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Litígios letais

Por Ivan Lessa
Atualização:

De uns tempos para cá, os ingleses começaram a se processar violentamente. Peraí, melhor eu reescrever isso antes que alguém me leve a juízo. De uns tempos para cá, os britânicos começaram a se processar uns aos outros. Muitas vezes com toda razão, acrescento, evitando assim o susto de um oficial de justiça (nunca se sabe) me sapecar um papel informando que estou sendo processado judicialmente. Acho que o primeiro processo, desses que eu só estava acostumado a ler a respeito e era sempre nos Estados Unidos, a pegar primeira página de jornal aqui foi há alguns anos, quando uma senhora processou o McDonald's por estar servindo um café quente demais. Não sei quem ganhou. Espero que tenha sido o McDonald's. Odeio café frio ou morno. Café deve ser pelando e é pra gente ficar soprando até esfriar. De lá para cá, vira e mexe e tem um processo que nem dá para empregar o chavão clássico e chamar de kafkiano. Franz Kafka, afinal, narrava algo de que não se sabia nem o como nem o porquê. Paranóia pura. Esta semana, aqui, chegou ao seu fim um processo que eu acompanhava com interesse. O processo Seguinte: Alexander Martin-Sklan, contador diplomado de escol, alega que sua carreira profissional sofreu um sério baque quando ele caiu e se machucou após escorregar numa uva bem na frente de um dos supermercados da cadeia Marks & Spencer, uma das mais populares (e queridas também, garanto eu) destas ilhas. O contador de sobrenome hifenado, que aqui por estas bandas conta pra burro (atenção: não estou fazendo gracinha com "conta" e "contador" e a palavra "burro"), afirma que desde o infeliz incidente, ou melhor, acidente, vive deprimido, perdeu toda a confiança em suas capacidades contabilistas e, de uma maneira geral, tem comido o pão que o diabo amassou. Alexander Martin-Sklan, repetindo seu nome, uma vez que é sonante como o trompete de Miles Davis, rompeu seu tendão quadríceps na infausta ocasião. Aos 55 anos de idade, Alexander Martin-Sklan pratica vários esportes, entre eles o esqui (não está claro se na água ou na neve; possivelmente nos dois), o tênis e o nosso (ou deles) bom e velho futebol. O contador ganha bem. Por volta de 450 dólares por hora. Por hora! Uma boa, pois. Desde o episódio com a uva, é capaz de estar tendo dificuldade em se concentrar nas contas e números com que tem de lidar, especulo eu. No processo, Alexander Martin-Sklan não menciona como vão seus negócios. O que ele menciona, em alto e bom som, ou caprichada letrinha preta no papel branco, é a quantia de por volta dos 600 mil dólares, que, na sua opinião, é o quanto lhe valeu o tombo. Os fatos nus e crus Foi um espetáculo dantesco. É o que se depreende lendo a versão de Martin-Sklan. Segundo sua narrativa, em 2004, no estacionamento de carros do supermercado Marks & Spencer em Finchley Road, norte de Londres, ele vinha serenamente empurrando o seu trolley de compras quando um carro em sua proximidade fez uma manobra qualquer que o assustou. Frise-se que Martin Sklan nada tem contra esse motorista. A briga toda é com o Marks & Spencer. Pois bem, forçado, devido ao carro, a parar subitamente, ele escorregou e caiu de mau jeito. Mais tarde, mas não muito mais tarde, ele achou incrustado em seu sapato um pedaço de uma fruta na qual pisara na frente do M&S, como, abreviadamente, é conhecida a rede de supermercados. Examinando detidamente, Martin-Sklan, bom contador que é, reconheceu na fruta uma uva. A cor da qual não chegou aos jornais. Mas era, segundo ele, definitivamente uma uva do M&S, o que, em seu entender, e de seus advogados, constitui um "perigo intolerável" para os passantes e parantes. Por esse motivo, Martin-Sklan resolveu processar o M & S. Pela política dos responsáveis do M&S de só limpar o estacionamento uma vez por semana. O pessoal do M&S nega veementemente haver negligência de sua parte. Conclusão Na quarta-feira, dia 12 do corrente, o processo chegou a seu fim, com o juiz dando ganho de causa à gente boa do Marks & Spencer. Alexander Martin-Sklan terá agora de agüentar firme com o tendão em farrapos e, além do mais, contabilizar um pouco mais do que sua média, uma vez que as despesas com o processo ficaram todas por sua conta e contabilidade: perto de 30 mil dólares. O indivíduo em questão (quem perde caso na justiça é sempre "indivíduo") recusou-se a qualquer comentário após a decisão judicial. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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