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Como novo instituto na Amazônia quer impulsionar estudos sobre biodiversidade na floresta

Sediado na Universidade Federal do Pará, espaço quer fomentar pesquisas que tenham a participação de povos tradicionais, como indígenas e quilombolas

Atualização:

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Síntese da Biodiversidade Amazônica (INCT-SinBiAm) é jovem, mas já nasceu cheio de possibilidades. Sediado na Universidade Federal do Pará (UFPA), ele foi lançado em dezembro com o objetivo de integrar dados obtidos em pesquisas e gerar conhecimento para embasar políticas de conservação da floresta.

Ideia do instituto é pesquisa e propor soluções para a floresta Foto: Luciano Fogaça de Assis Montag

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Para isso, o instituto tem uma estrutura de pesquisa colaborativa, em que os aprendizados servem de base para desenvolver outros projetos conduzidos pelos parceiros que integram a rede. São 57 membros oriundos de 32 instituições de pesquisa nacionais e internacionais — 15 delas na própria região amazônica.

O formato de rede ganha importância quando se pensa na escala continental do bioma — o que representa justamente um dos desafios para a pesquisa.

A diversidade das formas de vida na região oferece oportunidades ricas para cientistas, mas muitas vezes impõe dificuldades, tamanha a demanda de recursos financeiros e humanos para acessar as áreas pesquisadas.

Um dos diferenciais da nova iniciativa será a produção do conhecimento junto a membros de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e seringueiras.

Leandro Juen, coordenador do instituto, explica que a parceria com a população é valiosa — principalmente no que diz respeito a informações sobre a ocorrência de certas espécies, estratégias tradicionais de conservação e avaliações dos impactos da ação humana e das mudanças climáticas.

“Esses conhecimentos podem estar integrados às análises nos laboratórios e centros de pesquisa para um melhor entendimento da preservação do meio ambiente”, afirma ele, também professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

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Segundo Juen, a produção de conhecimento sobre os impactos da ação humana ou do clima sobre a biodiversidade costuma ocorrer de forma hierarquizada, o que ele chama de “ciência helicóptero”. “Pesquisadores, geralmente homens vindos de centros urbanos, realizam visitas pontuais nos territórios de coleta, sem diálogo com as comunidades”.

Yuri Kuikuro, liderança indígena do povo Kuikuro, do Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, conta que a aproximação de pesquisadores costuma gerar expectativas, que muitas vezes se tornam frustrações.

“A pessoa vai ao TI (território indígena), está pesquisando e a gente espera que vai dar retorno para ajudar indígenas, e não apenas aumentar o currículo e o nome”, afirma.

Na ciência de síntese, por outro lado, há integração de dados, metodologias e conceitos de diferentes disciplinas e origens para gerar novos conhecimentos. Quando o objeto de estudo é a biodiversidade da Amazônia, os pesquisadores do INCT-SinBiAm acreditam que a coprodução de conhecimento, alinhada a políticas públicas de conservação, pode dar mais eficiência aos investimentos.

Rede reúne 32 instituições do Brasil e do exterior Foto: Thaísa Sala Michelan

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“Essa forma de gerar conhecimento, envolvendo as pessoas que de fato ocupam a região, é crucial para garantir a efetividade e longevidade de novas políticas públicas”, completa Juen.

Yuri Kuikuro, mestrando em Ecologia no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)  — ligado ao INCT-SinBiAm —, acredita que mais indígenas devem ser chamados a contribuir para as discussões sobre a conservação do bioma. “Isso (a Amazônia) não é um mercado para nós, mas nossa riqueza, que cuidamos muito”, diz.

A abordagem focada na coprodução valoriza o conhecimento das comunidades tradicionais, reconhecidas como defensoras da floresta. Embora já existam, na maioria das vezes, informações científicas sobre as espécies estudadas, levar em consideração a importância desse animal ou planta de uma perspectiva espiritual no território  — vinculado, por exemplo, a lendas —, é um novo passo para compreender de forma mais ampla o seu valor para a região.

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Um dos projetos associados ao instituto - Sínteses para Políticas na Amazônia (SiPAm) - adota metodologias participativas junto a lideranças de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e seringueiras. O projeto SiPAm conta com financiamento da Universidade de Bristol (Reino Unido) e realiza imersões em diferentes Estados da região.

As atividades desenvolvidas com esses grupos têm foco na pedagogia popular e dois objetivos: conhecer as perguntas ligadas à conservação do bioma que esses atores gostariam que a Ciência respondesse; e coproduzir evidências científicas sobre as soluções para as ameaças enfrentadas.

São realizadas, por exemplo, expedições de coletas de diferentes espécies aquáticas e terrestres, para avaliar os impactos da ação humana e das mudanças climáticas. Além disso, o instituto tem um braço de divulgação científica que atua em escolas rurais e indígenas, com a realização de residências pedagógicas, palestras e materiais didáticos focados na biodiversidade local.

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