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Ivan Lessa: A grife é nossa

A Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo do mundo. O país é riquíssimo e são todos uns príncipes. Príncipes multi-biliardários.

Por BBC Brasil
Atualização:

A Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo do mundo. O país é riquíssimo e são todos uns príncipes. Príncipes multi-biliardários. O Brasil acaba de descobrir petróleo. Muito petróleo. Para desgosto dos cínicos pouco patriotas. O petróleo da Arábia Saudita fica debaixo da areia, logo depois de quem passa pela bosta de camelo. O petróleo do Brasil fica no mar e, até agora, naquelas profundas próximas ao Rio de Janeiro, só os peixes o encaravam com aqueles olhões estúpidos sem nada entender. O petróleo brasileiro só foi descoberto por que finalmente pararam de cavar na Bahia, onde só encontravam restos mortais de cangaceiros menores, e uma bem treinada equipe de geólogos foi fazer surfe. Os brasileiros, principalmente os cariocas, têm mania de ficar vendo o sol nascer e se pôr. Esse fenômeno muito natural, eles acham uma beleza (ou "duca" e ainda "tremenda curtição", conforme dizem em seu linguajar primitivo, porém pitoresco). Daí que não prestaram atenção naquele petróleo todo, logo ali, debaixo do nariz deles, louco para jorrar e nos tornar a todos uns príncipes sauditas. Disso tudo, fica a pergunta: é bom ser príncipe saudita? É bom mandar decapitar ladrão em praça pública? É bom, conforme a própria BBC registrou semana passada, ser mulher num país onde elas podem ser estupradas por gangue e, mais tarde, condenadas a 200 chibatadas e seis meses de prisão por infringir as leis de segregação por sexo no país? Todas essas perguntas serão respondidas aqui mesmo neste local em um futuro próximo. De qualquer forma, eu pergunto - mera retórica - serão felizes os multi-biliardários príncipes sauditas soltos com suas fortunas pelo mundo afora? Mais importante: o dinheiro, mesmo o obtido com a exploração do petróleo, traz a felicidade? Vejamos um caso que estourou na imprensa britânica no mês passado. Chegou aos mais altos tribunais deste país a ação por perdas e danos que o cidadão britânico Walid Al Hage, de origem libanesa, está movendo contra o embaixador saudita no Reino Unido, príncipe Mohammed bin Nawwaf in Abdul Azis, sobrinho do rei Abdullah, e como é comum em sua terra, um grande apreciador das coisas boas e caras deste mundo. Alvorada, pôr-do-sol e surfe não são coisas para ele. O príncipe saudita acredita, em meio às suas várias fés, que a felicidade se compra, sim, senhor. Se compra e muito. A ação que Al Hage move é conseqüência de sua experiência como secretário particular do embaixador. Al Hage vivia uma pacata vida, bem libanesa, dirigindo uma livraria árabe no Reino Unido, até que o acaso lhe colocou em contato com o príncipe-embaixador e o senhor seu pai, lá dele. De amigão e confidente, passou ao alto cargo de confiança. Tanta confiança que, alega ele agora na justiça, cabia-lhe fazer as compras do senhor embaixador, ou sua majestade saudita, se preferirem. Walid Al Hage foi processado por uma dívida que excede os US$ 6 milhões e acusado pelos devedores de não pagar. Al Hage, então, por sua vez, foi e deu início a um processo contra o real e diplomático saudita alegando que essa dinheirama toda fora incorrida por conta das compras que fazia para o príncipe. Até aí foi decapitado e chibatado Neves. O importante é a listinha de compras do príncipe Mohammed bin Nawwaf. O senhor príncipe era caprichoso. Gostava de gastar mesmo. Segurem aí uma lista das mais parciais, modesta até eu diria, já que não tenho espaço para enumerar nem um vigésimo dos luxos (tem luxúrias também, nas quais entraram mas não entrarei eu) adquiridos. Lembremos que tudo o que se segue foi adquirido no breve espaço de 3 ou 4 anos. - Um pick-up de luxo Chevrolet Avalanche: 39 mil e 250 dólares- 43 relógios de grife (num período de 18 meses): 700 mil dólares.- 2 Jaeger Le Coultres (relógios também): uns bons 70 mil dólares- Um Patek Philippe: por volta de 46 mil dólares- Faqueiros (sempre de grife, no caso as de Curty&Fils e mais a Laguiole, ambas de Paris): 33 mil dólares- Diversos itens da loja Lanvin, sempre em Paris: mais de 300 mil dólares.- Uma pistola Beretta (o senhor príncipe é chegado a armas de fogo): 8 mil dólares- Revólveres antigos, espingardas, metralhadora e espadas: 80 mil dólares- Câmeras Raytheon adaptadas para uso noturno especialmente importadas dos Estados Unidas e acopladas a um Humvee H2 (veículo de uso militar): a pechincha de uns 180 mil dólares A lista toda, publicada pelo jornal The Guardian, e disponibilizada em sua garbosa integridade num site especial, daria para encher um Diário Oficial, aqueles dos nossos. Por motivos legais e diplomáticos, não vou publicar aqui neste espaço a foto do príncipe Mohammed. E, só de digitar seu primeiro nome, sinto calafrios, como alguém prestes a receber um fatwah ou assassino contratado para o chá. Minha intenção é a melhor possível, prevenir vocês todos, meus velhos conterrâneos, companheiros de tantas lutas: é preciso estar atento e resistir a todas as tentações quando, junto com o petróleo marítimo carioca, jorrarem também as inimagináveis moedas de grife (euro, libra esterlina, dólar, real, rial) deste mundo de Deus e de Alá (seja louvado). Botem na poupança, vão de Bovespa, estufem colchões. Jamais, no entanto, ir às compras de maneira saudi-estapafúrdia. No máximo, uma chegadinha à rua Garcia Dávila, no Rio, nosso Faubourg Saint-Honoré, e olhem lá. Ou seja, curtam vitrinas. Como se fossem o anoitecer lá para as bandas do morro Dois Irmãos. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. 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