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Galos músicos cantam em Itu

Num hotel-fazenda, criador mantém um plantel de 110 aves, [br]para seu próprio deleite e dos hóspedes

Foto do author José Maria Tomazela
Por José Maria Tomazela
Atualização:

A Fazenda Capoava, de Itu (SP), guarda dois séculos de história em seus casarões de taipa. Esteve no auge de ciclos econômicos da cana, do café e da pecuária, e hoje é um elegante hotel-fazenda. Uma de suas mais singulares atrações, no entanto, não está no casario secular, no que sobrou da senzala, nem nas confortáveis instalações hoteleiras, e sim num terreiro, sob um pequeno pomar. É ali que o proprietário Raul de Almeida Prado mantém sua rara criação de galos músicos. Mas não é qualquer galo que serve para compor o bem criado plantel. A maioria dessas aves, como se sabe, costuma soltar seu cocoricó ao amanhecer. Ocorre que o canto de um galo comum dura entre 3 e 5 segundos. Os galos músicos são cantores exímios: seu canto é rouco, sem estridência, mas forte e marcante como o de um tenor. E dura de 20 a 30 segundos. Prado dá-se ao trabalho de cronometrar o canto. Ele senta num toco de pau e fica ali, só ouvindo e marcando o tempo no relógio. É assim que ele faz uma seleção genética do plantel. "Galo que não sustenta pelo menos 20 segundos de canto só é bom para a panela", diz. É bom que se diga logo que os galos músicos têm o canto no sangue, ou seja, eles são de uma raça com essa aptidão. ORIGEM ALEMÃ Entre as poucas raças que se conhecem de galos cantores, a da Fazenda Capoava é originária da Alemanha. "Foi a imperatriz Leopoldina, esposa do imperador Pedro I, que os trouxe." Na época, a Côrte Portuguesa estava instalada no Rio. Leopoldina, que era austríaca, conhecia os galos da raça berger, criados na Prússia, e mandou trazer alguns exemplares para o Rio. Dali alguns foram levados para o sul de Minas, e, depois, para o norte de São Paulo. Foi assim que o galo músico caiu no gosto da família de Beatriz Almeida Prado, esposa de Raul. "Meu tataravô veio de Minas para a região de Batatais e trouxe alguns galos." O hobby foi passando de pai para filho. O pai de Beatriz, Fausto Pereira Lima, que ainda é criador em Goiás, percebeu o gosto do genro e o presenteou com algumas aves. Raul ampliou o plantel. Hoje, são 110 cabeças. "O top é o Goiás Velho. Este segura 30 segundos de canto, por baixo", gaba-se Raul. Os galos Fernando da Gata e Alecrim, este filho de Goiás, também são ótimos cantores. Aruanã tem uma voz bem grave, rouca. Alemão está se destacando. Semana passada, Prado descobriu num frangote uma boa promessa. "Puxou um canto de mais de 30 segundos. Vou ficar de olho." Se for selecionado, vai ganhar um nome. As galinhas têm nomes de cantoras, como Fafá de Belém, Betânia e Maria Alcina. As melhores são postas num piquete com os melhores galos. Ali elas chocam as ninhadas e cuidam dos pintinhos nos primeiros dias. Algumas são muito prolíferas: a galinha Inácia chocou e criou 20 pintinhos numa única ninhada. Quando os pintinhos viram frangos, Prado começa a controlar o plantel, no computador. As frangas que põem ovos com mais regularidade são separadas, assim como os frangos que demonstram aptidão para o canto. CRIAÇÃO RÚSTICA A criação é rústica, como a de aves caipiras. Galos e galinhas ficam soltos no pomar, separados por cercas de tela. As aves são vacinadas apenas contra bouba e doença de new castle. As galinhas fazem ninhos no chão, ou em cestas que o criador amarra nas árvores. A alimentação básica é milho inteiro ou moído. As aves pastam e ciscam pelo terreiro. "Elas são ariscas, quase selvagens, não costumam entrar na casa, nem fazem sujeira", diz o criador. "Assim, não incomodam os hóspedes, que só ouvem o canto dos galos." Tanto os machos quanto as fêmeas são aves pequenas, de plumagem colorida. Os galos chegam a 2 quilos, no máximo. As galinhas põem até 150 ovos, miúdos, por ano. Beatriz conta que sua avó não entendia por que o marido mantinha uma criação "tão sem serventia". "Para minha avó, canto bonito não enchia a panela." Raul considera que, por isso mesmo, as raças de galos cantores estão em extinção. "Os criadores são tão poucos que nem temos uma associação." Ele sente falta de concursos e campeonatos nos quais o talento das aves possa ser avaliado. E não vende os espécimes. "De vez em quando faço alguma troca." Os bons cantores ganham aposentadoria e morrem de velhos. Além da raça alemã berger, há no Brasil criadores das raças totenko, japonesa, e denisly hours, de origem turca. Os galos japoneses são os menores, mas têm a cauda mais longa. Os turcos são tão rústicos quanto os de origem alemã. Prado tem a criação não só como hobby mas também para preservar a espécie. O criador acredita que a criação ao sabor da natureza, além de ser mais compatível com a índole dessas aves, também estimula o canto. Não é raro um galo desafiar outro para um duelo sonoro que se estende por horas, para o deleite de quem ouve. INFORMAÇÕES: Fazenda Capoava, tel. (0--11) 4023-0903

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