalidade atingiu o pico da série histórica de cinco anos.

Segundo Valéria Lima, diretora de downstream do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), quase metade dos prejuízos causados pelos roubos de combustível a transportadoras amazonenses entre o final de 2020 e 2023 ocorreram nos arredores de Itacoatiara, no Rio Amazonas. Mas os rios Madeira, Negro e Solimões também são considerados pontos de atenção.

Atualmente, o Amazonas possui quatro bases em funcionamento, sendo duas móveis – a Tiradentes, que fica no Alto Solimões, e a Paulo Pinto Nery, que fica próxima da foz do Rio Madeira – e duas fixas – a Arpão 1, próxima ao município de Coari, no Rio Solimões, e a Arpão 2, localizada no Rio Negro. Esta última foi inaugurada no começo deste ano.

“Até agora nós estamos com zero ocorrência (de roubos de combustíveis) nos rios no começo deste ano”, disse ao Estadão em abril o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Marcus Vinícius Oliveira de Almeida.

Ainda com a melhora no começo deste ano, o secretário afirma que, segundo estudos internos do governo do Estado, o ideal seria adotar uma rede de nove bases fluviais e três bases terrestres para cobrir mais pontos estratégicos.

Tráfico de drogas

No Pará, a implementação da base se mostrou positiva inclusive no combate ao tráfico de drogas. Entre 2019 a 2021, foram apreendidos meia tonelada de entorpecentes na malha fluvial, segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup).

Publicidade

“Já no período de 2022 a 11 de abril de 2024, período posterior à implantação da base fluvial, foram apreendidos mais de 7 toneladas de drogas na malha fluvial do Pará”, disse. A base de Breves funciona 24 horas por dia, com uso inclusive de lanchas blindadas.

“No ano passado, 20% do que nós apreendemos foi em Antônio Lemos, na base de Breves, e metade foi apreendida onde vai ser a base de Óbidos”, disse ao Estadão Ualame Machado, secretário de Segurança Pública do Estado.

As rotas fluviais e marítimas são as mais recorridas pelo crime organizado para o envio de drogas para fora do País, a exemplo do que ocorre em São Paulo, em que autoridades apontam forte atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Porto de Santos.

Como vem mostrando o Estadão, a Amazônia tem passado nos últimos anos por uma sobreposição entre crimes ambientais, como desmatamento e garimpo ilegal, com o narcotráfico. A nova dinâmica complexificou o combate à criminalidade.

“O local onde nós tínhamos mais ataque a carga de combustível ficava exatamente na foz do Rio Madeira, porque esse combustível era usado para abastecer o mercado ilegal de extração de minério, de ouro”, exemplificou Almeida. Nos últimos anos, o rio virou alvo de disputa entre garimpeiros, o que resultou em ofensiva recente da Polícia Federal.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.