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Opinião|O mais espantoso na IA não é o que ela nos diz, mas ela conseguir falar

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Atualização:
O apaixonado Theodore (Joaquin Phoenix), que carrega sua amada Samantha no bolso da camisa, no filme "Ela" (2013) - Foto: reprodução

Há alguns dias, estava pensando em como a inteligência artificial generativa, puxada pelo ChatGPT, finalmente venceu o mítico Teste de Turing. Para quem não o conhece, ele foi criado em 1950 pelo cientista britânico Alan Turing, como uma forma de identificar se um computador se comporta de forma inteligente o suficiente para se passar por um ser humano.

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Mas afinal, os computadores estão se tornando humanos ou pelo menos se parecendo a nós?

Considerado o pai da ciência da computação e da inteligência artificial, Turing concebeu o teste como uma conversa em linguagem natural escrita entre um avaliador humano e outra pessoa e um computador. Se ao final dela, ele não for capaz de distinguir a pessoa da máquina, então ela terá sido aprovada.

Não se trata, portanto, de a máquina dar respostas verdadeiras, mas de se comunicar como uma pessoa. E de fato, o ChatGPT e sua turma ainda trazem muitas informações erradas misturadas com corretas. Mas apresentam isso de uma maneira tão convincente, em respostas tão bem escritas, que chegamos a acreditar em barbaridades que nos contam.

É ruim para nosso ego, mas a máquina chega a se comunicar melhor que nós mesmos!

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Entregar conteúdos úteis e relevantes nem de longe faz um computador se parecer com alguém. Se fosse assim, o Google já teria passado no teste em 1998, quando foi lançado e destronou o AltaVista do posto de melhor buscador da Internet. E ninguém jamais pensou que suas respostas fossem produzidas por uma pessoa!

O que nos tornava únicos nesse planeta era nossa capacidade de nos comunicarmos com uma linguagem capaz de transmitir perfeitamente conceitos complexos. É por isso que a IA generativa nos causa tanto espanto: não estamos mais sozinhos! Se antes dela, nem o mais esperto chimpanzé seria capaz de nos ludibriar, agora um smartphone barato pode fazer isso.

Especialistas podem discordar de que a IA generativa esteja com essa bola toda. É verdade que essas plataformas, além de suas "alucinações" (as bobagens inventadas quando não sabem o que dizer), podem se confundir com perguntas capciosas. Tampouco são criativas, limitadas ao que foram treinadas (ainda que com informações virtualmente infinitas). O próprio o Teste de Turing não é um indicador definitivo de inteligência.

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Ainda assim, como negar a sua "humanidade" quando vemos uma multidão usando o ChatGPT como seus psicólogos ou, pior ainda, seus namorados? O cérebro humano é sugestionável a ponto de se confiar nos conselhos dessas "sessões de terapia" e até de se apaixonar pelo bot!

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Impossível não pensar no filme "Ela" (2013), de Spike Jonze, em que o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix, na foto) se apaixona por Samantha, o sistema operacional inteligente de seu computador e celular (na voz de Scarlett Johansson). Em uma época em que as massas não debatiam IA, o que a tornava irresistível era sua fala tão "humana".

A verdade é que não sabemos ainda lidar com essa "intrusa" em nossa humanidade. Nós a criamos, mas, de certa forma, não a controlamos. Ela desafia nossa racionalidade, emoções e sentidos. Como não acreditar que o papa Francisco estava passeando com um pomposo casacão branco quando vimos aquela foto? Apesar de ter sido uma das imagens mais publicadas no ano passado, era absolutamente falsa, sintetizada pela IA!

Agora discutimos se a IA pode ser dona do que inventar, e até lucrar com isso (no caso, seus desenvolvedores). O Gabinete de Marcas e Patentes dos Estados Unidos acabou de determinar que não pode, mas permite que ela seja usada extensivamente em pesquisas. Oras, nesse caso, quem é o inventor: a máquina ou a pessoa?

Mesmo que você não esteja buscando uma patente, "conversar" com a IA (sim, esse é o verbo adequado) pode contribuir muito com seu trabalho e outras tarefas. Tanto que profissionais que já fazem isso estão se destacando no mercado.

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Você já está preparado para abraçar essa companhia tão eloquente?


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Opinião por Paulo Silvestre

É jornalista, consultor e palestrante de customer experience, mídia, cultura e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP, e articulista do Estadão. Foi executivo na AOL, Editora Abril, Estadão, Saraiva e Samsung. Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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