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Carros elétricos da Gurgel: os pioneiros testes em Rio Claro em 1974

Cidade do interior de São Paulo foi pioneira em teste e legislação para veículos elétricos da fábrica brasileira Gurgel

Foto do author Edmundo Leite
Por Edmundo Leite
Atualização:

Se atualmente os carros elétricos estão começando a se incorporar à rotina dos motoristas, nos anos 1970 um teste com veículos movidos à energia elétrica era uma novidade. Mesmo com a crise do petróleo explodindo no mundo naqueles dias, a alternativa de substituir motores à combustão pela eletricidade era incomum.

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Assim, a notícia de que Rio Claro, em São Paulo, testaria os carros elétricos na cidade junto com a fabricante Gurgel ganhou destaque numa página no Jornal da Tarde de 9 de janeiro de 1974.

O repórter Castilho de Andrade contou como eram os carros e como a cidade aprovou uma pioneira legislação de incentivo ao uso do carro elétrico. Leia a íntegra.

Jornal da Tarde - 9 de janeiro de 1974

Reportagem sobre o teste de carros elétricos da Gurgel no Jornal da Tarde de 9 de janeiro de 1974. Foto: Acervo Estadão

A pequena Rio Claro lança sua nova arma contra a poluição

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O CARRO ELÉTRICO

A grande preocupação de Rio Claro (100 mil habitantes, a 172 quilômetros de São Paulo) é o combate à poluição. Por isso, quando a Gurgel perguntou se a cidade aceitava testar seus novos carros, elétricos, a Cãmara Municipal aprovou por unanimidade a legislação sobre circulação de carros elétricos em suas ruas. Cem carros elétricos serão construídos, a CESP oferecerá energia gratuita e Rio Claro será a primeira cidade brasileira a fazer essa experiência.

Reportagem de Castilho de Andrade.

Pequenos e práticos postes elétricos vão concorrer com os postos de gasolina da cidade de Rio Claro. Esta cidade do interior de São Paulo foi escolhida, pela Gurgel para testar os primeiros 100 carros elétricos da fábrica.

O projeto já está pronto e dentro de seis meses os veículos poderão iniciar os testes. Segundo o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, responsável pelo carro elétrico, o sucesso é garantido. O veiculo é econômico, resistente e não polui o ar.

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A única preocupação do engenheiro Amaral Gurgel, 47 amos, formado em engenharia automobilística nos Estados Unidos, é que pensem que ele aproveitou a crise mundial do petróleo para lançar um carro que não utiliza esse combustível. O projeto tem oito anos de estudo e só não foi desenvolvido antes porque a patente demorou para ser fornecida.

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O engenheiro Amaral Gurgel, proprietário da Gurgel é responsável por todos os projetos da fáabrica. Atualmente ela só esta fabricando o utilitário Xavante — veículo entre o buggy e o jeep — já exportado para alguns países da América do Sul.

— O carro elétrico não é uma grande novidade. Diversos paises, como o Japão e Estados Unidos estão desenvolvendo este tipo de veículo. Nossa grande conquista foi um tipo especial de carroceria para compensar o peso das baterias.

O carro elétrico da Gurgel é formado de três partes: a parte de cima (teto, vidros e portas) que se encaixa na parte inferior (os paralamas) através de uma peça de plástico (o chão do veículo). O conjunto representa um chassis inteiriço onde o peso do motor e das 12 baterias é distribuído por toda a estrutura do veículo.

Segundo o engenheiro Amaral Gurgel, além de conseguir compensar o peso das baterias (125 quilos), o veículo fica com uma cabine indeformável, garantindo a segurança do motorista.

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O funcionamento é simples. O veículo não tem câmbio e o motorista so utiliza dois pedais: acelerador e freio. As baterias são carregadas na eletricidade comum através de um fio que existe na traseira do veículo. O carro em uma autonomia de.60 quilómetros, sem recarga.

Segundo os planos da Gurgel, o carro elétrico será ideal nas cidades pequenas como Rio Claro (100 mil habitantes). Enquanto o veículo estiver parado poderá ser carregado. Por isso, a fábrica vai instalar diversos postes elétricos especiais em toda a cidade. Cada poste pode carregar dois carros ao mesmo tempo.

Um dispositivo especial desliga a eletricidade automaticamente, assim que as baterias receberem o limite máximo de carga.

— Durante a noite, as baterias poderão ser ligadas na tomada. Ou então enquanto o proprietário trabalha no centro da cidade ou vai a um cinema.

O engenheiro Amaral Gurgel sempre achou que a capacidade hidrelétrica do Brasil deveria ser melhor aproveitada para os transportes. Ele não gostou de ver a Prefeitura Municipal de São Paulo, no começo da década de 60, retirar a linha de bonde que ligava o centro de São Paulo ao bairro de Santo Amaro.

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— Era um veículo rápido e útil. Os técnicos deveriam ter procurado outra solução para o problema do trânsito. Mas não é só este o grande defeito de nossos transportes. Nós passamos por cima da era das ferrovias e só abrimos estradas. Isso foi prejudicial.

Segundo os cálculos da Gurgel, o carro elétrico custará cerca de 15 mil cruzeiros. A manutenção é muito barata e o consumo foi calculado em 15 centavos por cada 10 quilômetros rodados. Um carro médio consome um litro de gasolina (1,03 cruzeiros) em cada sete quilômetros.

O motor elétrico, em fase de construção, tem uma potência de tres mil rotações por minuto. As baterias são de 72 volts, com caixa de plástico para ficar mais leve, que estão sendo utilizadas por carros Volkswagen. Em tese, é o mesmo sistema dos ônibus elétricos, só que possui uma potência menor.

O CARRO

O modelo do primeiro carro elétrico tens as seguintes medidas: três metros de comprimento. 1,46 metros de largura e 1,45 metros de altura. O peso total é de 485 quilos e a capacidade de carga, 250 quilos. A velocidade não ultrapassa os 50 quilômetros por hora.

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— O carro, depois, poderá servir para cidades grandes. Eu penso em projetos para padeiros. por exemplo. que trabalham de manhã e teriam o resto do dia para a recarga. Ou então para mulheres fazerem compras no Jardins Europa. Seria um veículo com uma autonomia menor, para circular apenas em uma área da cidade.

Depois dos testes dos cem primeiros carros construídos, a Gurgel estudará as possibiidades de uma grande industrialização. Uma nova fábrica está sendo construida em Rio Claro, para aumentar sua produção de veículo.

E, com boa aceitação em cidades pequenas, o engenheiro acredita que o preço poderá baixar. Além de pretender vender carros a preço de custo, a Gurgel vai tentar a isenção e diversas taxas junto ao Contram, que só se referem a veículos móvidos a gasolina.

Um orgulho: a primeira cidade do mundo a ter uma lei para carros elétricos

Rio Claro é a primeira cidade do mundo a criar uma legislação sobre carros elétricos. O prefeito Oreste Armando Giovanni está contente porque esse é mais um passo no seu plano de garantir o ar puro da cidade.

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A meta de minha administração é combater a poluição antes que ela chegue a Rio Claro. Nós temos muitas praças e ruas bem arborizadas que chegam a impressionar alguns visitantes. O carro elétrico é mais uma vitória sobre a poluição.

Rio Claro, 100 mil habitantes, 503 quilômetros quadrados e a 172 quilômetros de São Paulo, vive, principalmente, da indústria e comércio.

Antigos administradores não se animaram muito com a idéia de desenvolver a cidade através do ICM das indústrias, o que limitou a instalação de indústrias em Rio Claro.

A Prefeitura criou um distrito industrial a cinco quilômetros da cidade, depois de estudar a direção dos ventos. Na posição em que foi instalado o distrito, no sul o vento evita que qualquer fumaça atinja Rio Claro.

O prefeito Oreste Armando Giovanni continua com a mesma preocupação de seus antecessores. No ano passado ele recusou a instalação de uma grande fábrica no distrito industrial, porque sabia que ela seria altamente poluidora.

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Além disso, o prefeito está cuidando da construção de um grande cinturão verde em torno do distrito industrial para garantir ainda mais pureza do ar.

— Fiquei preocupado com as notícias e comentários sobre a poluição nos jornais da Capital. Depois de ler tanto sobre os perigos resolvi combater qualquer ameaça de poluição em Rio Claro. Nesta época fui eleito prefeito da cidade.

O prefeito Giovanni, 66 anos, contador, vai enviar proximamente um novo projeto à Câmara Municipal: a arborização de todas as ruas da cidade. Ele sabe que o projeto será aprovado e por isso escolheu até o tipo de árvore: a cibipiruna. que é baixa e bem copada.

A legislação sobre carros elétricos foi aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Rio Claro, e se transformou na lei 1320, de 14 de dezembro de 1973.

A legislação foi criada depois que órgãos tácnicos da Prefeitura analisaram as possibilidades de circulação do carro elétrico. Os engenheiros chegaram à conclusão de que a cidade era ideal para os testes. Rio Claro é uma cidade plana, bem traçada, com longas ruas e avenidas pavimentadas.

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O primeiro artigo da lei fala sobre os locais de estacionamento e recarga dos carros elétricos:

“Artigo 1º — Fica a Prefeitura Municipal autorizada a criar em locais especiais, convenientemente distribuídos na cidade, pontos para o estacionamento gratuito e exclusivo de carros elétricos urbanos e em número condizente com o crescimento da quantidade dos referidos carros.

Parágrafo único — Os pontos de estacionamento, de que trata este artigo, serão deter minados mediante Decreto Executivo e poderão ser utilizados, pelos carros elétricos de maneira continua, sem rsestrição de “horário e pelo tempo necessário à recarga parcial ou, total de suas baterias.

A lei fala ainda da obrigação da Gurgel de iniciar a construção dos carros no prazo de um ano (a partir da data de publicação da lei.)

Segundo. o prefeito Giovanni, a cidade recebeu muito bem a idéia de servir de testes para os carros elétricos. ”A população está animada e muito curiosa com o assuto”. Além disso, o prefeito está satisfeito com o entusiasmo do dr. Lucas Garcez, o presidente da CESP, que prometeu todo o apoio para o projeto.

A CESP é quem fornesce energia elétrica para Rio Claro. E nos primeiros meses a energia utilizada pelos carros.elétricos, através dos postes de estacionamento, não será cobrada.

Jornal da Tarde

Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira. Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

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