Violência espalha-se pelo Quênia e governo mobiliza helicópteros

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Por DAVID LEWIS
Atualização:

Helicópteros militares do Quênia foram mobilizados para dispersar grupos armados com facões na terça-feira, dia em que o assassinato de um legislador da oposição fez intensificarem-se ainda mais os violentos protestos ocorridos neste país do leste da África. Cerca de dez pessoas foram mortas na terça-feira, elevando para mais de 850 o número de vítimas fatais dos conflitos iniciados com a polêmica reeleição do presidente Mwai Kibaki, no dia 27 de dezembro, e que agora adquirem um feitio étnico. As manifestações realizadas após o pleito transformaram-se em ondas de assassinato entre tribos rivais que sempre se desentenderam a respeito da divisão de terras, riqueza e poder deixada pelo regime colonial britânico e aprofundada ao longo dos 44 anos de história do país desde sua independência. A crise custou ao Quênia sua reputação de reduto da paz em uma região turbulenta e prejudicou a maior economia do leste africano, antes em franca expansão. Kibaki apelou pelo final dos conflitos e prometeu investigar com rapidez o assassinato "hediondo" de legislador Melitus Were, do Movimento Democrático Laranja (ODM), morto a tiros quando se aproximava do portão de sua casa. A intensificação da violência diminuiu as esperanças de que a crise possa resolver-se nas negociações mediadas por Kofi Annan, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo repórteres da Reuters presentes na cidade de Naivasha, dois helicópteros investiram várias vezes, disparando o que a polícia descreve como sendo balas de borracha, contra uma multidão formada por cerca de 600 kikuyus, a etnia de Kibaki, armados com facões e bastões em Luos, a tribo de Ralia Odinga, líder da oposição. As aeronaves deram vôos rasantes também em outras áreas de Naivasha onde grupos realizavam ações violentas. A polícia abriu fogo contra algumas pessoas, matando um homem. Conflitos étnicos ocorreram em Kibera, a favela de Nairóbi onde morava o legislador assassinado. Um funcionário da Reuters viu sete cadáveres, alguns com cortes na cabeça e no pescoço. Um homem ficou agonizando depois de ter sido circuncidado à força. Ele acabou não resistindo aos ferimentos e morreu. Distúrbios atingiram também o vale Rift, onde grupos saquearam casas, queimaram os pertences de algumas pessoas e ameaçaram outras que tentavam fugir de Naivasha. Um outro funcionário da Reuters viu um homem ser morto a golpes de facão. "Tememos o recrudescimento da violência, com ataques e contra-ataques realizados por tribos e etnias rivais", afirmou em Bruxelas John Holmes, chefe da área ajuda humanitária da ONU. Os turistas fugiram do país e os hotéis esvaziaram-se. O xelim queniano atingiu sua cotação mais baixa dos últimos três anos. Cerca de 250 mil pessoas já abandonaram suas casas. Os resultados oficiais da eleição de 27 de dezembro apontaram para uma vitória apertada de Kibaki. Mas Odinga diz que houve fraude. Observadores estrangeiros afirmam que o processo viu-se prejudicado por várias falhas. Em visita a Ruanda, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, disse estar "enormemente preocupado com a violência atual e com a falta de avanços no diálogo."

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