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Gordura de boi para disfarçar cheiro da droga: como caminhões frigorífico eram usadas no tráfico

Novo modus operandi entrou na mira do Ministério Público de Mato Grosso do Sul para escoar cargas ilegais vindas da fronteira

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Foto do author José Maria Tomazela
Por José Maria Tomazela
Atualização:

Quadrilhas que agem na fronteira com o Paraguai no Mato Grosso do Sul estão usando caminhões frigoríficos para o transporte de drogas. Os veículos frigorificados que transportam carne são lacrados pela Vigilância Sanitária, o que torna a fiscalização pela polícia mais difícil.

Até viaturas da Polícia Civil foram usadas nesse esquema de transporte, denominado “frete seguro” pelos traficantes. O novo modus operandi entrou na mira do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. A mesma prática já foi registrada em Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia.

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Os dois Estados são grandes produtores de carne bovina. O produto viaja grandes distâncias até os portos em carretas ou caminhões frigorificados.

Segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, a droga é escondida em compartimentos camuflados atrás das carcaças bovinas e até nos pneus dos caminhões. Em alguns casos, os traficantes passam gordura de boi na embalagem da droga para disfarçar o cheiro.

As cargas de carne são lacradas pela Vigilância Sanitária quando embarcam nos frigoríficos e o lacre só é retirado no destino para garantir a integridade do produto perecível. Os traficantes retiram as portas traseiras do veículo sem romper o lacre para introduzir a droga em meio à carga.

No percurso, o lacre só pode ser rompido na presença de um agente da fiscalização sanitária e, muitas vezes, a droga passa pelas barreiras policiais sem ser detectada, segundo o MP sul-matogrossense.

Caminhão frigorífico com carcaças bovinas escondia drogas. Foto: Divulgação/Polícia Civil do MS

Droga a domicílio

Em maio do ano passado, câmeras de segurança flagraram duas viaturas da Polícia Civil de Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, entrando na garagem de uma casa, em Campo Grande,. No veículo oficial devidamente caracterizado estavam dois investigadores da polícia lotados na delegacia da cidade.

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Ponta Porã é separada por uma avenida da paraguaia Pedro Juan Caballero, apontada como porta de entrada de drogas para o Brasil.

Os próprios agentes retiraram fardos com pasta-base e cocaína da viatura, entregando para um conhecido traficante, que já havia cumprido dez anos de prisão por tráfico. Da viatura, a droga foi transferida para um caminhão frigorífico de empresa ligada ao tráfico.

Outras câmeras mostraram a viatura policial escoltando o carro do traficante pelas ruas da cidade. Os dois policiais já eram investigados pelo MP, por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que teve acesso às imagens.

O carregamento com mais de 300 quilos de cocaína, que seria levado para São Paulo, foi apreendido oito dias depois pela Polícia Rodoviária Federal em Terenos, a 30 km de Campo Grande. O traficante foi executado a tiros em junho do ano passado, junto com um irmão, em um lava-rápido de Ponta Porã.

Os executores estão foragidos. Os investigadores suspeitos de envolvimento no esquema foram presos preventivamente em operação do Gaeco em 26 de março. Eles não tiveram os nomes divulgados pela polícia.

Operação conjunta apreendeu droga em caminhão de carne, em Cuiabá. Carga procedia da fronteira com a Bolívia. Foto: Sesp/MT

Secretário de Justiça e Segurança Pública, Antonio Carlos Videira confirmou as prisões e disse que as investigações são acompanhadas pelo setor de inteligência da polícia. “Com o Gaeco, a Corregedoria da Polícia Civil prendeu os dois investigadores que usaram a viatura de Ponta Porã para transportar drogas”, disse.

“Já a PF prendeu membros de uma quadrilha de Dourados que enviava drogas em caminhões frigoríficos para grandes centros e as despachava em colchões para a Europa”, acrescentou. Segundo ele, os dois policiais foram afastados de suas funções e são alvo de ação disciplinar.

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Ainda segundo o MP, “além de usar carga lícita como cobertura para transportar a droga, a organização ainda fazia a transferência da propriedade de caminhões entre empresas usadas pelo grupo e os motoristas, desvinculando-os dos reais proprietários, para assim chamarem menos a atenção para eventual fiscalização policial (em regra, a liberação é mais rápida quando o motorista consta como dono do veículo)”.

Os advogados que defendem os dois investigadores presos na operação do Gaeco disseram que eles são inocentes, o que será provado no curso do processo.

Ex-açougueiro

A quadrilha de Dourados que colocava sua frota de caminhões frigoríficos a serviço do tráfico era liderada por um ex-açougueiro que se tornou dono de fazendas e grande produtor de gado, além de ser dono formal de uma transportadora.

Ele e o irmão foram alvos da Operação Sanctus, da PF, realizada em dezembro, com apoio da Secretaria Antidrogas do Paraguai (Senad). Na ocasião, foram cumpridos três mandados de prisão e 21 de busca e apreensão, recolhendo veículos, dinheiros e até um avião da quadrilha.

Conforme a PF, “a atividade da organização criminosa baseia-se na internalização da droga no País a partir da cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, por meio da ocultação de entorpecentes em pneus e caminhões de carga que, para dissimular o transporte da droga, carrega produtos lícitos até o interior do Paraná e, de lá, para o Rio de Janeiro”.

O esquema conta, ainda, segundo a PF, com a ocultação patrimonial de empresas e imóveis em nome de laranjas e testas de ferro. Militares da Marinha ajudaram a localizar e desmontar a carga no Porto do Rio, durante a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), ações preventivas e repressivas no Estado, autorizadas pelo governo federal em novembro.

Os nomes dos envolvidos não foram divulgados, segundo a PF, “com vistas a não atrapalhar os processos investigativos”.

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O processo tramita na 5ª Vara Federal de Campo Grande, mas está sem segredo de Justiça, segundo o Tribunal Regional Federal (TRF-3). No último dia 12, o juízo federal manteve as prisões dos suspeitos, alegando que “a medida é imprescindível por conveniência da instrução criminal” e “considerando que o grupo criminoso apresenta atuação internacional, centralizada na fronteira Brasil-Paraguai, com estrutura logístico-operacional permanente instalada no país vizinho”.

A investigação começou em setembro de 2022, após a apreensão de quase 500 quilos de cocaína em um caminhão-frigorífico interceptado pela PRF em Dourados. A droga estava em malas, embaixo das carnes congeladas. O motorista de 45 anos disse aos policiais que o destino final da carga seria Duque de Caxias, no Rio.

Droga sob carcaças de boi

Em outubro, uma operação da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico, com apoio da PRF, apreendeu 1.514 quilos de maconha camuflados sob as carcaças bovinas, no baú refrigerado de um caminhão frigorífico em Campo Grande. Seis pessoas foram presas. A droga seria levada para São Paulo.

Na ocasião, agentes sanitários da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) fiscalizaram a carne transportada, constatando que estava própria para consumo, pois o sistema de refrigeração não sofreu interrupção durante a ação policial. Contudo, como a rastreabilidade foi prejudicada, o produto não pôde seguir para o destino e a doação foi autorizada pela Justiça.

Em 2 de março, a Polícia Civil apreendeu em Matão, no interior de São Paulo, 800 tabletes de cocaína que eram transportados em um caminhão frigorífico. A abordagem foi na Rodovia Washington Luís. Em meio à carga, foram encontrados também três fuzis e quatro pistolas.

Segundo a polícia, a droga havia entrado no estado a partir de Três Lagoas (MS) e seguiria para a capital paulista. O condutor do caminhão foi preso.

Em 23 de outubro de 2023, a PRF abordou um veículo refrigerado que levava 18 toneladas de carne de frango congelada, na rodovia BR-277, em Irati, no Paraná. Na inspeção, foram encontrados 1.465 quilos de maconha em meio à carne.

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O motorista de 36 anos disse aos policiais que embarcou a droga em Cascavel, no oeste do Estado, próxima à fronteira com o Paraguai. A carne foi submetida à inspeção e liberada para a empresa.

No último dia 2, operação conjunta do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), Batalhão de Operações Especiais (Bope) e PF apreendeu 220 tabletes de cocaína em um caminhão carregado de carnes, em Cuiabá. O veículo foi interceptado na Rodovia dos Imigrantes e a droga foi detectada em um fundo falso no assoalho do baú frigorificado. Para acessar o assoalho do caminhão, onde a cocaína estava escondida, foi preciso descarregar a carne.

O motorista, de 36 anos, disse que levaria a carga para São Paulo. Ele foi preso e o caso é investigado. Conforme a Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso, além do Gefron, a Polícia Militar também monitora os veículos de carga procedentes da Bolívia.

Segundo a Polícia Civil, normalmente a droga entra no Brasil em veículos menores e depois é transferida para os caminhões. As rotas mais utilizadas pelas quadrilhas passam por Cáceres, Pontes e Lacerda e Porto Esperidião, cidades do Mato Grosso na fronteira com a Bolívia.

A reportagem questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre a fiscalização do transporte de produtos de origem animal e do uso desse meio para o tráfico de drogas e aguarda retorno.

Com a intensificação da fiscalização aérea para coibir o tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul, região de fronteira, os traficantes tiveram que mudar o modus operandi, migrando para o tráfego terrestre, não apenas utilizando os veículos de transporte de cargas, mas também para todo e qualquer tipo de veículo.

O Sindicato das Empresas de Transporte e Logística de Mato Grosso do Sul “tem orientado as empresas a realizarem palestras e treinamentos alertando os motoristas para não caírem na sedução de se tornarem “mulas”.

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A entidade ainda orienta que todas as paradas a serem realizadas durante o trajeto sejam feitas em locais seguros, que dificultem a abordagem dos traficantes. Hoje, todas as cargas de proteína animal são rastreadas utilizando o monitoramento via satélite.

“O setor rodoviário de cargas necessita de fiscalizações contínuas nas rodovias para dificultar o acesso do crime organizado ao transporte comercial”, diz o órgão.

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